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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Nos Subterrâneos da Europa

     Oferecida carona, oportunidade aproveitada, de carro até muito próximo à Amsterdam, bonito o interior da Holanda, foi nessa viagem trinta anos atrás que me dei conta como as coisas já funcionavam bem no velho continente, meu amigo simplesmente pegou a rota, incluindo vários países França, Bélgica, Holanda, programou o pedágio como um todo e não paramos em lugar nenhum, andávamos como se fronteiras não houvesse, no banco do carona detive-me a contemplar a organização das cidades e dos campos por quais transitávamos.

    Chegando à capital da Holanda, hospedei-me em um hotel simples, limpo e agradável adequado ao pouco dinheiro que possuía, sempre viajava usando as sobras das diárias, e isso era suficiente para estes momentos de lazer, a Europa tem como principal característica o respeito à relação prestador e receptor de serviços, em todos os lugares, talvez um pouco menos na Itália onde algumas tentativas de tirar vantagem do fato de ser turista me surpreenderam, mas nesse país em específico tem que contar o sangue latino e a crise econômica vivida pelo país na época, nunca esquecendo que a beleza incomparável de suas cidades, Roma, Veneza, entre outras quase tudo justifica.

     Por um lado me deliciava com o respeito às liberdades individuais na Holanda, a abertura para aceitar as necessidades de cada um, abrindo-se espaços para os cafés dos curtidores de maconha, para as vitrines onde se expunha a prostituição, por outro me desloquei por seus canais maravilhosos, andei em seus museus, percorri suas ruas e as belas e preservadas construções carregadas de histórias, convivi com pessoas agradáveis e hospitaleiras, essa cidade é a maior dos países baixos e realmente te traz a sensação de valer a pena viver em tal lugar.

     Porém não estou relatando essa viagem pelo óbvio e sim pelo inusitado de ser surpreendido por uma greve internacional de trem, chegando à estação para adquirir a passagem de volta, tinha que estar de volta no início da tarde de segunda, não havia trem, nem previsão de quando o teria, iniciou-se então a aventura: como voltar? Na rua principal encontrei por cinquenta dólares uma passagem para Paris de “magic bus”. 

     Só consegui me tranquilizar ao chegar ao outro dia fim da manhã na Gare Du Nord, na saída ao chegar à estação do Metrô, era noite no local do embarque, retirado da cidade não havia nada nem ninguém, aos poucos começaram a aparecer algumas pessoas, por fim apareceu o tal ônibus, literalmente nos jogaram dentro do mesmo, não se pediu documento só o ticket, o motorista mal educado, autoritário exigiu silêncio sob o risco de parar e mandar descer todo mundo, só parou na Bélgica para translado de ônibus, questão de autorização de trânsito, estava nos subterrâneos da Europa, transporte clandestino e imaginei que esse tipo de caminho poderia muito bem ser utilizado pelos terroristas que na época por lá andavam.  

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

No Canto do Encanto

     O trem andava solto entre Paris e Copenhagen, década de oitenta, século passado, eu era um sul-americano na cabine contemplando o barulho continuado do mover-se sobre os trilhos, o destino era virgem em seus encantos e percalços para mim o passageiro, minha primeira aventura em um país nórdico, a esperança que percorria minha imaginação em curtir bons momentos estava em minhas origens europeias, descendente de migrantes da Prússia antiga e do império Austro-Húngaro, bem o sabia excetuando-se meu avô materno que tinha vindo da região das minas de carvão na Alemanha, em relação aos tataravôs seria muito mais difícil de conseguir os rastros corretos e hoje localizá-los no mapa.

     Ao entrar na Alemanha surpreendeu-me inicialmente o forte aparato militar que invadiu o trem, em busca dos nossos documentos devidamente armados os encarregados da fronteira percorrendo o trem a validarem nossa entrada na Alemanha com uma severidade que ainda não tinha visto em outros países europeus, claro em reflexões posteriores dei-me conta do que ocorria, estávamos vivendo as questões do terrorismo, o grande temor europeu na época em que se manifestou forte na Alemanha e Itália principalmente.      

     Tinha feito uma parada em Colônia (Köln) na Alemanha, era uma sexta fim de tarde pela primeira vez vi um fenômeno que nos tempos atuais são mais comuns, caminhando na região do porto passou por mim um verdadeiro vendaval de pessoas, movimentando-se em todas as direções e isso aconteceu em quinze minutos, enquanto tentava entender o que estava acontecendo me dei conta de que não tinha mais ninguém nas ruas, apenas uns poucos perdidos dentro de bares e os carros de polícia andando sobre os calçadões, era o êxodo para sair da cidade em busca de um fim de semana, vi depois filas enormes de veículos nas estradas afastando-se da cidade.

     Muito surpreso fiquei de não encontrá-la novamente em Copenhagen, não me deixou nenhuma pista nenhuma dica me abandonou simplesmente, estudante de medicina tinha entrado na minha cabine de trem, éramos os dois apenas, ela puxou da mochila uma garrafa de vinho francês e buscamos uma mistura de línguas o francês, inglês e portunhol como suporte de todo o resto que eram apenas manifestações físicas completando-se em carinhos por ambos ali desejados e ali vividos, valeu apenas por uma viagem França-Dinamarca, ao chegar não deixou dúvidas tinha alguém e o que vivemos foi bom e era o que tinha que ser, minha índole de prender-me emocionalmente com quem viva fisicamente não estava dentro dos preceitos dela, para ela era apenas um momento em uma viagem completo por si só.   

     Não tenho nada a tirar da experiência de viver aquela cidade, povo muito alegre circulando pelas ruas e praças suas cervejas, amizades e amores em um clima de festa muito grande, realmente o fato correspondeu ao que imaginara me senti como um nativo perfeitamente adaptado ao clima das pessoas locais, assim mantenho ”No Canto” da memória marcas “do Encanto” de lá ter estado até hoje.  

sábado, 8 de agosto de 2015

Aurora o Eterno Retorno do Olhar

     Os sábados cresceram em importância na minha existência, suas primeiras nove horas repetem-se em uma sequência de passos, similar de semana a semana, a caminhada matinal, a feira orgânica, o café Viena e desde o último mês, o encontro com os amigos do “Aurora Grupo de Estudos de Cinema”, nesse eterno retorno composto de momentos sempre diferenciados onde não há espaço para roteiros não originais.

     Quem me lê já sabe, o início do meu dia é caminhando perto de casa, hora em que escrevo na memória minhas postagens, esta obra-prima que é o processador orgânico que todos temos, permite-nos a façanha de simultaneamente escrever vários como se vivêssemos várias vidas em um mesmo tempo, um processo que não me atrevo a explicar por pura ignorância, sei que acontece comigo, um pequeno ponto vai tomando contornos diferentes e transforma-se em um assunto, que termina como um conteúdo pronto a ser trabalhado quando tiver ao meu alcance papel ou um teclado.

     Sempre tenho também o momento café Viena, lá na Felipe Camarão quase Osvaldo onde fizemos a troca de bastão enquanto a Daniela e eu voltamos da feira ecológica do Bom Fim o Nataniel inicia a sua passagem pela mesma, é o momento de curtirmos nossas interpretações dos acontecimentos, nossos pensamentos sobre a humanidade, coisas de pai e filhos buscando harmonia e luz em torno de uma mesa aconchegante e um café expresso delicioso.

     O clímax é o nosso momento Hitchcock, para não faltar com a verdade momento Dr. Oliveira Jr. e sua tese de doutorado, “Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno”, obra na qual nosso grupo heterogêneo se debruça para analisar, o ritual é simples durante a semana a leitura de uma parte escolhida do texto e nos sábados é revelado o que enxergaram os vários olhos comandados por históricos de experiências muito diferenciadas, abre-se a controvérsia na busca de algumas linhas de convergência, sem nunca deixar de ver a cada sessão um dos muitos filmes de outros autores que revisitam a obra do mestre conforme a tese de doutorado nos sinaliza.


     O amor explícito pelo cinema, o perfil de contínuos pesquisadores, o qualificado e crescente conhecimento na área do audiovisual, os talentos diferenciados que adicionam valor a comunidade da arte por serem complementares, são as benesses que o pessoal do grupo de estudos traz para meu avanço pessoal, ganho muito e contribuo com o pouco que posso dar que se resume apenas a gostar de cinema e de pensar.     

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Jogo da antropofagia – Humanidades

     Foi um alvoroço, aquele jipe do exército parou em frente ao prédio com seus soldados armados, batem na porta do apartamento dos meus pais, só o sei porque me contaram, não estava em casa como sempre, perguntam por mim e entregam uma notificação para comparecer ao batalhão do exército lá no bairro Partenon com urgência.

     Quinta fase do jogo intimidação como mecanismo de controle, os resultados eram medidos pelo nível de temor obtido, regra investigação via sistema de informações baseado na entrevista coercitiva em busca da delação, obtenção de pistas via intimidação, supressão da oposição pela força.

     Passando por um prédio, uma destas construções antigas que se mantiveram, lembrei-me dela, sim a Ipirela, uma morena alta de olhos verdes cabelos pretos, linda que ali estava de passagem, só vivi seu codinome, era a época em que eu trabalhava entre 19 e 1 hora da manhã, para essa paixão tinha o dia todo com ela para o carinho e a política, confesso ela tentou evitar o envolvimento, era para ela mesma uma incógnita o tempo e a presença, não interessa o quanto durou um dia como sabíamos que ocorreria despareceram-na, só não sei se obra dos amigos para proteger ou da repressão para eliminar, sei que nunca mais a vi.

     Alguns dias depois do encontro em um seminário no interior do Rio Grande do Sul, onde entre tantos debates um em especial era o momento clandestino com Frei Beto e suas ideias, um dos meus amigos que também lá esteve me chamou em particular, como viajava pelo interior a serviço, desconfiados dos contatos, chamaram-no ao DOPS, segundo ele no interrogatório um dos temas foi perguntarem por mim, sugeriu que me afastasse do movimento assim como ele o faria, bem ele o fez tinha emprego sólido e precisava desse já eu não tinha nada a perder.

     Em casa desde criança eles se acostumaram ao meu perfil de criar problemas, inquieto sempre em alguma atividade fora, era preocupação constante, neste caso da notificação foi um falso problema, chegando ao quartel descobri que apenas queriam que trocasse a inscrição no serviço militar do quartel comum para dos oficiais da reserva devido ao adiantado que estavam meus estudos, a repressão com ostentação de força, meus pais com a certeza que tinha aprontado algo e eu com a consciência dos meus atos de oposição havia sido o motivo da tensão que se mostrou desnecessária.

     A área das ciências humanas sempre encontrou associação de paixão com poder e poder com repressão, não se pode esperar de uma ditadura algo diferente de intimidação, repressão e tortura, são os ingredientes constantes dessas e bem conhecidos na história da humanidade, o importante é que como contrapartida ocorre um movimento forte e vivo de resistência, muita sensibilidade e busca de inovação em benefício do homem, esse é o comportamento de quem rejeita a opressão, o ideal é que essa contrapartida se manifestasse também em momentos como o atual da humanidade.                  

domingo, 28 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Sociologia

     Nós reagimos contra uma educação tecnicista distanciada da construção do homem, refutamos uma noção de sexo utilitarista procriador proibido como prazer, nós abominamos o imperialismo americano ou qualquer outro, que nos tratava como quintal quando deveria ser uma liderança, era assim nossa geração jovem nos anos sessenta nos manifestávamos através de movimentos de militância política/social e optávamos por uma vida alternativa.

     Quarta fase do jogo efeito rebanho, os resultados eram medidos pela capacidade de apropriar-se da rebeldia jovem convertendo-a em submissão ao consumo, regra enquadrar no sistema espaços para criatividade, para o espírito de mudança dirigindo seus resultados para manutenção do status quo via simulada autonomia.

     Éramos muitos circulávamos jogando nossas bolinhas de gude contra os cavalos da repressão, nossas reuniões no bar da esquina, dentro dos grêmios escolares nas organizações jovens das igrejas onde discutíamos a vida e a sociedade, música era o tropicalismo, cinema novo a opção, realismo marxista na literatura e teatro, nossas trincheiras ambientadas a escancarar a existência de desigualdade e sonhar com ideais igualitários.

     Perdemos feio, foi uma derrota do tamanho da utopia sonhada, apreenderam muito conosco, no marketing para gerar massas de manobra, nas técnicas de gerenciamento para substituir o autoritarismo pela persuasão, maneira suave de exercer poder, podiam substituir a tortura e a força por grupos de trabalhos dirigidos a metas e resultados e com a febre encantadora do consumo a manter toda uma população ocupada, distraída, com a próxima aquisição e a cada década que chegava mais acomodação e conservadorismo.

     Especializamo-nos no desperdício, pois toda a pesquisa é movimentada pelo poder econômico e político, o trabalho intelectual é direcionado para o detalhe particular conforme interesse de quem exerce o poder, todos nossos esforços são contra o homem e a favor de sua submissão o que só podia resultar em uma sociedade cada vez mais egocêntrica dirigida a comprar a próxima inutilidade a ser lançada no mercado.

     A sociologia interpreta esses movimentos em um somatório de pequenos cases que escondem o todo, pois se tirarmos uma radiografia da sociedade, hoje encontraremos muito trabalho inútil com objetivos fantasiosos executados por homens depressivos, pressionados e distraídos por ínfimos minutos de prazer gerados por tão somente o momento da aquisição e posse de um objeto qualquer, no mesmo instante o mesmo torna-se obsoleto vira uma inutilidade. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Teologia

     Acompanhou-me por toda a vida os benefícios obtidos, que não são poucos, por minha formação em ambiente religioso, seu principal reflexo uma posição crítica sobre o contexto no qual se inserem a questão fé, a questão instituição religiosa, a questão pessoas e seus deuses, a questão do ser inteiro.

     Terceira fase do jogo autoridade da fé, os resultados eram medidos por seu nível de sujeição a dogmas concebidos para tirar benefício do medo da morte, regra interferir na vida dos outros alimentando conceito de bem e mal com objetivo de exercer o poder.

     Quando colocamos em cheque a estrutura autoritária da pastoral da juventude diretamente ligada à hierarquia da igreja que ao invés de fornecer consultores preferia fornecer um dono, a crise gerou um recuo estratégico, afastar o padre nomeado como responsável via uma ida à Europa em curso de especialização, aguardar o esfriamento do movimento, disfarçar a derrota, ganhar um tempo, e planejar o retorno para quando fosse mais conveniente, isto é, possível retomar o controle.

     Como conviver em harmonia centros de formação de homens livres, incentivados por núcleos esclarecidos dentro da organização, com a estrutura formalizada que digladiava por manter-se como controladora de milhares de fiéis, enquanto a primeira fomentava o interesse no homem e em sua libertação a segunda buscava manter poder sobre o homem.

     A história está repleta de guerras geradas em nome da fé, quantos homens morreram nessas batalhas, mais triste ainda é a quantidade que abriu mão da vontade de viver em troca do consolo de um hipotético lugar de imortais, lembrem-se de que quando a Igreja não foi o poder foi a conselheira deste e ainda hoje se cometem as maiores atrocidades em nome de Deus.

     A teologia a serviço de uma organização, sustentada por esta, não encontra outra justificativa que não seja aprimorar o uso do ás na manga, o medo da morte, com objetivos que não são a justiça e a liberdade do homem e sim a diminuição deste pela submissão aos autodenominados representantes do criador.  

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Psicologia

     Estava começando uma história, uma menina legal estudava comigo na universidade, algumas afinidades tipo atração física, como a conversa fácil, também buscas comuns de lazer, música e reflexões, parecia simples era só atirar-se a aventura de viver o maior tempo possível a dois.

     Segunda fase do jogo ”receita de bolo”, os resultados eram medidos pela leitura correta dos livros que infelizmente se traduz em descompromisso com quem estava a sua frente, regras ganhar o pão de cada dia sem qualificar-se.

     Pois é, passado um tempo, já estávamos o que na época chamava-se namorando fiz um carinho nos seus seios sem interromper-me ela imediatamente começou a tremer quase uma crise de pânico, o que vocês podem imaginar resultou em longas conversas, ela me contou que consultou um psiquiatra para entender o que lhe acontecia, era incontrolável, o mesmo lhe receitou pasmem vocês "ter relações com um professor mais velho", pois o problema estava ligado ao modo como ela via e sentia o relacionamento de seus pais.

     Ou seja, não ajudou em nada a moça, e sim aumentou o tamanho do problema, convenhamos a receita estava correta ela precisava superar as adversidades internas com um relacionamento compreensivo, alguém que pudesse com carinho conquistar-lhe a confiança e a conduzir com segurança o relacionamento a dois.

     Ponto para a antropofagia, o cara estava ganhando a vida à custa de outrem, em nenhum momento preocupou-se com a pessoa que estava a sua frente, tinha a receita de bolo nos livros que estudara, e diminuir as possibilidades de que ela pudesse ser feliz, o que de fato fez, estava dentro da sua maneira de ganhar o pão de cada dia, talvez até se candidatasse a ser o charmoso mais velho compreensivo.


     Sem alento, vemos com constância muito superior ao desejável a execução de procedimentos desse tipo em todas as profissões, autômatos na busca dos meios de consumo, resumem a vida nesta luta insana pelo melhor quinhão, independente de quantos seres humanos serão destruídos por seus atos, repito sem alento, pois os indícios apontam para uma maioria crescente se posicionamento nessa direção. 

sábado, 20 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Iniciação

     Ora estava na quadra de basquete treinando, na época de pivô era considerado alto, ora como sócio-atleta do clube participava das reuniões dançantes, assim início da juventude o importante era no jogo das relações com amigos e com namoradas encontrar meu espaço emergente onde dividimo-nos entre esportes, álcool e paixão, ora bolas, tinha também os estudos e alguns movimentos para ganhar uns trocados.

     Primeira fase do jogo “fazer-se querido”, os resultados eram medidos pela popularidade entre os amigos e por quantidade de namoradas inventadas ou não, e a regra era adivinhar o comportamento desejado pelos outros jogadores.

     Quanto aos companheiros parecia simples era só iniciar a fumar e beber sair para dançar, falar das gurias, escolher alguém do grupo para ser a vítima, com isso agradava a todos, se possível criar histórias para buscar enciumar os companheiros e assim agregar a si prestígio no grupo, na sequência tentar corresponder, ser acreditado nas histórias contadas, com o tempo acabava que as leituras e os filmes muito ajudavam a jovem imaginação.

     Faz parte de nossa iniciação o ato de optar, na questão política social em plena Guerra Fria escolha foi a terceira via o maoísmo, e na ditadura a resistência brizolista e participação na esquerda cristã, embalado pelo movimento estudantil e a juventude católica.

     Bom o namoro complicava um pouco, mas os fins de noite dançantes eram uma boa alternativa, depois de algumas tentativas acabava-se ficando com alguém, e comigo não foi diferente apareciam as namoradas, e então o mais difícil era evoluir a relação, na memória encontro histórias inventadas para justificar um beijo, um carinho, gerar as oportunidades, claro meus eram os temores, minha experiência reduzia-se a umas coroas solitárias que gostavam de curtir a gurizada, imaginação foi a arma que utilizei e lembro bem de ter vivido coisas boas e assim o foi sempre eterno enquanto durava.

     Ainda falando em opções culturais, na música Rolling Stones e tropicalismo, na literatura Medo a Liberdade, Análise do Homem do socialismo freudiano humanista de Erich Fromm, Demian de Hermann Hesse autor fortemente influenciado por Nietzsche, no cinema as obras primas dos franceses (Godard, etc.), italianos (Fellini, Pasolini, etc.), ou como queiram do cinema europeu como um todo (Bergman, etc.) e do cinema novo brasileiro (Glauber, etc.), no turismo mochila nas costas e de preferência uma festa na casa dos pescadores em Garopaba - SC.      


     Buscando a memória social coletiva, desde pequenos, por nossos pais representantes da sociedade, somos treinados a fazer-se gostar, no modo Ivan Pavlov buscando as recompensas fugindo dos castigos desenvolvendo a capacidade de enganar e sofisticar, o suficiente para transformar uma relação que deveria ser natural, em um grande jogo entre jovens, em um conjunto de avanços e recuos estratégicos, adivinhações de necessidades e possibilidades, artimanhas mil enfim para atingir objetivos simples de convivência.                

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Prólogo

     Encontro-me nesta situação inaudita, quando a descobri estava inserido neste maldito jogo e desde já o aclaro "declaro para quem de direito que o texto que segue é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas e fato real é mera coincidência", se escrevo sobre o mesmo o faço na condição de não saber se sou parte do imaginário do autor do jogo ou qual tipo de inteligência represento.

     Sobre o autor cabe ressaltar que é desconhecido, ou seja, existem muitas e apenas suposições sobre o mesmo, porém a falta de provas contundentes não nos permite confirmar qualquer uma dessas, quem o diz tê-lo visto nunca apresentou as comprovações e exigiu a fé na sua visão, umas das teorias com a qual simpatizo é de um conjunto de impulsos construído e influenciado por ideias antagônicas de pessoas através do tempo.

     Por que minha surpresa com essa situação quem sabe resultado de alguma desinteligência, pois até agora não consegui compreender qual o objetivo do jogo, simplesmente tenho que jogar, parece que é assim mesmo, estou no tabuleiro, sou uma peça e qualquer movimento feito é parte do jogo, para ser franco vou mais adiante não sei realmente como me classificar como jogador, também se o soubesse não sei se faria diferença.

     Por favor, me perdoem se nestas linhas esteja colocando uma visão irreal do mesmo, mas é o que consegui refletir, aceito de bom grado as críticas bem provável que até precise delas para que possa me colocar nos eixos, como se diz por aqui, não tenho certeza se estou no bom caminho até porque todas as tentativas feitas para entendê-lo no convívio com outros jogadores resultaram em me deixarem inseguro quanto ao conhecimento do mesmo.

     O objetivo do que vão ler, salvo a hipótese que eu fui condicionado a fazê-lo no que não creio, é em primeiro lugar checar comigo mesmo o entendimento, depois checar com quem interessar possa, para isso vou contar-lhes algumas jogadas, sua interpretação de minha parte, ou de parte de outros de quem as ouvi, não me peçam para ensinar-lhes o caminho da vitória, pois não o sei. 

     Concluindo gostaria de ressaltar que o colocado aqui é de minha inteira responsabilidade, assim acredito esteja mostrando a minha visão do processo como um todo, o que de fato não é garantia de verdade ou existência, apenas é a minha verdade e também não o sei se poderia pensar em uma verdade universal, mas...  

terça-feira, 24 de junho de 2014

Regressão de Corpo e Alma - Sentença em Primeira Instância

     Vamos lá, vejam comigo, não lhes parece que as pistas são claríssimas, desencontro, desajuste continuado, incapacidade de ser socializado, não foi assim que vocês o sentiram ao lerem os primeiros dez anos.

     Todos vocês que fizeram a gentileza de me acompanharem nesses relatos perceberam logo ele gostava do castigo, da reprimenda, não por ser masoquista, não por não sentir tristeza, não por não se magoar, mas antes de tudo agarrava-se a ele como salvo conduto para no próximo momento fazer o que bem entender.

     O mais estranho que percebi, não sei se concordam, foi o permanente participar de tudo, de todos os acontecimentos, envolvendo-se com todas as pessoas sem abrir mão de seu livre-arbítrio, ou seja, circulava já nesse tempo como se fosse mais um, participando sem envolver-se, sem contaminar-se pelo pensamento comum, seguindo em linha própria.

     Sim sei que algum de vocês vai contestar-me dizendo "isso é comum em todas as crianças, são egocêntricas por natureza", mas não pude convencer-me poderia até pensar que consegui ver é o estranho evitar o conflito, aceitar de bom grado todos os argumentos, porém desautorizando-os no momento seguinte, por ocasião dia a dia realmente vivido.

    Bem o que me pareceu mais grave é que até os sete anos, um pouco mais ou um pouco menos, a ciência tem nos dito que se define toda a personalidade do ser humano, e os indicativos que se apresentam neste caso específico não são nada animadores, parece-me próximo do impossível que ele possa incorporar os sonhos da coletividade, acredito que seja um caso perdido e o desajuste é o único caminho.


    Bons talvez tenham surpresas no pós-infância, na adolescência e juventude, podem aparecer indicativos que permitam ver que todas as análises feitas estavam equivocadas, por isso continuo a contar os fatos a mim relatados em sequência, sigamos...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Regressão de Corpo e Alma - Infância

     Não, não vou deixar vocês em desvantagem, lhes passo mais alguns flashes do que tenho conhecimento sobre a infância dele.

     Ele fora pego de surpresa, Papai Noel não existe, era seu primo mais velho esperto a lhe falar na casa do avô, não teve dúvidas imediatamente fez sua parte na troca de confidências, inventou de pronto uma estória na qual era protagonista, com cabanas sobre as árvores e dois grupos rivais que se defrontavam na cidade interiorana onde morava, com flechas e outras armas mais, soube do impacto da invenção pela conversa do avô que teve de assegurar ao primo que era tudo invenção. 

     No colégio era difícil contê-lo, pois nos primeiros 10 minutos já achava que tudo sabia e partia para distrair-se e distrair os outros, realmente dificuldade só havia de concentração, como também era quase impossível o manter dentro de casa, seu pai achou uma solução apagar escritos a lápis em fichas, onde o rascunho depois datilografado não era mais necessário, pagando-o como se fosse um emprego.   

     Essa atividade toda só podia gerar várias quebras de braço, de clavícula, convivendo sempre com mais velhos em 3 a 5 anos, foi fácil arrebentar-se em uma gangorra, como também ter um osso exposto ao cair de um muro de 2 metros de altura, lembranças bom os círculos maravilhosos provocados pelo éter da anestesia necessária para colocar os ossos no lugar e muitos potes de coalhada para fortificar os mesmos.       
   
     Em suas traquinices, não faltou ainda piá para fumar vender garrafas velhas, isso quando não estava lendo e aí servia qualquer folheto, estórias em quadrinhos, fotonovela, até as famosas seleções traduzidas do inglês e principalmente qualquer livro que aparecia em sua frente.

     No terraço do primeiro andar vendo o pé de chorão que tinha seus galhos como cipós encostados no mesmo, não teve dúvidas isso deveria funcionar como para o Tarzan, e tentou o voo, resultado caído de costas no chão teve instantes que não sabe dizer quantos de inconsciência.

     Para alimentar seus incontroláveis sonhos não podia faltar sua primeira imaginária namorada, sim a amava, tinha esta vantagem de morar em uma das poucas casas com televisão na cidade, e lá estava ela ao seu lado a loirinha de olhos azuis, olhando televisão, porém aos seus olhos iludidos em namoro apaixonado seguido de muitas noites de sonho. 


     Assim penso fecha-se um ciclo os seus primeiros dez anos e acredito que temos material suficiente para uma primeira opinião, o que podemos fazer juntos na próxima postagem.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Regressão de Corpo e Alma - Primeira infância

     Atento as suas lembranças percebi um espaço importante para dedicar minhas análises, pois à medida que iam aparecendo características físicas que permitem a independência pessoal, e o defrontar-se com o outro, teríamos amplo material para discutir.

     Cedo foi para o jardim de infância na escola luterana, é assim que chamavam a pré-escola naquela época, só descobriram que ele tinha se alfabetizado quando se instalou na cidade uma escola católica, como bons católicos trocaram-no de jardim, para surpresa de todos na primeira noite apareceu em casa a freira mandando o guri ler para os pais um livro, tinha que ir para o primeiro ano era seus cinco anos e sabia ler.

     Surpreso o vi lembrar-se principalmente do seu mundo noturno, suas noites na cama, começando por em sua imaginação armar verdadeiros exércitos, os amigos e inimigos e espalhá-los por toda a terra, contando-se a si mesmo estórias fantásticas, mas a imaginação não era tudo, dedicava-se a explorar sua sexualidade rolando-o sobre a perna, vivendo aquela sensação gostosa, até sentir um pinicão era ainda incapaz de produzir esperma, passo seguinte o sonho de sempre com cobras e aranhas, preanunciando talvez o bem sucedido Raul Seixas.

     Viu-se uma tarde deslizando pelo chão do seu quarto, para que sua mãe não o visse da cama dela, ela deixava a porta aberta para cuidá-lo em seu quarto, e passando pela janela basculante da cozinha em direção à tão sonhada liberdade da rua.        

     Inquieto, contou-me que uma determinada manhã viu seu pai despedir-se para ir a uma cidade vizinha a serviço, depois de ver negado seu pedido para acompanhá-lo, enquanto o pai saia pela porta da frente ele pela porta dos fundos correu a esconder-se no primeiro ônibus que viu, lá no fundo, atrás do último banco então se multiplicaram durante o dia as cenas:

     - Era procurado por todos os lugares, nos pátios, nas praças, nos poços da cidade onde vivia.
     - Na chegada do ônibus no seu destino uma viajante o reconheceu quando ele estava a caminho do primeiro trem que passava próximo da rodoviária.
     - A senhora o reteve durante o dia em sua companhia, enchendo-o de chocolate, para acalmá-lo, até sua volta.
     - Obviamente quando voltou o pai, que já tinha retornado, esperava-o com uma surra bem programada, na época ainda era politicamente aceitável, apanhar do pai, o que em realidade nunca o magoou.    


     Bom senhores vamos somando e vamos ver aonde chegamos.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Regressão de Corpo e Alma - O bebê

     Senhores a cena acontecia assim, pelo menos era como eu podia identificar pela descrição que ele me fazia, era início da tarde, tempo tranquilo, um pouco frio, normal inverno gaúcho, convidativo para uma sesta pós-almoço, ambiente familiar interior do Rio Grande do Sul, cidade pequena.

     O seu pai já tinha saído, era assim mesmo, preocupação constante com o trabalho e com a família, um almoço rápido e a volta aos afazeres profissionais diários, que apesar da sua juventude, lhe davam a alegria do sucesso como resultado, recompensa digna, de toda a dedicação e esforço que o caracterizavam.

     Por sua vez a mãe, sonhadora, que tinha buscado na cidade grande o trabalho para dignificar e tornar independente sua vida feminina, não teve saída acabou acompanhando o jovem marido ao interior onde oportunidade de trabalho ela não encontraria, sobrando então a casa e agora este companheiro diário, o primeiro filho deles, ser o primeiro certamente é tema para outras conversas que terei com ele.    

     Últimos afazeres domésticos feitos em mais uma manhã igual a tantas outras, no interior as coisas repetem-se muito mais, arruma o filho com seus acessórios e parte para um rápido descanso na cama de casal, os dois deitados, cena de carinho, cena de relax, uma breve pausa, em todo um tempo de cuidados que significam um bebê e uma casa.

     Chocante, o quadro que ele relembra, eu não sei se define tudo ou nada, sim ele agarrado no encosto da cabeceira da cama, nenê ainda nem caminha sozinho, com os dois pés apoiados sobre a cabeça da mãe, que enlouquecida de dor de cabeça, uma das consequências do parto, ou pelo menos sabemos que iniciou na ocasião do mesmo, não conseguia proteger-se, estava indefesa frente àquela tortura, precisou o acaso da chegada do pai para salvá-la, sempre preocupado em ver como tudo ia andando em casa.

     Claro a realidade queria expressar-se como todo início de tarde com ele dormindo ao lado da mãe o amparo do carinho o sono da eterna ligação mãe e filho.

     Sabemos todos nós que a pintura da realidade acima apresentada é apenas o contraste, analisada fora do contexto nos permite ver maldade, por que não?  Podemos ver amor, também nada a ver? Interpretamos conforme nosso momento interior é apenas uma imagem que manipulamos como quisermos.

    Podemos olhar pelo que temos, como uma situação normal, uma criança recém-nascida fazendo seus primeiros movimentos sobre suas próprias pernas e uma mãe vivendo o mau momento de uma superenxaqueca o que a deixava desarmada para cuidar da criança.

     Talvez isso fosse o indício do que estava por vir, uma criança muito amada com ímpeto de viver de aprender a expandir-se sobre o mundo, envolvida em um cenário 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Regressão de Corpo e Alma - Prólogo

     Assim como na tragédia grega, tão valorizada por Nietzsche, um pouco antes da entrada do coro e da orquestra, também aqui vou anunciar o que pretendo com esta Regressão de Corpo e Alma, espero no final todos estarmos preparados para viver a apoteose estética e sensorial do “ditirambo”, expressão máxima desta.

     Na psicanálise os especialistas dão muita importância, ao voltar no tempo com o objetivo de esclarecer o presente, a discussão permanente e continuada dos diversos flashes no tempo, detectando e analisando marcantes pontos de impacto em uma existência, o que termina por permitir limpar o presente das amarras colocadas pelo outro, eliminando as diversas falsas aparências visualizadas durante a vida.

     Bom minha proposta passa por aí vamos dissecar estes marcos da vida de meu personagem, pequenos fatos congelados no tempo e tentar reconstruir o hoje deste protagonista, conto com vocês para juntos deciframos quem e o que é o misterioso ser.

     Bom não podemos com certeza prever que todos verão a mesma figura, o mesmo ser humano, talvez tenhamos um ser multifacetado impossível de ser reconstruído em um só espaço, que seja, vamos buscar conhecer esse cara pelos seus rastros, vocês e eu funcionando como equipe. 

     Depois podemos sentar em uma mesa de bar, organizarmos um “ditirambo” como na tragédia grega e invocarmos sobre a mesa a figura exata que detectamos sua personalidade limpa de interferências psicossociais, ou caso incapaz, criarmos nossa torre de babel onde desencontrada resulta apenas um borrão por sobre a mesa.

     O que tenho hoje em mãos são milhares de palavras que anotei durante inúmeras sessões de regressão partindo do hoje até o seu mais antigo passado recuperável, claro o que ainda não fiz e o quero fazer com vocês é olhar na sequência cronológica da vida dele, por isso vamos publicação a publicação para ver o que conseguimos.


     Que seja o que a Natureza quiser, esse é o desafio proposto, já comprei esta briga, imagino alguns de vocês também o farão, vamos analisar o momento de cada publicação e projetar o hoje do personagem como justa e direta consequência da sequência de momentos vividos, bom em frente...