Senhores a cena acontecia assim, pelo menos era como eu podia
identificar pela descrição que ele me fazia, era início da tarde, tempo
tranquilo, um pouco frio, normal inverno gaúcho, convidativo para uma sesta pós-almoço,
ambiente familiar interior do Rio Grande do Sul, cidade pequena.
O seu pai já tinha saído, era assim mesmo, preocupação constante com o
trabalho e com a família, um almoço rápido e a volta aos afazeres profissionais
diários, que apesar da sua juventude, lhe davam a alegria do sucesso como resultado,
recompensa digna, de toda a dedicação e esforço que o caracterizavam.
Por sua vez a mãe, sonhadora, que tinha buscado na cidade grande o
trabalho para dignificar e tornar independente sua vida feminina, não teve
saída acabou acompanhando o jovem marido ao interior onde oportunidade de
trabalho ela não encontraria, sobrando então a casa e agora este companheiro
diário, o primeiro filho deles, ser o primeiro certamente é tema para outras
conversas que terei com ele.
Últimos afazeres domésticos feitos em mais uma manhã igual a tantas
outras, no interior as coisas repetem-se muito mais, arruma o filho com seus
acessórios e parte para um rápido descanso na cama de casal, os dois deitados,
cena de carinho, cena de relax, uma breve pausa, em todo um tempo de cuidados
que significam um bebê e uma casa.
Chocante, o quadro que ele relembra, eu não sei se define tudo ou nada,
sim ele agarrado no encosto da cabeceira da cama, nenê ainda nem caminha
sozinho, com os dois pés apoiados sobre a cabeça da mãe, que enlouquecida de
dor de cabeça, uma das consequências do parto, ou pelo menos sabemos que iniciou
na ocasião do mesmo, não conseguia proteger-se, estava indefesa frente àquela
tortura, precisou o acaso da chegada do pai para salvá-la, sempre preocupado em
ver como tudo ia andando em casa.
Claro a realidade queria expressar-se
como todo início de tarde com ele dormindo ao lado da mãe o amparo do carinho o
sono da eterna ligação mãe e filho.
Sabemos todos nós que a pintura da realidade acima apresentada é apenas
o contraste, analisada fora do contexto nos permite ver maldade, por que não? Podemos ver amor, também nada a ver? Interpretamos
conforme nosso momento interior é apenas uma imagem que manipulamos como
quisermos.
Podemos olhar pelo que temos, como uma situação normal, uma criança
recém-nascida fazendo seus primeiros movimentos sobre suas próprias pernas e
uma mãe vivendo o mau momento de uma superenxaqueca o que a deixava desarmada
para cuidar da criança.
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