Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de novembro de 2015

As Lições de um Morto Vivo

     Nos primeiros quinze dias ele era acompanhado por uma febre de quarenta ou quarenta e um graus com enorme dificuldade para se alimentar duas ou três colherinhas, dessas pequeninas de mexer o café, cheias de mingau sete vezes ao dia mais que isso o mataria, praticamente sua vida era defecar, também o fazia sete vezes ao dia, não as sobras do alimento como todos nós, mas sim um ácido composto de detritos de morte interna, vivia em função de tirar a morte de dentro do corpo e de substituí-la pelas pequenas doses de mingau que lhe repõem não exatamente a vida e sim a possibilidade de lutar por ela.         

     Ultrapassada a primeira quinzena a febre morreu, aqui estamos falando de um segundo período que compreende alguns meses, voltou a fome e esta o possuiu por inteiro, passou a ser seu único objetivo, via as pessoas sem enxergar nenhuma, tudo o que lhe interessava era a espera pela próxima hora de comer, essa passou a ser sua vida nutrir-se e esperar uma nova refeição, não conseguia em momento algum compreender por que os outros não o podiam entender nesta sua dedicação exclusiva ao objetivo de alimentar-se.

     Isso eu devo a Marguerite Duras, escritora Vietnamita-francesa que viveu a resistência em Paris na Segunda Guerra Mundial, da leitura de seu livro “A Dor” que por sinal não é para mim seu melhor livro, meus votos vão todos para “O Amante”, mas nesse primeiro ela nos fala de seu marido na época retirado praticamente morto de um campo de concentração nazista, mais de 1,70m pesando 37 quilos, era um morto-vivo, entretanto sempre esteve lúcido.

     Não encontrei melhor reflexão sobre a natureza humana do que ao ler essas linhas, existe clareza no relato da inteligência de todos os participantes do drama, intelectuais atuantes na resistência à dominação estrangeira, incluindo junto a estes o desafiador da morte, mostrou-me o homem como resultado de suas circunstâncias e assim o somos sempre, como ele o foi, primeiro vivendo só a eliminação da morte, depois só a necessidade de recompor-se como corpo para vida, essas eram suas circunstâncias e esse era o homem.

     Mais tarde já passado o pior momento, contaram-lhe sobre a morte na prisão da irmã de vinte e quatro anos, tinham sido presos juntos, essa morte não conseguia aceitar, teve o pedido de separação por parte da escritora o que sim pode compreender, outras circunstâncias outro homem, na sequência escreveu um livro sobre sua experiência no campo de concentração e nunca mais pode falar sobre o tema nem mesmo o nome do livro pronunciava.
    
     Luto por esta aproximação extrema comigo mesmo, não da maneira involuntária como na narração do livro, mas como resultado de um espontâneo e constante garimpo, vejo a complexidade que nos envolve no mundo contemporâneo funcionar como uma multidão de máscaras sobrepostas que me afastam de entender a vida, cada vez que retiro uma ao olhar-me no espelho percebo a existência de outra mais, pode parecer uma luta inglória, porém a entendo como a única possível de esclarecer-me sobre o que é a vida, penso que a descobrirei lá no fundo de tudo, quando desmascarado encontro-a por inteiro em mim.               

sábado, 24 de outubro de 2015

Pílula Dourada não é Literatura.

    Por certo é um desserviço para a humanidade um determinado tipo de escritos que circulam por opção econômica das editoras no formato de livros, infelizmente aparecem como literatura quando são apenas pílulas douradas, frases de impacto escritas com objetivos claros e específicos de preencher uma necessidade detectada de antemão, na prática, feitos por encomenda visando um público pré-existente que os consumirá.

     Na lista dos mais vendidos mais um recorde de vendas, milhares de leitores muito bem orientados pela mídia de tempo em tempo elegem um novo guru, o assunto aqui são os famosos escritos de autoajuda, temo-nos de todos os tipos para quaisquer os gostos e necessidades, produzidos em série aparecem revezando-se nas listas dos dez mais, são puro ilusionismo tipo canto da sereia que é encantado não existe.

     Quando inventariamos as vendas farmacêuticas estão lá sempre no topo os antidepressivos, os percentuais de consumo desse tipo de medicamento são altíssimos, fala-se em números tipo quarenta por cento da população adulta os consome, não encontramos sinais de diminuição e sim de aumento do consumo, manter quimicamente um equilíbrio é parte da solução, sem investir no crescimento pessoal não resolve e cria dependência.

     Imagino que lhes pareça que estou misturando alhos com bugalhos, paciência tenho motivos para associá-los, podemos começar por similitudes quanto aos usuários, iniciados no consumo poucos abandonam o hábito, também a maioria é seduzida a complementar seu uso com outro produto do mesmo perfil, são as pílulas douradas que prometem a felicidade.

     O processo é perverso funciona em espiral, parte de um incômodo pessoal, a necessidade de superá-lo, a recepção de mensagens com promessa de felicidade eterna, a adoção do remédio ou do livro como descoberta de caminho, a euforia e o entusiasmo inicial do seu consumo, a frustração por descumprimento de função, e estamos de volta ao ponto de partida: o incômodo pessoal...

     Não considero correto misturar literatura com a indústria de produção de livros, descobrir uma estória com seus personagens, comportamentos, encadear situações, prender a atenção por cada parte e pelo todo, isso é escrever um livro, isso é literatura, porém aproveitar-se do conhecimento que temos de que pessoas em números expressivos têm necessidade de resolver seus problemas de autoestima, equilíbrio pessoal e publicar escritos para iludi-los são apenas negócios, acredito no viver a leitura de um livro e não no consumir uma sequência de frases motivacionais.  

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Maldito Estrangeiro Bendito!

     Quando as manchetes das redes sociais são de extrema intolerância, quando vemos a insensatez desta crise migratória enfrentada pela Europa, tantas pessoas terminando seus dias no sofrimento, o absurdo desta estrutura mundial de má distribuição de renda, é o momento certo de buscarmos apoio em grandes pensadores, meu escolhido nesta virada de mês foi o brilhante escritor Albert Camus esse franco-argelino de grande sensibilidade social, talvez por ter enfrentado o problema durante a sua infância e juventude, lendo e relendo seus escritos não consegui esquivar-me de mostrar-lhes nestas linhas a qualidade do pensamento que circula pela humanidade como contraponto ao injusto sistema implantado no planeta.        

     Em especial relendo "O Estrangeiro", livro de poucas páginas e enorme conteúdo, expressão legítima da inconformidade com o que temos, seu personagem é a própria negação da hipocrisia social que infelizmente insistimos em ampliar, é um cara que não consegue mentir para si mesmo o que intuo ser a maior especialidade do nosso mundo hoje, adoramos nos enganar com intuito de fugirmos da necessidade premente de mudança, transformamos vidas humanas em alimento para a insaciável sede de autodestruição que é a arapuca socioeconômica que criamos e onde somos escravos legítimos de regras ilegítimas por nós inventadas.

     A mim em particular me seduz a maneira como o personagem vai interagindo com as expectativas das pessoas com quem trava relações, ele percebe claramente a cobrança de fantasias do coletivo, que para ele não fazem nenhum sentido, entende perfeitamente os mecanismos de desejo de cada um na construção da relação pretendida para com ele, e o que é mais importante fornece como retorno sempre seu modo de pensar com transparência, a sua verdade é comunicada a outrem independente de saber que não é a resposta esperada, evitando em definitivo entrar no jogo que é tentar adivinhar o que o outro quer ouvir, jogo que globalmente nos acostumados a jogar.

     Quanto ao título explico-me, esta dualidade em relação ao estrangeiro passa pela sensação de interferência que nos causa uma cultura diferente da nossa quando nos confrontamos com ela, na verdade nos sentimos ameaçados por este cara tão diferente, não de nós, mas do imaginário que criamos em relação a nós mesmos, bendito por ser tão ele mesmo, pela sua condição primeira de indivíduo e maldito por me deixar inseguro por sua imagem diferente da que tenho de mim mesmo.  

sábado, 18 de abril de 2015

Um Novo Dostoievski Sempre

     Memórias da Casa dos Mortos, envolvido por suas páginas, como se fosse minha primeira vez, a cada releitura o percebo em sua força psicológica como um escritor totalmente inovador, na minha passagem pelos personagens outros detalhes, outras sensações e a qualidade de sempre.

     A cada dia constato o quão óbvio é o motivo para que tantos escritores o tenham como inspirador de suas obras, particularmente os que querem encontrar um caminho novo de vislumbre ao âmago das pessoas, nesse livro em especial ele consegue refletir todo um espectro de almas humanas, que apesar de submetidas ao confinamento que as humilha e fragiliza, a essência como ser humano impõe-se com a força que só o homem pode ter.

     Experiência vivida, pois esteve na Sibéria preso, conseguiu mostrar-nos sua grande sensibilidade no entendimento do caráter humano, não uma imagem fantasiosa focada em bons e maus e sim homens inteiros com suas falhas de caráter e suas preciosidades de alma compostas em um ser único, nem bom, nem mau, mas sim homem.

     Não abrindo mão de exercer uma crítica persistente em todo o livro ao descalabro que é uma prisão, sua falta completa de solução para o problema das fraquezas humanas, a tendência à prepotência sádica de seus administradores e definindo essa solução como um agravante na formação da personalidade já degradada do preso.

     A valorização da vida, como o verdadeiro paraíso, talvez seja um dos maiores legados que ele nos deixou sendo possível que essa revelação lhe tenha ocorrido no momento em que descobriu sua conversão do status de condenado à morte para o status de prisioneiro na Sibéria, sabemos que essa informação ele só a recebeu no último momento antes de sua programada execução, praticamente em frente dos carrascos.


     Por isso não me privo de reler sempre que posso suas obras, pois sempre me trazem o frescor da novidade, apesar de serem os mesmos textos, as mesmas palavras eu como leitor, em meu estado de espírito do momento, não sou o mesmo e valorizo novos aspectos nunca antes percebidos e especialmente adequados às perguntas que estão nesta hora me seduzindo.   

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma Pérola Linda e Eterna

     Já se passaram mais de cem anos desde que Leon Tolstoi escreveu a qualificada novela "A morte de Ivan Ilitch", relendo-a não consegui esconder o meu encantamento com uma das mais belas novelas já escritas, sua profunda reflexão sobre a qualidade da vida no ponto de vista de quem está em seus últimos momentos, com a reconsideração por parte de Ivan do que sempre lhe parecia correto, sensato, honesto e agora lhe dava apenas a sensação de ausência de valor.

     Entre tantas frases encontramos lindíssimas pérolas, em particular por sua aplicabilidade nos dias de hoje escolhi esta para discutir com vocês e assim a reproduzo:

     - "Filho de um oficial cuja carreira em Petersburgo em vários ministérios e departamentos era daquelas que conduzem as pessoas a postos dos quais, em razão de seu longo tempo de serviço e da posição alcançada não podem ser demitidas - embora seja óbvio que não possuem o menor talento para qualquer tarefa útil, pessoas para as quais cargos são especialmente criados, os quais, embora fictícios, pagam salários que nada têm de fictícios e dos quais elas continuam vivendo o resto da vida”.

     Talento é conseguir exprimir uma ideia com clareza, bem construída do ponto de vista literário e que supere os limites do tempo, mantendo-se tão atual quanto o foi em sua época, esta qualificação não faltou a esse grande escritor russo, era um sonhador, visionário no sentido de abraçar a esperança e trabalhar na sua construção todos os dias, por certo curtiu os dissabores da incompreensão, inclusive dos familiares, porém nunca abriu mão de colocar para o mundo os seus ideais de justiça usando a lucidez dos seus pensamentos e buscando sempre um patamar mais alto para a humanidade.  

     O assunto expresso nessa frase é de extrema relevância no Brasil, inclusive talvez até possamos estender esta importância a outros países debito o talvez apenas na conta de não participar do dia a dia destes países, hoje inventamos posições de trabalho com intuito de apadrinhar diferenças sociais, em lugar de ocuparmos as pessoas em atividades capazes de criar mais valia para a humanidade as encaminhamos a produzir com o único objetivo de beneficiar alguns em detrimento de muitos.


     Como efeito colateral provocado pela falta de talento, pois a incompetência não abre mão de consequências desastrosas, adicionamos injustiça social aos desmandos do exercício de poder em que se submete a sociedade, graças à delegação do poder a pessoas inábeis, assim me identifico ao ideário desse escritor e não consigo associar nenhum valor ao trabalho que não resulte em acumular benefícios sociais e felicidade para a humanidade como um todo. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Só Kafka Para Descrever o Inatingível em Seis Meses.

     Publicado após a sua morte, pela informação que temos "O Castelo" foi escrito por Franz Kafka em seis meses, que não necessitou mais do que esse meio ano para nos mostrar o intrincado mundo da burocracia que nos conduz à completa abstração do real, e o continuado andar em círculos que nos leva a nunca atingir o objetivo, as interações do protagonista com os outros personagens mostram traços permanentes de submissão do imaginário coletivo da humanidade, um eterno adivinhar dos desejos do poder e adequar-se em comportamento a essas falsas necessidades geradas.  

     Não resta dúvida quanto à atualidade desta ficção, os labirintos hoje cresceram em sofisticação, porém seus resultados permanecem os mesmos, andamos sempre girando em torno de nós mesmos sem chegar a lugar nenhum, elegemos e criamos um poder que na verdade é o Deus inexistente construído pelo medo coletivo de perder o que não temos, de estarmos fora do prumo que nada mais é senão falsas maiorias estabelecidas por flashes de acontecimentos visualizados e emocionalmente curtidos, mas dificilmente analisados, muito pouco refletidos, quase nunca pensados.

     Na mesma linha inscreve-se o outro livro de Kafka, "O Processo", apenas exprimido os dois caminhos diferentes, enquanto no Castelo o protagonista persegue indefinidamente alcançar o poder para entendê-lo, no Processo o poder passa permanentemente intervindo na vida do protagonista sem que este saiba o seu por que e entenda o que o mesmo deseja, sem dúvida esses dois olhares completamente diferentes são indicativos de quão iluminada era a pena desse escriba por uma qualificada e rara inteligência.

     Sendo completamente desnecessário realçar o estilo belíssimo do escritor Tcheco, suas qualificações como um dos melhores escritores europeus são de conhecimento de todos nós que gostamos de ler, é importante nessa leitura de Kafka identificar seu conhecimento da psicologia humana, de seus medos excessivos, de sua visão da estrutura do poder, que nos aponta não para a competência e sim para um senso comum onde todos são mais realistas do que o rei, até porque esse rei é um emaranhado de regras autoproclamadas pelo coletivo e não um ser real.


     Sempre de tempos em tempos releio alguma de suas obras, para me manter longe da sedução do submeter-se a este maldito falso conhecimento, proclamado por uma maioria acéfala ensinada e estimulada por todo o sempre a reagir e não pensar, e recomendo-as como um grande alento para a alma de quem busca encontrar pelo conhecimento o caminho da liberdade.     

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O Tempo nos Escritos de Proust

     Relendo Marcel Proust, por sinal em tradução brilhante do nosso grande poeta Mario Quintana, que também prima pela sensibilidade e qualidade literária, em outras palavras somando arte do autor com arte do tradutor, o que encontramos é uma prosa que se apresenta como pura poesia, que encanta por seus devaneios e beleza estética.

     Mas o que me proponho a discutir com vocês é o filósofo Proust, esta característica do autor nos passa muitas vezes despercebida, escondido no texto que nos enfeitiça pelo seu mágico estilo, muitos de suas colocações sobre a vida encontram eco no meu pensar, e talvez o que mais me agrade é sua maneira de ver a questão do tempo.

     Ele o investiga, através do protagonista principal revelando as diferentes características identificadas pelo narrador que nos revelam os mesmos personagens com comportamentos completamente diferenciados ao contracenarem com ele em diferentes tempos da estória.

     Um pouco naquela linha do pensamento "O homem é o homem e a sua circunstância", que nos faz questionar o conceito de sermos uma personalidade formada e avançarmos no tempo defrontando-nos com os obstáculos naturais das relações sempre reagindo com base nessas características básicas que nos definem.

     Também me agrada demais a colocação de um mesmo fato analisado nos diversos momentos que o tempo designa ao consumidor deste, que quando trabalha esta ocorrência no hoje o desgostaria profundamente, trabalhando a mesma noutros momentos pode apresentar-se como algo completamente indiferente, ou como apaixonadamente prazeroso.

     Proust explora os dois lados da moeda, a mudança no tempo do protagonista que enxerga e do que é visto ambos não são mais os mesmos em cada porção de tempo, sendo que o primeiro ainda carrega uma imagem distorcida do que ambos eram em momentos anteriores.


     Gosto desta questão de nosso “eu” atual não reconhecer os “eu” anteriores, pois o vê com os filtros que hoje tem e principalmente de não conseguirmos avaliarmos os atos daquele outro eu, pois não éramos os mesmos.