Atento as suas lembranças percebi um
espaço importante para dedicar minhas análises, pois à medida que iam
aparecendo características físicas que permitem a independência pessoal, e o
defrontar-se com o outro, teríamos amplo material para discutir.
Cedo foi para o jardim de infância na
escola luterana, é assim que chamavam a pré-escola naquela época, só descobriram
que ele tinha se alfabetizado quando se instalou na cidade uma escola católica,
como bons católicos trocaram-no de jardim, para surpresa de todos na primeira
noite apareceu em casa a freira mandando o guri ler para os pais um livro,
tinha que ir para o primeiro ano era seus cinco anos e sabia ler.
Surpreso o vi lembrar-se principalmente do
seu mundo noturno, suas noites na cama, começando por em sua imaginação armar
verdadeiros exércitos, os amigos e inimigos e espalhá-los por toda a terra,
contando-se a si mesmo estórias fantásticas, mas a imaginação não era tudo,
dedicava-se a explorar sua sexualidade rolando-o sobre a perna, vivendo aquela
sensação gostosa, até sentir um pinicão era ainda incapaz de produzir esperma,
passo seguinte o sonho de sempre com cobras e aranhas, preanunciando talvez o
bem sucedido Raul Seixas.
Viu-se uma tarde deslizando pelo chão do
seu quarto, para que sua mãe não o visse da cama dela, ela deixava a porta
aberta para cuidá-lo em seu quarto, e passando pela janela basculante da
cozinha em direção à tão sonhada liberdade da rua.
Inquieto, contou-me que uma determinada
manhã viu seu pai despedir-se para ir a uma cidade vizinha a serviço, depois de
ver negado seu pedido para acompanhá-lo, enquanto o pai saia pela porta da
frente ele pela porta dos fundos correu a esconder-se no primeiro ônibus que
viu, lá no fundo, atrás do último banco então se multiplicaram durante o dia as
cenas:
- Era procurado por todos os lugares, nos
pátios, nas praças, nos poços da cidade onde vivia.
- Na chegada do ônibus no seu destino uma
viajante o reconheceu quando ele estava a caminho do primeiro trem que passava
próximo da rodoviária.
- A senhora o reteve durante o dia em sua
companhia, enchendo-o de chocolate, para acalmá-lo, até sua volta.
- Obviamente quando voltou o pai, que já
tinha retornado, esperava-o com uma surra bem programada, na época ainda era
politicamente aceitável, apanhar do pai, o que em realidade nunca o magoou.
Bom senhores vamos somando e vamos ver aonde
chegamos.
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