quarta-feira, 19 de agosto de 2015

No Canto do Encanto

     O trem andava solto entre Paris e Copenhagen, década de oitenta, século passado, eu era um sul-americano na cabine contemplando o barulho continuado do mover-se sobre os trilhos, o destino era virgem em seus encantos e percalços para mim o passageiro, minha primeira aventura em um país nórdico, a esperança que percorria minha imaginação em curtir bons momentos estava em minhas origens europeias, descendente de migrantes da Prússia antiga e do império Austro-Húngaro, bem o sabia excetuando-se meu avô materno que tinha vindo da região das minas de carvão na Alemanha, em relação aos tataravôs seria muito mais difícil de conseguir os rastros corretos e hoje localizá-los no mapa.

     Ao entrar na Alemanha surpreendeu-me inicialmente o forte aparato militar que invadiu o trem, em busca dos nossos documentos devidamente armados os encarregados da fronteira percorrendo o trem a validarem nossa entrada na Alemanha com uma severidade que ainda não tinha visto em outros países europeus, claro em reflexões posteriores dei-me conta do que ocorria, estávamos vivendo as questões do terrorismo, o grande temor europeu na época em que se manifestou forte na Alemanha e Itália principalmente.      

     Tinha feito uma parada em Colônia (Köln) na Alemanha, era uma sexta fim de tarde pela primeira vez vi um fenômeno que nos tempos atuais são mais comuns, caminhando na região do porto passou por mim um verdadeiro vendaval de pessoas, movimentando-se em todas as direções e isso aconteceu em quinze minutos, enquanto tentava entender o que estava acontecendo me dei conta de que não tinha mais ninguém nas ruas, apenas uns poucos perdidos dentro de bares e os carros de polícia andando sobre os calçadões, era o êxodo para sair da cidade em busca de um fim de semana, vi depois filas enormes de veículos nas estradas afastando-se da cidade.

     Muito surpreso fiquei de não encontrá-la novamente em Copenhagen, não me deixou nenhuma pista nenhuma dica me abandonou simplesmente, estudante de medicina tinha entrado na minha cabine de trem, éramos os dois apenas, ela puxou da mochila uma garrafa de vinho francês e buscamos uma mistura de línguas o francês, inglês e portunhol como suporte de todo o resto que eram apenas manifestações físicas completando-se em carinhos por ambos ali desejados e ali vividos, valeu apenas por uma viagem França-Dinamarca, ao chegar não deixou dúvidas tinha alguém e o que vivemos foi bom e era o que tinha que ser, minha índole de prender-me emocionalmente com quem viva fisicamente não estava dentro dos preceitos dela, para ela era apenas um momento em uma viagem completo por si só.   

     Não tenho nada a tirar da experiência de viver aquela cidade, povo muito alegre circulando pelas ruas e praças suas cervejas, amizades e amores em um clima de festa muito grande, realmente o fato correspondeu ao que imaginara me senti como um nativo perfeitamente adaptado ao clima das pessoas locais, assim mantenho ”No Canto” da memória marcas “do Encanto” de lá ter estado até hoje.  

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