quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Jogo da antropofagia – Humanidades

     Foi um alvoroço, aquele jipe do exército parou em frente ao prédio com seus soldados armados, batem na porta do apartamento dos meus pais, só o sei porque me contaram, não estava em casa como sempre, perguntam por mim e entregam uma notificação para comparecer ao batalhão do exército lá no bairro Partenon com urgência.

     Quinta fase do jogo intimidação como mecanismo de controle, os resultados eram medidos pelo nível de temor obtido, regra investigação via sistema de informações baseado na entrevista coercitiva em busca da delação, obtenção de pistas via intimidação, supressão da oposição pela força.

     Passando por um prédio, uma destas construções antigas que se mantiveram, lembrei-me dela, sim a Ipirela, uma morena alta de olhos verdes cabelos pretos, linda que ali estava de passagem, só vivi seu codinome, era a época em que eu trabalhava entre 19 e 1 hora da manhã, para essa paixão tinha o dia todo com ela para o carinho e a política, confesso ela tentou evitar o envolvimento, era para ela mesma uma incógnita o tempo e a presença, não interessa o quanto durou um dia como sabíamos que ocorreria despareceram-na, só não sei se obra dos amigos para proteger ou da repressão para eliminar, sei que nunca mais a vi.

     Alguns dias depois do encontro em um seminário no interior do Rio Grande do Sul, onde entre tantos debates um em especial era o momento clandestino com Frei Beto e suas ideias, um dos meus amigos que também lá esteve me chamou em particular, como viajava pelo interior a serviço, desconfiados dos contatos, chamaram-no ao DOPS, segundo ele no interrogatório um dos temas foi perguntarem por mim, sugeriu que me afastasse do movimento assim como ele o faria, bem ele o fez tinha emprego sólido e precisava desse já eu não tinha nada a perder.

     Em casa desde criança eles se acostumaram ao meu perfil de criar problemas, inquieto sempre em alguma atividade fora, era preocupação constante, neste caso da notificação foi um falso problema, chegando ao quartel descobri que apenas queriam que trocasse a inscrição no serviço militar do quartel comum para dos oficiais da reserva devido ao adiantado que estavam meus estudos, a repressão com ostentação de força, meus pais com a certeza que tinha aprontado algo e eu com a consciência dos meus atos de oposição havia sido o motivo da tensão que se mostrou desnecessária.

     A área das ciências humanas sempre encontrou associação de paixão com poder e poder com repressão, não se pode esperar de uma ditadura algo diferente de intimidação, repressão e tortura, são os ingredientes constantes dessas e bem conhecidos na história da humanidade, o importante é que como contrapartida ocorre um movimento forte e vivo de resistência, muita sensibilidade e busca de inovação em benefício do homem, esse é o comportamento de quem rejeita a opressão, o ideal é que essa contrapartida se manifestasse também em momentos como o atual da humanidade.                  

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