Nesta semana, meu lado
cinéfilo cultivou a alegria de ver Planeta Fantástico (La Planète sauvage, 1972),
Franco-Tcheco dirigido por René Laloux e Asas do desejo (Der Himmel über
Berlin, 1987). Franco-Alemão escrito, produzido e dirigido por Wim Wenders, essa
segunda película com direito ao debate com a turma das quartas-feiras lá na Aldeia
e o resultado uma postagem mais leve, mais descontraída, apesar dos dois filmes
caracterizarem-se por estimular a reflexão.
Ambos trabalham o
"final feliz", como é de bom tom na maioria das produções
cinematográficas, esperança mágica que só o cinema pode realizar, são cenas
rápidas nos últimos minutos, a animação termina com humanos em harmonia consigo
mesmo e em paz colaborativa com outra civilização, já o drama conclui com um
grande amor da bela trapezista com o agora humano antes anjo o pré-anúncio de
ser felizes para sempre.
Planeta Fantástico nos
fala de uma terra destruída pela guerra e a consequente migração dos humanos para
outro planeta, nessa sua continuada insensatez, subordina-os a uma raça mais
evoluída que os divide entre domesticados e selvagens, a relação autoritária
dos poderosos encontra paralelos em nosso comportamento habitual com a
natureza, nossa vocação para a desunião e o nosso pequeno conhecimento por
pouco não nos levam ao extermínio no filme, lembrei-me de “O mundo de Sofia” do
norueguês Jostein Gaarden, assim como o
livro nos abre os segredos da filosofia, o filme é didático como que a iluminar-nos
para percebermos os pequenos passos a serem dados, ou evitados, visando à sobrevivência
da espécie.
Asas do Desejo nos
defronta com a Alemanha pós-Segunda Guerra, ainda dividida pelo famoso muro de
Berlim, o diretor a mostra quase uma Alemanha por habitante, a divisão
territorial, a individualidade insatisfeita como regra geral, um tratado
filosófico sobre a natureza humana, seus dissabores
quanto à solidão das posições individuais, a força da protagonista que foge ao lugar
comum, sua busca da relação livre com o outro e da pureza, a não aceitação da
solução pronta de terceiros visível na trapezista e também nas crianças, o
olhar permanente para a relação livre com o outro, saí do filme pensando em ler
e reler não o roteiro e sim a transcrição completa dos diálogos pela sua carga
poética, psicológica e filosófica.
Muito mais que minha
visualização dos filmes, me parece enriquecedor o que para cada um dos
cinéfilos apresenta-se como o filme visto, que não é um e sim o número de
assistentes multiplicado pelos momentos que esses refletem sobre o filme, esse
milagre da múltipla criação só um bom diretor associado ao seu público pode
fazê-lo e expandir esse ato criativo para após a permanência na sala de
exibição não é nenhuma surpresa.
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