sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Milagre da Multiplicação

     Nesta semana, meu lado cinéfilo cultivou a alegria de ver Planeta Fantástico (La Planète sauvage, 1972), Franco-Tcheco dirigido por René Laloux e Asas do desejo (Der Himmel über Berlin, 1987). Franco-Alemão escrito, produzido e dirigido por Wim Wenders, essa segunda película com direito ao debate com a turma das quartas-feiras lá na Aldeia e o resultado uma postagem mais leve, mais descontraída, apesar dos dois filmes caracterizarem-se por estimular a reflexão.

     Ambos trabalham o "final feliz", como é de bom tom na maioria das produções cinematográficas, esperança mágica que só o cinema pode realizar, são cenas rápidas nos últimos minutos, a animação termina com humanos em harmonia consigo mesmo e em paz colaborativa com outra civilização, já o drama conclui com um grande amor da bela trapezista com o agora humano antes anjo o pré-anúncio de ser felizes para sempre.

     Planeta Fantástico nos fala de uma terra destruída pela guerra e a consequente migração dos humanos para outro planeta, nessa sua continuada insensatez, subordina-os a uma raça mais evoluída que os divide entre domesticados e selvagens, a relação autoritária dos poderosos encontra paralelos em nosso comportamento habitual com a natureza, nossa vocação para a desunião e o nosso pequeno conhecimento por pouco não nos levam ao extermínio no filme, lembrei-me de “O mundo de Sofia” do norueguês Jostein Gaarden, assim como o livro nos abre os segredos da filosofia, o filme é didático como que a iluminar-nos para percebermos os pequenos passos a serem dados, ou evitados, visando à sobrevivência da espécie.

     Asas do Desejo nos defronta com a Alemanha pós-Segunda Guerra, ainda dividida pelo famoso muro de Berlim, o diretor a mostra quase uma Alemanha por habitante, a divisão territorial, a individualidade insatisfeita como regra geral, um tratado filosófico sobre a natureza humana, seus dissabores quanto à solidão das posições individuais, a força da protagonista que foge ao lugar comum, sua busca da relação livre com o outro e da pureza, a não aceitação da solução pronta de terceiros visível na trapezista e também nas crianças, o olhar permanente para a relação livre com o outro, saí do filme pensando em ler e reler não o roteiro e sim a transcrição completa dos diálogos pela sua carga poética, psicológica e filosófica.


     Muito mais que minha visualização dos filmes, me parece enriquecedor o que para cada um dos cinéfilos apresenta-se como o filme visto, que não é um e sim o número de assistentes multiplicado pelos momentos que esses refletem sobre o filme, esse milagre da múltipla criação só um bom diretor associado ao seu público pode fazê-lo e expandir esse ato criativo para após a permanência na sala de exibição não é nenhuma surpresa.

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