segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Pedaço de Mau Caminho


                Um paraíso a espreita é tudo de bom para qualquer um de nós, as organizações religiosas se multiplicam para nos ajudar a acessa-lo, ótimo que existam em quantidade sempre que ajude o ser humano a encontrar a felicidade e a paz, semeando bondade para a humanidade na terra, pena que carreguem em seus braços uma classe de dirigentes.

                Os deuses não precisam de representantes, de intermediários, eles tão somente necessitam que os irmãos da fé se encontrem em comunidades para refletir sobre a melhor maneira de vivencia-la, nestes grupos de fiéis os diferentes talentos irão gerar a completude da conversa com deus.

                Infiltram-se nestas organizações castas de dirigentes no sentido amplo da palavra que é exercer governo, sempre que se queira conduzir a contrapartida é ter obedientes seduzidos,  correspondendo ao chefe nas suas vontades e recomendações, o que por si só já desmonta o amai-vos uns aos outros como a si mesmo, colocando por terra a igualdade entre os ditos eleitos, passamos então a ter um que aponta o caminho que fala em nome de deus para seus tementes ouvintes e não seus iguais.

                Podem chamar isso de carisma, podem catalogar como uma questão de mérito, mas o que não pode ser escondido é que o dirigente exerce poder, o que por si só já é um pedaço de mau caminho, e num instante transforma-se em onipotente, o que o desgarra da humanidade e o põe entre os deuses.

                Quem tem o poder passa a negociar com outros que também o tem, sua medida de força é a legião que comanda, com a garantia que a mesma seguirá sua vontade em qualquer tipo de guerra santa a serviço do bem temporal, negociatas que normalmente são feitas em ambientes de sigilo assegurado, por seus fiéis não será um contrato acordado por interesse, mas uma revelação da vontade do seu Deus ao seu representante.

                Também o que a antes eram comunidades de despojados a viverem felizes entre si repartindo o pão e o vinho, transformou-se por necessidade do dirigente de expandir seu poder, em organizações acumuladoras de riquezas que fazem da caridade uma distribuição das migalhas da farta mesa da classe governante da fé.

                Talvez a mais funesta consequência desta casta de dirigentes seja a mudança de foco das organizações religiosas que por principio era o amor, que infelizmente tem o defeito de não sensibilizar dízimos, passou a ser o temor ao diabo com seu inferno o que tem um grande poder arrecadador de contribuições e de obediência.

                Para a sociedade o que restou é um aumento significativo de influência política das organizações religiosas no poder estatal, sendo que o potencial de votos, obtidos por revelação divina há seus representantes, significa um diferencial considerável em apoio político para postulantes as diversas esferas de poder de uma nação e vale ressaltar que quanto maior for à instabilidade social econômica maior será à força destas organizações.  

domingo, 14 de outubro de 2018

Meu Direito a Cegueira


                Tenho o direito de não querer ver, mas é impossível não compreender que um filho meu nascido no privilégio não tenha muito mais oportunidades de encontrar um espaço seu na sociedade do que o nascido na periferia em famílias desprovidas de quase tudo sendo uma obrigação de justiça corrigir esta distorção.

                Tenho o direito de não querer ver, mas é inaceitável não admitir que a sociedade brasileira deva o pagamento de sua divida com os tempos terríveis de escravidão do índio e do negro que exerceu neste país, sendo por sinal ainda hoje alvos de discriminação, para qual são exigidas justas providências reparadoras.    

                Tenho o direito de não querer ver, mas é injusto para a dignidade humana a não condenação do torturador por seu covarde desvio de comportamento, colocar estes crápulas no grupo dos heróis admirados é doentio por manifestar objetivamente a vontade de exercer o ato de desrespeito para com o homem quando deveria lutar para condená-lo na justiça por assassinato.

                Tenho o direito de não querer ver, mas é incompreensível que compares a felicidade econômica do opressor, império americano, contra os oprimidos Cuba, Coreia do Norte e Venezuela sujeitos a um implacável bloqueio econômico forçando-os a miséria com a hegemonia americana pós-final da guerra fria por pensarem de maneira diferente, o não aceitar que sua miséria é fruto de violência não justificável em favor interesses do opressor é uma falácia.

                Tenho o direito de não querer ver, mas é uma insensatez não perceber que a corrupção tem sua origem na necessidade de comprar um congresso nacional e um judiciário por um regime de ditadura militar que precisava de uma falsa legitimidade bipartidarista e que todos estão envolvidos nesta lama o que é imperdoável para um partido metido a esquerda como o PT, porém perfeitamente justificável para o candidato fascista que apenas precisa no discurso combater o que vive no dia a dia.

                Tenho o direito de não querer ver, mas é a própria negação do patriotismo não perceber que a elite brasileira como sempre coligada com os interesses estrangeiros para exploração da grande maioria da população brasileira, assustada com o sucesso da economia de um governo de centro esquerda, á partir da segunda vitória da candidata Dilma trabalhou incansavelmente para criar a crise social econômica e um golpe de estado, o que não é novidade já o tinha feito na década de sessenta.

                Tenho o direito de não querer ver, mas é impossível associar ódio, discriminação de gênero e raça, humilhação da mulher, exploração econômica do trabalho do outro com as ideias cristãs a não ser quando manipuladas por fariseus tão bem expulsos por Cristo a relho das portas do templo por simplesmente tornarem-se donos de Deus em nome de seus proveitos pessoais.        

                Tenho o direito de não querer ver, de colocar a venda nos olhos para não enxergar a injustiça, tapar o nariz para não sentir o mau cheiro do fascismo, blindar os ouvidos contra todos os avisos de bom senso, porém não posso negar que estou sendo partícipe deste momento da destruição do respeito humano na sociedade brasileira mantendo uma práxis da elite de oprimir a maioria da população em troca de um sonho de acumulação de riqueza e privilégios pessoais.  

sábado, 6 de outubro de 2018

Meio Século a Acompanhar a Implosão da Dignidade Humana.


                Aqui, agora, caminhando sobre meus próprios passos durante pouco mais de meio século nesta via crucis (caminho da cruz) por que passa a humanidade exclamo aos quatro ventos “eu vi a implosão da dignidade humana” e abro as cortinas para que a percebam. 
                Perto dos dez anos atento a voz do radio, requisitado em nome da legalidade, me marcou aquela imagem, barba por fazer, a metralhadora pendurada nos ombros, o Brizola em seu discurso inflamado a conclamar o povo na resistência pela legalidade em frente ao palácio do governo estadual, foi meu primeiro aprendizado sobre golpes planejados contra a dignidade humana, graças a este esforço nesta ocasião conseguimos evitar.
                Enquanto convivia com uma afirmação de políticas publicas destinada a corrigir as grandes distorções existentes na sociedade brasileira, na minha memória a luta pelas reformas de base ficou marcada como grande tema do governo em sua conversa com a população em busca da preservação de sua dignidade, em paralelo percebia o pacto entre a elite brasileira e os mecanismos de intervenção do império representando os interesses internacionais dirigidos a sabotá-la.
                Não se passaram dois anos acompanhei aquela procissão programada com esperteza sempre que se torna necessário, o arrastar-se pelas ruas, como serpente venenosa, dos defensores da tradição, da família e da propriedade, sempre petulantes falando em nome de Deus sob a benção da imprensa comprometida com a elite econômica, cumprindo seu papel de precursor dos tanques nas ruas para esmagar a digna liberdade com sua mais pura ditadura.
                Quatro anos onde cada vez mais eu vi o mostrar à cara do golpe militar, de A5 na mão a usar o direito que só a violência armada lhe concedia contra a população, enquanto do nosso lado fazíamos os cavalos dançarem sobre bolinhas de gude nas manifestações sempre que tentavam nos dispersar, do lado deles mais hábeis por seu uso indevido de força bruta, liquidavam a população nos porões da ditadura, torturando, semeando morte de nossos amigos pelo simples fato destes com eles não concordar e seu regime de força não aceitar.
                A ilegalidade do regime prosperou com os métodos que mais conhecemos grandes investimentos em obras destinadas a propagandear o regime e grandes desvios de dinheiro a sustentar sua manutenção e comprar parte da população, os inocentes úteis de sempre, bipartidarismo hipócrita destinado a criar um simulacro de democracia, quanto a nós continuávamos há percorrer o tempo, oprimidos em nosso pensar, com as manifestações culturais censuradas e os conteúdos pedagógicos alterados por reformas destinadas a aparelhar as mentes contra o pensar.
                Ninguém consegue a alma libertária calar e conseguimos a muito custo espremer a violência para o canto das cordas no ringue, obrigando-a via transição política a nós a democracia devolver, mas a elite em nenhum tempo abriu mão de conspirar contra o povo, uma anistia de mentirinha com salvaguarda para torturadores, mas este povo buscava para a nação uma solução que harmonizasse as pessoas através de uma justa distribuição de renda contrariando privilégios históricos a bradar pelos quatro cantos a dileta frase “eleição direta já”.
                Não que a vitória tenha sido alcançada apenas avançamos e neste avançar passamos por percalços tipo Sarney, modelo Collor de modernidade e uma estranha aproximação da direita do sociólogo antigo exilado Fernando Henrique, mas ainda nos tinham reservado noticia pior, como depois o vimos, a imposição de um golpe de estado de gabinete e a construção de novos modelos baseados na manipulação tecnológica de dados dos comportamentos pessoais para manter a elite no poder, era o tempo de trabalhar a globalização na rede.
                Pude ver que nunca perderam a receita, nunca deixaram de ter o império a lhes financiar, se então desta feita não cabia mais os tanques na rua botar, novos tempos, novas maneiras de o golpe prosperar não seria difícil encontrar, por aqui no meu canto acompanhando todos estes ardis do sistema agora conectado e globalizado ficou cada vez mais difícil encontrar maneira de quebrar o encanto deste falso canto das sereias com notas fascistas no ouvido do povo ecoar.
                Mais um momento me cabe viver na história agora com a construção de uma circunstância muito favorável ao crescimento do fascismo, explorando o lado conservador da população brasileira em especial de sua classe média que sonha enquanto trabalha para a elite parte da mesma vir a ser.     
                Receita fácil de sucesso, um punhado de frases grotescas, propagar a ideia de pulso forte, defender a família patriarcal com sua propriedade, brincar de hipocrisia moralista apontando o dedo acusador de imoralidade para gêneros diferentes, atacar educação libertária e a diversidade cultural, encontrar um alvo inimigo para uma guerra santa, falar sempre em nome de Deus, autodenominar-se salvador da pátria.
                Para tal receita funcionar temos pequenas condições a serem cumpridas, é preciso antes preparar o cenário como dantes já tínhamos visto, temos que contar com os que se vendem como sempre por 30 moedas o que convenhamos num Brasil no estagio que nos encontramos hoje não é muito difícil, há candidatos por todos os lados.
                Não esquecer nunca dos patrocinadores, claro que temos os de sempre o império e seus parceiros do mundo dos negócios locais e internacionais, uma mídia comprometida com interesses de quem a sustenta, acrescido dos inocentes úteis para bem servir a causa.
                E o respeito à dignidade humana, que se imploda, é o que pregam, pois para os mesmos dignidade é servilismo, é entrar nos eixos, o famoso manda quem pode obedece quem precisa, em sua matemática simples sabem que aumentando os mais precisados multiplicamos as vantagens dos exploradores.
                O primeiro ataque sempre é contra a educação, reforma sobre reforma para evitar qualquer indicio de escola libertária o primeiro combate é contra o espírito critico, sabota-se via o ensinar utilitário, de preferência em uma escola autoritária insistente em trabalhar o decorar contra o pensar.
                O segundo movimento passa sempre pela exploração do medo a morte, aí nada melhor do que fechar uma parceria com as religiões, onde trabalhar este temor permite que se faça qualquer coisa em nome dos deuses, e como temos leitores da vontade divina, muito estranho como são seletivos estes deuses na escolha de seus ministros, acho que é esta nossa vocação para sempre precisar de representantes.
                No terceiro tempo é disfarçar o autoritarismo camuflando-o como um movimento de salvação nacional, o que em tempos de rede soberana com suas noticias falsas aliadas à desinformação de uma comunidade afastada do ato de pensar é muito fácil via algoritmos opressores poderosos manipuladores dos grandes bancos de informação.
                Então como puderam ver circulei por pouco mais de meio século nesta sequencia de atentados a dignidade humana e sua consequente implosão, estão criando um ser humano desprovido de sensibilidade na direção ao outro, concentrado cada vez mais nas dificuldades que encontra na solução tão somente de suas necessidades particulares.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Instantâneos da Morte Celebrada – miniconto.


                Era um caçador de vida, equipado com sua sensibilidade em busca dos instantâneos que a festejassem, deparou-se cada vez mais com a morte celebrada, o resultado do movimentar no qual estava envolvido lhe trouxe mais e mais esta indesejável surpresa, dedicou-se a investigar e mostrar a mesma com o intuito de alertar para os descaminhos na natureza que o homem estava a plantar.
                Sua arte era precisa, sobre bem querer estava construída, os fatos apesar de negar a vida lhe trazem a gana de encontrar saída, outro homem sabia que por traz de cada momento existia, e este outro é o que ele buscava querendo-o por inteiro ver revelar-se em irmandade, pois sem esta nem humanidade existiria.
                Se por um lado na vila testemunhara: “Espaço exíguo, digno da periferia, acumula em um mesmo quarto múltiplos moradores, ela ali parecendo ser o centro de tudo, certeza de ter ela já nove anos ele não a teve, no entorno dela apesar de menina promovida à mãe dona de casa, circulavam aos seus cuidados os irmãos menores cuja fome aliviar a preocupava, em meio ao ruído eventual de tiros da vizinhança no eterno jogo entre traficantes e policiais, ressentia-se nesta dita casa da presença de adultos na maior parte do dia”.
                No bairro classe média teve o contraponto: “Quarto seu privativo, cercada de eletrônica ao mundo sempre estava conectada por seus celulares e computadores, apesar dos seus nove anos parecia já mocinha, pelo seu quarto guloseimas espalhavam-se parcialmente consumidas, tantas vezes batiam-lhe á porta para perguntar se de algo precisava que isso a obrigava a durante a maior parte do dia, espantar estes adultos intrometidos”.
                Por aí passava como observador seu primeiro dilema lhe era muito difícil entender como alguém poderia acreditar e defender a existência de oportunidades iguais entre estas duas meninas durante suas vidas, ainda mais lhe perturbava o fato de saber que as primeiras desfavorecidas estão em muito maior numero que as segundas privilegiadas em sua distribuição na sociedade em que vive e não por acaso, mas por políticas concretas de exclusão social.
                Conviveu um dia em escola publica cuja falta de investimento envelhece e arruína a infraestrutura, cujos esforçados professores tem nos seus próprios recursos o único apoio a pedagogia e a didática isso com seus já minguados ganhos, perceber como grita alto para os alunos a presença da merenda em qualidade tão sacrificada por negociatas que tão bem se conhece, como não bastasse seus currículos de horas e conteúdos insuficientes, o que torna cada vez mais difícil evitar que dela a gurizada se ausente.
                Pode por outro lado estar noutro dia em colégio bem murado e gradeado com suas salas de aula repletas de tecnologia onde viu circular uma mocidade bem nutrida por entre as diversas cantinas com atividades previstas para todo o dia, conteúdos diversificados atendendo corpo e espírito, recheado de oportunidades para os mais diversos experimentos a atrair sua vontade pelo estudar.
                Não é dificil imaginar este segundo dilema que insistia em lhe desafiar, o desigual investimento econômico na construção do ser humano de amanhã não estará por óbvio aumentando e perpetuando as diferenças entre os homens, como ele poderia aceitar que pessoas consigam defender isto como justo, sem sentir vergonha de sua condição de construtores da desigualdade, pregando o fim de quaisquer políticas de eliminação das mesmas em nome de uma espécie de seleção natural, digo aqui ele sentiu muita vergonha desta absurda falta de humanidade que estava a presenciar.
                Estavam cada vez mais pesados os passos de seu caminhar na periferia, ruas mal cuidadas qualquer chuva um barro de patinar, postos de saúde lotados de filas por senhas a madrugar, desrespeitosos ônibus destinados às pessoas empilhar para seu ir trabalhar, filas de desempregados para garantir o trabalho mal pagar, a segurança do desrespeito ao humilde o confundindo com um marginal, enfim o ser humano transformado em utilitário para o sistema funcionar.
                Nos ditos bons bairros a vida apesar da fartura e do conforto, não lhe facilitaram o andar, suas ruas repletas de automóveis a se digladiar disputando centímetro a centímetro para na frente estar, sem ninguém respeitar, mau humor, estresse e depressão cercavam-no como resposta a alta exigência de competição, os cachorros amestrados dentro de muros e cercados, câmeras e seguranças por todo lado e o medo a prosperar, a perda total de valores pelo corpo a corpo estimulado como modo operacional do profissional vencedor.
                Incompreensível lhe era este terceiro dilema, estava muito claro em sua observação que a felicidade prometida em toda a pirâmide independendo de onde cada qual se encontra, na base ou no topo, não era atingida, ser isso característica do próprio sistema como a maioria não percebia ou não o queria ver era-lhe difícil compreender, o que lhes é permitido ter é a tristeza de ver o outro dobrar-se frente os azares e as dificuldades como falsa felicidade.
                Por certo o encontrarão por seus caminhos ouvindo sempre, revelando sua interpretação dos fatos, dificilmente o enxergarão em discussão, mas não se negará a fazer suas observações, não manifestará vontade de ser entendido e respeitará todos os rumos desde que não contra o homem.
                Não esperem respostas as suas perguntas, o que ele poderá propiciar é originar reflexões que em cada um podem amadurecer a simultaneidade entre pergunta e resposta, ou seja, a própria celebração da vida.
                Tudo tem seu tempo, como observador, à morte celebrada em sua pele ficou marcada por estes instantâneos, apercebeu-se que o ser humano necessitava reconstruir-se por inteiro, para ele agora era tempo de evangelizador assim trocando a pele da morte pela vida poderia seguir em frente sem perder sua fé na humanidade.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Asfixiados por Botas Sujas – miniconto.


                Era uma terra estranha, cuja vocação exercia-se no contraste, o que tinha de bela tinha de desumana, quem se dispunha a servir parasitava o povo, quem exigia a liberdade a queria para escravizar, confundia seus direitos com o poder de discriminar, onde a religião tinha seus deuses a serviço da violência, sua enorme riqueza era feita para poucos acumular, enfim uma pátria que condecora como mérito os desmandos do outro a explorar.
                Escutava-se o ritmado ruído surdo das botas sujas a asfixiar a cultura, negando-lhe crédito, sonegando-lhe valia é julgada por perdulária por desnecessária, a reflexão manifesta em arte por sua característica libertária é condenada.
                Seus mares com suas bonitas praias de águas azuis esverdeadas testemunhavam no dia a dia a miséria a espalhar-se, sua oligarquia gananciosa roubava a qualidade do ensinar para assim melhor ao povo aparelhar, seus juízes serviam os senhores para a injustiça perpetuar, o trabalho era destinado a locupletar os senhores de outras terras via assalariados feitores, traidores escolhidos no próprio local, para qualquer contestação violenta repressão vinha se manifestar.
                Escutava-se o ritmado ruído surdo das botas sujas a asfixiar a educação, negando-lhe o direito do ensinar o pensar, sabotando estudos de filosofia, sociologia e história em nome do pratico capacitar nas habilidades necessárias ao mercado de mão de obra para melhor servi-lo.
                Seu povo multifacetado com sua linda pura mescla de raças e culturas ao qual espalhavam boatos de nefastos inimigos que a qualquer momento viriam à liberdade de todos roubarem, como se esta dita liberdade não fosse uma farsa por sua sujeição a maquina de exploração e consumo, sob o tacão desta inverdade oprimiam a população com o falso refrão de assim protegê-la contra maldosos os defensores da tradição, família e propriedade.
                Escutava-se o ritmado ruído surdo das botas sujas a asfixiar o direito a justa distribuição dos benefícios da produção de toda nação, conceituando o tal de “mérito” pela capacidade de o sangue e o suor de outro acumular e abençoando quaisquer métodos como dignos de justificá-lo.
                Estive lá e assim a vi mais do que vê-la pude perceber que nada disto era novo que gerações mais gerações trabalharam com afinco para construir e mantê-la assim contraditória, destruindo as vontades libertárias, semeando o medo a falsos fantasmas e principalmente comprando via migalhas os feitores da escravidão prometendo-lhes parte do pão sonegado a multidão.
                Voltando a casa, porque o bom filho sempre a casa torna, ao discutir com amigos as impressões daquele lugar e as marcas que ele a mim está a deixar, lembrei-me de pequenas impressões que o convívio com as pessoas de lá me trouxeram e das quais não gostaria que estivéssemos a nos contaminar.
                Um me dizia que o joio do trigo nós temos que separar, que lhe parecia justo ao primeiro exterminar para o segundo prosperar, mesmo que queimasse no fogo algum aparente inocente por certo isto aconteceria porque alguma culpa este teria, julgava-se no direito de identificar quem era trigo e quem era joio simplesmente por ao outro se comparar, tinha sempre certeza de ser o certo logo o outro só poderia estar a errar, mas isto é do homem até posso aceitar, mas como pode a outro esta tarefa delegar dando-lhe procuração para em seu nome justiçar.
                Outro falava da propriedade sagrada a preservar, valendo qualquer violência que se pudesse imaginar, armado até os dentes para aproximações indesejadas afastar, este seu direito divino a vida do outro deveria preservar para suas posses não minar, talvez em sua memória estivesse alguma história, em outros tempos, ter sobre terreno do vizinho à sua cerca posto a caminhar e da defesa intransigente que fizera a esta posse indecente. 
                Um terceiro se punha como abençoado para o comportamento de cada um determinar, afinal ele tinha entendido em especial confidência do divino por certo, o papel que cada qual aqui deveria executar, em nome dos seus deuses, para se santificar, conhecia dos gêneros o comportamento a esperar e aos impuros o direito tinha de segregar e exterminar, cada um deveria reconhecer o seu lugar e assim o aceitar.
                Muitos me propagavam a diferença de posição social ao qual a genética os destinava, é tão obvio que uns nasceram para mandar e outros em seus cromossomas tinham a gene do obedecer, ao qual deveriam se resignar, pois este foi o direito que lhe deram ao nascerem os construtores do universo dos quais eles se julgavam os únicos bens amados e este poder herdar.
                Para nós não foi dificil antever o que pudemos constatar quando em comitiva, as mochilas nas costas, nos deslocamos em viajem para rever o povo e o lugar.
                Outdoors a conclamar “Ame-o ou deixe-o” misturavam-se aos espaços urbanos conclamando o povo a aprovação incondicional dos mandos e desmandos, tudo envolvido no acontecer de um ufanismo oficial enlouquecido.
                Atenção sempre em alerta, cuidado com a porta aberta, policiando seu dizer para evitar má interpretação e ficar a descoberta, circulava a multidão dispersa com medo do como a vão ver, evitava em grupos aparecer para contra a ordem não sugerir ser.
                Nas redes e mídias circulavam todas iguais às noticias, diferentes do boca a boca que corria em forma de quase sigilo, tinham a cara de um mesmo livro, sempre por um mesmo autor escrito.
                Espalhafatos eram os aparatos de grupelhos de justiceiros, enfeitados com seus símbolos vivos e barulhentos corriam atrás de suas inventadas bruxas para queimar, ofensas a moral e aos bons costumes por eles criados, não podiam aceitar, por isso estavam a usar seus mecanismos de combater e segregar.
                As frases eram curtas, incisivas, falsamente positivas, gritos de guerra prontos, acabados, como verdade por si só, sempre desnecessário sobre elas o refletir e o pensar, pois mostravam o poder e como tal sempre estão a acertar.
                Veículos militares por todos os cantos a circular a ordem impõe-se pelo medo que a violência ostensiva pode gerar além de pequenas milícias a paisana buscando assim a todos intimidar.
                Tudo era unanime, proibido era discordar, definitivamente você era bom por ser a favor, ou mau por contrariar, nesta dualidade tipo céu inferno você tinha que se adaptar.
                Encerrando nosso passeio por esta estranha terra, com estas sensações impregnadas na pele, ainda ao aqui chegar escutávamos n’alma o ritmado ruído surdo das botas sujas a asfixiar...   

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Rejeito Ser um Discurso - miniconto.

                Repasso esta confidência para vocês do mesmo modo que por mim foi recebida, decidir se a aceitam como história ou estória, eu deixo a critério de cada um de vocês, até porque não tem como ser diferente, a verdade esta sempre associada a cada um de nós, o que não poderia permitir-me não fazer é deixar de repassar-lhes a mesma pelo encanto que ela me sugeriu.

Sabes quando depois de uma boa hora de caminhada entre as frondosas arvores do parque liberas para teu prazer àqueles minutos do estirar-se no banco, dedicando-se a contemplação da natureza, da qual fizemos parte, ou, a bisbilhotar as letras enfileiradas em palavras e frases que aprisionadas estão em mais um livro, do qual somos cúmplices pelo simples fato de manuseá-lo.

Naquele dia ensolarado estava de braços com o livro, coisa leve linda contos de Tchekhov, um contador de estórias que muito aprecio, quando me perguntaram: “Que horas são”? Logo percebi que estava em minha frente à intenção de abrir uma conversa tão somente, pois seguiram a sua pergunta outras frases enfileiradas com rapidez, observações sobre a beleza do tempo entre outras exclamações, àquelas que são feitas apenas para manter vivo o fogo da conversa.

Tendo aberto uma pequena fresta na barragem, de imediato inundou-me sua história, serpenteando para lá, para cá, com seus altos e seus baixos pelas linhas que seguem como podem bem o ver.

Era praça publica pequena multidão do tamanho suficiente para ser grande e onde todos podem se ouvir e se falar, o centro do grupo era ocupado por um belo discurso, o orador o valorizava por seu talento na dicção e ritmo do som das frases, o tema era relevante dizia respeito a toda aquela gente e a lógica do pensamento tinha a benção da direção ao bem comum.

Pode-se talvez até dizer, pelo fato de não originário da terra, invisível era o seu circular no meio daquele povo, mesmo não sendo visto ele longe estava de ser desinteressado, antes pelo contrario, estava muito atento em perceber a sintonia entre o discurso e os seus ouvintes, era o seu estilo de bisbilhotar, aquele curioso especial que se preocupa com os outros seres humanos, em síntese um observador da alma humana.

Abrindo parênteses já perceberam que o espaço e tempo em nada preocupa nosso amigo, tentei inquiri-lo sobre tal, o mesmo desconversou dizendo que não interessava e que até não acreditava nisso para ele homem e natureza sempre foram os mesmos, uma definitiva opção pela vida nada mais do que isso, o que para um banco de praça me pareceu ótimo.

Como sempre neste tipo de evento percebeu que o grupo se dividia alguns claramente elogiando as bondades do tema, outros mais na defensiva questionando as consequências possíveis de sua aceitação, havia sim um consenso de que o mesmo deveria ser tratado e era oportuno o que justificava a adesão de todos há aquele momento.

Em sua reflexão percebeu que estava ali se realizando uma vocação do ser humano a defesa das ideias e que estas podem ser qualificadas positiva ou negativamente e que por certo deste se originariam muitos outros discursos de negação ou de apoio e mesmo até de sugestão para outros rumos esta é uma dinâmica que podemos admitir movimenta os nossos dias e por sinal sempre assim o foi, o discurso pode e deve ser julgado.

Também ao circular percebeu que as propostas apresentadas não eram de fato um traje sobmedida para nenhum dos participantes, isto era patente nas objeções e até nos apoios sempre construídos com um “mas...” o que por sinal lhe trouxe a alegria de que sim o Homem é um ser livre e único capaz de relacionar-se com os outros sem perder sua identidade.  
 
Mas o que realmente o deixou motivado foi verificar que estavam lado a lado pessoas com posições as mais contraditórias, não se aproximavam entre si as de interpretação semelhantes e sim conviviam todas no respeito à identidade do outro, não havia o julgamento de pessoas e sim o respeito ao momento vivido por cada um, que por certo representavam experiências diferentes a serem consideradas como coerentes para as suas vidas, em nenhum momento indicava-se um caminho de abrir mão do pensar, mas sempre uma ponte a compor diversidades, havia no ar a compreensão de que os momentos pessoais são diferentes e que o de cada um representa o seu viver.

Naquela pausa para respirar lembrei-me do que estamos hoje involuntariamente partilhando um gigante investimento em tecnologia para enquadrar o homem na armadilha de discursos pré-fabricados, coleta-se muita informação de todos e desenham-se milhares de algoritmos destinados a encontrar brechas para influenciar nosso comportamento, nesta sociedade da especialização educa-se o homem em habilidades nunca em senso crítico, são dias em que a exploração do homem pelo homem a qualquer custo é considerada mérito e não violência injustificável, perpetuando esta sociedade onde as benesses são cada vez mais mal distribuídas entre os que nasceram para ser iguais.

Tudo isso o levou a refletir sobre o que trazia do lugar do qual vinha uma sociedade onde o medo à solidão impera, onde os homens aderem a discursos funestos ao bem estar social, tão somente para serem aceitos no rebanho, fazer parte de uma engrenagem conduzida por discursos violentos e discriminatórios, aos quais resistir é preciso.
               
Pode também sentir que havia movimento naquela assembleia onde a coerência era consequência direta da vida no momento, nunca um compromisso com um passado não mais existente, as decisões são pessoais, intransferíveis e refeitas no tempo sem ligação com os próprios discursos anteriores menos ainda com pretensos discursos futuros.
               
Foi assim que pude saber desta assembleia de homens livres, um verdadeiro sonho da humanidade, enquanto recebia o abraço de despedida deste homem que nunca mais vi, meus sentidos curtiam este presente ganho, uma marca forte de esperança em minha alma, o qual não poderia deixar de repassar e é o que faço a narrar-lhes este encontro.    

domingo, 23 de setembro de 2018

O Justo - Releitura dos Miseráveis - miniconto.


                Quando você me perguntou o que eu estava lendo ontem no ônibus no momento em que me viste pela janela ao passar naquela parada onde esperavas o teu ônibus, confesso não tive nenhuma dificuldade de lembrar, bem o sabes que tenho o costume de ler dois ou três livros ao mesmo tempo, mas estamos em um momento confuso na sociedade, vivenciando um vendaval de inconsequências, não consegui omitir-me corri em busca da reflexão sobre o homem Justo.
                Tens toda razão cara, como é bom compartilhar contigo estes deslocamentos pela cidade usando um transporte comunitário, além de cruzarmos com tantas pessoas que nos fazem bem só por serem pessoas, temos tempo para nossas leituras, para nossas conversas, para admirarmos o ser humano no seu dia a dia, sem falar no adequado uso de energia que isso representa e na cada vez mais necessária luta contra a poluição.
                Conheço e admiro suas ideias sobre usar transporte coletivo, a opção de andar á pé, por sinal meu meio de transporte favorito caminhar, em veículos não poluentes como a bicicleta, são os que sempre nos geram oportunidades de conviver com o pouco de natureza que as cidades ainda nos reservam, mas voltando ao nosso tema busquei na minha prateleira “Os Miseráveis” do grande Victor Hugo para reler e era este o livro daquele dia por que penso que é um dos que melhor traduz o conceito de ser Justo.
                Sim tenho discutido com vários de nossos amigos, aceleramos a vida e perdemos a capacidade de autocrítica nos transformando cada vez mais em personagens de ideias em lugar de assumirmos nosso papel real de seres humanos, pouco a pouco perdemos a capacidade de sermos protagonistas no roteiro de nossa própria existência.
                Está lembrado meu amigo de anteontem, aquela discussão absurda no café, conhecidos nossos aos quais prezamos pessoas que nada devem a inteligência e ao bom senso, enfrentaram-se em um discurso a beira do ódio, defendendo uma cartilha ideológica sem o filtro de uma análise de consciência amparada nos seus valores pessoais, acabou se transformando em um discurso vazio sem nada a trazer de positivo para ninguém.
                Sim é isto mesmo, todos nós temos uma ideologia sem exceção, em diferentes graduações  partindo de um lado da defesa a inclusão até na outra extremidade a excludente discriminação, mas acima de tudo temos valores pessoais que desenvolvemos em nós mesmos e sempre são estes que devem guiar-nos, nunca um conjunto de regras escritas por terceiros estas apenas a estes servem, ao nos adequarmos á forma estaremos abrindo mão do nosso livre arbítrio.
                Lembras-se daquela roda de cerveja onde a conversa transitou pela questão do mérito em mundo de oportunidades iguais, o que mais nos impressionou foi à dificuldade de aceitarem os privilégios que os diferencia e torna injusta a competição a não ser que se considere mérito diferenças provenientes do acaso, acabamos por concluir que simplesmente não queremos perder nosso status quo e o defendemos contra os outros em lugar de buscarmos uma distribuição mais justa do produto social.
                E quando nos deparamos com aquele grupo de autoconsiderados eleitos que teimosamente insistiram que a não adesão às regras por eles criadas significava nosso rebaixamento a um grupo inferior de seres humanos, como se tivessem o direito de definir quem é o que, pudemos lhes mostrar que em períodos diferentes da humanidade e até em mesmos períodos em organizações sociais diferentes os ungidos são outros e muitas vezes completamente divergentes entre si, entretanto continuaram a preferir encastelar-se em sua autoestima baseada na diminuição do outro.
                Lembro-me daquela noite no entorno da fogueira tal qual um jogral um relatou:
- “Sentados na areia em pleno parque a peça teatral rolando e éramos nós um só publico nos divertindo com a comédia bem representada, tínhamos poderes econômicos diferentes, tínhamos peles de cor diferente, tínhamos opções sexuais diferentes, mas éramos sim um só publico, feliz curtindo o prazer de uma boa peça de teatro ao ar livre, sem entrada que não fosse o custo de parar, sentar e curtir, apenas exercício de vontade pessoal a nos unir neste espetáculo de vida comum, onde era dada a cada um a oportunidade igualitária de diversão, ninguém em momento algum precisou perguntar o que se pensava da peça apenas somamos as diferentes quantidades e tipos de gargalhadas em um prazer coletivo”.
                Outro sugeriu:
- “Como achar o justo senão dentro de nós mesmos e se assim o é como julgar o outro pelo meu conceito de justiça se a mesma esta dentro dele, como bem disseram o que você fala é parte inteira do que você acredita, quando você me diz que esta rosa é bela, legal, só tenho que pensar que ela é bela para ti, independente do que ela representa para mim, a soma destas representações é a própria vida e não posso lhe roubar a beleza dela que tu tens apenas a posso somar ao conceito que ela tem para mim”.
                Eu comentei:
                - “Quando você me perguntou o que estava lendo no ônibus naquele dia foram nestas coisas todas que estava pensando nesta vida que levamos nós todos tão diferentes em talentos e oportunidades, mas que nos aproximam a cada dia mais na busca do homem justo que cada um de nós merece ser, onde nossos argumentos por mais contraditórios que sejam não são uma cadeia de ódio e sim o respeito por uma vida sempre diferente da nossa desde que tenhamos a abertura de ouvir o outro como um ser único como conceituamos a nós mesmos”.
                Você disse:
                - “Não encontra eco neste tipo de procedimento qualquer comportamento que necessite da exploração de outro para beneficio próprio, homens livres trocam entre si seus valores com respeito mutuo e generosidade nunca com ganância, pois esta ultima é que nos leva aos conflitos e ao mundo de guerras que nos acostumamos a vivenciar”.
                Nosso amigo defendeu:
                - “Caminhar lado a lado respeitando as individualidades esta sendo o aprendizado que realizamos juntos, não é fácil por certo, mas encontrar dentro de si as motivações para todos os meus atos bem o sabemos é o único caminho para a felicidade, todos os nossos movimentos não podem ser conduzidos por outrem que não seja nós mesmos, sob-risco de ao tentarmos morrermos para nós mesmos”.
                Se eu busquei na releitura de Vitor Hugo o conceito de justo, não foi porque acredito que ele tenha a verdade e sim porque acredito que no contraponto da leitura encontro a verdade dentro de mim, assim como quando me aproximo de você e de nossos amigos no comprimento da minha vocação política encontro a mim mesmo.
                Vamos em frente é já ali na esquina que encontraremos mais outros iguais a carregar sua vida com prazer e felicidade e assim juntos criarmos o mundo dos libertos, não existe tarefa desagradável quando da escolha pessoal de cada um, por outro lado tudo o que fazemos por imposição sutil ou violenta de outro sempre é penoso e insalubre.