sábado, 6 de outubro de 2018

Meio Século a Acompanhar a Implosão da Dignidade Humana.


                Aqui, agora, caminhando sobre meus próprios passos durante pouco mais de meio século nesta via crucis (caminho da cruz) por que passa a humanidade exclamo aos quatro ventos “eu vi a implosão da dignidade humana” e abro as cortinas para que a percebam. 
                Perto dos dez anos atento a voz do radio, requisitado em nome da legalidade, me marcou aquela imagem, barba por fazer, a metralhadora pendurada nos ombros, o Brizola em seu discurso inflamado a conclamar o povo na resistência pela legalidade em frente ao palácio do governo estadual, foi meu primeiro aprendizado sobre golpes planejados contra a dignidade humana, graças a este esforço nesta ocasião conseguimos evitar.
                Enquanto convivia com uma afirmação de políticas publicas destinada a corrigir as grandes distorções existentes na sociedade brasileira, na minha memória a luta pelas reformas de base ficou marcada como grande tema do governo em sua conversa com a população em busca da preservação de sua dignidade, em paralelo percebia o pacto entre a elite brasileira e os mecanismos de intervenção do império representando os interesses internacionais dirigidos a sabotá-la.
                Não se passaram dois anos acompanhei aquela procissão programada com esperteza sempre que se torna necessário, o arrastar-se pelas ruas, como serpente venenosa, dos defensores da tradição, da família e da propriedade, sempre petulantes falando em nome de Deus sob a benção da imprensa comprometida com a elite econômica, cumprindo seu papel de precursor dos tanques nas ruas para esmagar a digna liberdade com sua mais pura ditadura.
                Quatro anos onde cada vez mais eu vi o mostrar à cara do golpe militar, de A5 na mão a usar o direito que só a violência armada lhe concedia contra a população, enquanto do nosso lado fazíamos os cavalos dançarem sobre bolinhas de gude nas manifestações sempre que tentavam nos dispersar, do lado deles mais hábeis por seu uso indevido de força bruta, liquidavam a população nos porões da ditadura, torturando, semeando morte de nossos amigos pelo simples fato destes com eles não concordar e seu regime de força não aceitar.
                A ilegalidade do regime prosperou com os métodos que mais conhecemos grandes investimentos em obras destinadas a propagandear o regime e grandes desvios de dinheiro a sustentar sua manutenção e comprar parte da população, os inocentes úteis de sempre, bipartidarismo hipócrita destinado a criar um simulacro de democracia, quanto a nós continuávamos há percorrer o tempo, oprimidos em nosso pensar, com as manifestações culturais censuradas e os conteúdos pedagógicos alterados por reformas destinadas a aparelhar as mentes contra o pensar.
                Ninguém consegue a alma libertária calar e conseguimos a muito custo espremer a violência para o canto das cordas no ringue, obrigando-a via transição política a nós a democracia devolver, mas a elite em nenhum tempo abriu mão de conspirar contra o povo, uma anistia de mentirinha com salvaguarda para torturadores, mas este povo buscava para a nação uma solução que harmonizasse as pessoas através de uma justa distribuição de renda contrariando privilégios históricos a bradar pelos quatro cantos a dileta frase “eleição direta já”.
                Não que a vitória tenha sido alcançada apenas avançamos e neste avançar passamos por percalços tipo Sarney, modelo Collor de modernidade e uma estranha aproximação da direita do sociólogo antigo exilado Fernando Henrique, mas ainda nos tinham reservado noticia pior, como depois o vimos, a imposição de um golpe de estado de gabinete e a construção de novos modelos baseados na manipulação tecnológica de dados dos comportamentos pessoais para manter a elite no poder, era o tempo de trabalhar a globalização na rede.
                Pude ver que nunca perderam a receita, nunca deixaram de ter o império a lhes financiar, se então desta feita não cabia mais os tanques na rua botar, novos tempos, novas maneiras de o golpe prosperar não seria difícil encontrar, por aqui no meu canto acompanhando todos estes ardis do sistema agora conectado e globalizado ficou cada vez mais difícil encontrar maneira de quebrar o encanto deste falso canto das sereias com notas fascistas no ouvido do povo ecoar.
                Mais um momento me cabe viver na história agora com a construção de uma circunstância muito favorável ao crescimento do fascismo, explorando o lado conservador da população brasileira em especial de sua classe média que sonha enquanto trabalha para a elite parte da mesma vir a ser.     
                Receita fácil de sucesso, um punhado de frases grotescas, propagar a ideia de pulso forte, defender a família patriarcal com sua propriedade, brincar de hipocrisia moralista apontando o dedo acusador de imoralidade para gêneros diferentes, atacar educação libertária e a diversidade cultural, encontrar um alvo inimigo para uma guerra santa, falar sempre em nome de Deus, autodenominar-se salvador da pátria.
                Para tal receita funcionar temos pequenas condições a serem cumpridas, é preciso antes preparar o cenário como dantes já tínhamos visto, temos que contar com os que se vendem como sempre por 30 moedas o que convenhamos num Brasil no estagio que nos encontramos hoje não é muito difícil, há candidatos por todos os lados.
                Não esquecer nunca dos patrocinadores, claro que temos os de sempre o império e seus parceiros do mundo dos negócios locais e internacionais, uma mídia comprometida com interesses de quem a sustenta, acrescido dos inocentes úteis para bem servir a causa.
                E o respeito à dignidade humana, que se imploda, é o que pregam, pois para os mesmos dignidade é servilismo, é entrar nos eixos, o famoso manda quem pode obedece quem precisa, em sua matemática simples sabem que aumentando os mais precisados multiplicamos as vantagens dos exploradores.
                O primeiro ataque sempre é contra a educação, reforma sobre reforma para evitar qualquer indicio de escola libertária o primeiro combate é contra o espírito critico, sabota-se via o ensinar utilitário, de preferência em uma escola autoritária insistente em trabalhar o decorar contra o pensar.
                O segundo movimento passa sempre pela exploração do medo a morte, aí nada melhor do que fechar uma parceria com as religiões, onde trabalhar este temor permite que se faça qualquer coisa em nome dos deuses, e como temos leitores da vontade divina, muito estranho como são seletivos estes deuses na escolha de seus ministros, acho que é esta nossa vocação para sempre precisar de representantes.
                No terceiro tempo é disfarçar o autoritarismo camuflando-o como um movimento de salvação nacional, o que em tempos de rede soberana com suas noticias falsas aliadas à desinformação de uma comunidade afastada do ato de pensar é muito fácil via algoritmos opressores poderosos manipuladores dos grandes bancos de informação.
                Então como puderam ver circulei por pouco mais de meio século nesta sequencia de atentados a dignidade humana e sua consequente implosão, estão criando um ser humano desprovido de sensibilidade na direção ao outro, concentrado cada vez mais nas dificuldades que encontra na solução tão somente de suas necessidades particulares.

Nenhum comentário:

Postar um comentário