terça-feira, 25 de setembro de 2018

Rejeito Ser um Discurso - miniconto.

                Repasso esta confidência para vocês do mesmo modo que por mim foi recebida, decidir se a aceitam como história ou estória, eu deixo a critério de cada um de vocês, até porque não tem como ser diferente, a verdade esta sempre associada a cada um de nós, o que não poderia permitir-me não fazer é deixar de repassar-lhes a mesma pelo encanto que ela me sugeriu.

Sabes quando depois de uma boa hora de caminhada entre as frondosas arvores do parque liberas para teu prazer àqueles minutos do estirar-se no banco, dedicando-se a contemplação da natureza, da qual fizemos parte, ou, a bisbilhotar as letras enfileiradas em palavras e frases que aprisionadas estão em mais um livro, do qual somos cúmplices pelo simples fato de manuseá-lo.

Naquele dia ensolarado estava de braços com o livro, coisa leve linda contos de Tchekhov, um contador de estórias que muito aprecio, quando me perguntaram: “Que horas são”? Logo percebi que estava em minha frente à intenção de abrir uma conversa tão somente, pois seguiram a sua pergunta outras frases enfileiradas com rapidez, observações sobre a beleza do tempo entre outras exclamações, àquelas que são feitas apenas para manter vivo o fogo da conversa.

Tendo aberto uma pequena fresta na barragem, de imediato inundou-me sua história, serpenteando para lá, para cá, com seus altos e seus baixos pelas linhas que seguem como podem bem o ver.

Era praça publica pequena multidão do tamanho suficiente para ser grande e onde todos podem se ouvir e se falar, o centro do grupo era ocupado por um belo discurso, o orador o valorizava por seu talento na dicção e ritmo do som das frases, o tema era relevante dizia respeito a toda aquela gente e a lógica do pensamento tinha a benção da direção ao bem comum.

Pode-se talvez até dizer, pelo fato de não originário da terra, invisível era o seu circular no meio daquele povo, mesmo não sendo visto ele longe estava de ser desinteressado, antes pelo contrario, estava muito atento em perceber a sintonia entre o discurso e os seus ouvintes, era o seu estilo de bisbilhotar, aquele curioso especial que se preocupa com os outros seres humanos, em síntese um observador da alma humana.

Abrindo parênteses já perceberam que o espaço e tempo em nada preocupa nosso amigo, tentei inquiri-lo sobre tal, o mesmo desconversou dizendo que não interessava e que até não acreditava nisso para ele homem e natureza sempre foram os mesmos, uma definitiva opção pela vida nada mais do que isso, o que para um banco de praça me pareceu ótimo.

Como sempre neste tipo de evento percebeu que o grupo se dividia alguns claramente elogiando as bondades do tema, outros mais na defensiva questionando as consequências possíveis de sua aceitação, havia sim um consenso de que o mesmo deveria ser tratado e era oportuno o que justificava a adesão de todos há aquele momento.

Em sua reflexão percebeu que estava ali se realizando uma vocação do ser humano a defesa das ideias e que estas podem ser qualificadas positiva ou negativamente e que por certo deste se originariam muitos outros discursos de negação ou de apoio e mesmo até de sugestão para outros rumos esta é uma dinâmica que podemos admitir movimenta os nossos dias e por sinal sempre assim o foi, o discurso pode e deve ser julgado.

Também ao circular percebeu que as propostas apresentadas não eram de fato um traje sobmedida para nenhum dos participantes, isto era patente nas objeções e até nos apoios sempre construídos com um “mas...” o que por sinal lhe trouxe a alegria de que sim o Homem é um ser livre e único capaz de relacionar-se com os outros sem perder sua identidade.  
 
Mas o que realmente o deixou motivado foi verificar que estavam lado a lado pessoas com posições as mais contraditórias, não se aproximavam entre si as de interpretação semelhantes e sim conviviam todas no respeito à identidade do outro, não havia o julgamento de pessoas e sim o respeito ao momento vivido por cada um, que por certo representavam experiências diferentes a serem consideradas como coerentes para as suas vidas, em nenhum momento indicava-se um caminho de abrir mão do pensar, mas sempre uma ponte a compor diversidades, havia no ar a compreensão de que os momentos pessoais são diferentes e que o de cada um representa o seu viver.

Naquela pausa para respirar lembrei-me do que estamos hoje involuntariamente partilhando um gigante investimento em tecnologia para enquadrar o homem na armadilha de discursos pré-fabricados, coleta-se muita informação de todos e desenham-se milhares de algoritmos destinados a encontrar brechas para influenciar nosso comportamento, nesta sociedade da especialização educa-se o homem em habilidades nunca em senso crítico, são dias em que a exploração do homem pelo homem a qualquer custo é considerada mérito e não violência injustificável, perpetuando esta sociedade onde as benesses são cada vez mais mal distribuídas entre os que nasceram para ser iguais.

Tudo isso o levou a refletir sobre o que trazia do lugar do qual vinha uma sociedade onde o medo à solidão impera, onde os homens aderem a discursos funestos ao bem estar social, tão somente para serem aceitos no rebanho, fazer parte de uma engrenagem conduzida por discursos violentos e discriminatórios, aos quais resistir é preciso.
               
Pode também sentir que havia movimento naquela assembleia onde a coerência era consequência direta da vida no momento, nunca um compromisso com um passado não mais existente, as decisões são pessoais, intransferíveis e refeitas no tempo sem ligação com os próprios discursos anteriores menos ainda com pretensos discursos futuros.
               
Foi assim que pude saber desta assembleia de homens livres, um verdadeiro sonho da humanidade, enquanto recebia o abraço de despedida deste homem que nunca mais vi, meus sentidos curtiam este presente ganho, uma marca forte de esperança em minha alma, o qual não poderia deixar de repassar e é o que faço a narrar-lhes este encontro.    

Nenhum comentário:

Postar um comentário