Repasso
esta confidência para vocês do mesmo modo que por mim foi recebida, decidir se a
aceitam como história ou estória, eu deixo a critério de cada um de vocês, até
porque não tem como ser diferente, a verdade esta sempre associada a cada um de
nós, o que não poderia permitir-me não fazer é deixar de repassar-lhes a mesma
pelo encanto que ela me sugeriu.
Sabes quando depois de uma boa
hora de caminhada entre as frondosas arvores do parque liberas para teu prazer
àqueles minutos do estirar-se no banco, dedicando-se a contemplação da natureza,
da qual fizemos parte, ou, a bisbilhotar as letras enfileiradas em palavras e
frases que aprisionadas estão em mais um livro, do qual somos cúmplices pelo
simples fato de manuseá-lo.
Naquele dia ensolarado estava de
braços com o livro, coisa leve linda contos de Tchekhov, um contador de
estórias que muito aprecio, quando me perguntaram: “Que horas são”? Logo
percebi que estava em minha frente à intenção de abrir uma conversa tão somente,
pois seguiram a sua pergunta outras frases enfileiradas com rapidez,
observações sobre a beleza do tempo entre outras exclamações, àquelas que são
feitas apenas para manter vivo o fogo da conversa.
Tendo aberto uma pequena fresta
na barragem, de imediato inundou-me sua história, serpenteando para lá, para
cá, com seus altos e seus baixos pelas linhas que seguem como podem bem o ver.
Era praça publica pequena
multidão do tamanho suficiente para ser grande e onde todos podem se ouvir e se
falar, o centro do grupo era ocupado por um belo discurso, o orador o
valorizava por seu talento na dicção e ritmo do som das frases, o tema era
relevante dizia respeito a toda aquela gente e a lógica do pensamento tinha a
benção da direção ao bem comum.
Pode-se talvez até dizer, pelo
fato de não originário da terra, invisível era o seu circular no meio daquele
povo, mesmo não sendo visto ele longe estava de ser desinteressado, antes pelo
contrario, estava muito atento em perceber a sintonia entre o discurso e os seus
ouvintes, era o seu estilo de bisbilhotar, aquele curioso especial que se
preocupa com os outros seres humanos, em síntese um observador da alma humana.
Abrindo parênteses já perceberam
que o espaço e tempo em nada preocupa nosso amigo, tentei inquiri-lo sobre tal,
o mesmo desconversou dizendo que não interessava e que até não acreditava nisso
para ele homem e natureza sempre foram os mesmos, uma definitiva opção pela
vida nada mais do que isso, o que para um banco de praça me pareceu ótimo.
Como sempre neste tipo de evento
percebeu que o grupo se dividia alguns claramente elogiando as bondades do
tema, outros mais na defensiva questionando as consequências possíveis de sua
aceitação, havia sim um consenso de que o mesmo deveria ser tratado e era
oportuno o que justificava a adesão de todos há aquele momento.
Em sua reflexão percebeu que
estava ali se realizando uma vocação do ser humano a defesa das ideias e que
estas podem ser qualificadas positiva ou negativamente e que por certo deste se
originariam muitos outros discursos de negação ou de apoio e mesmo até de sugestão
para outros rumos esta é uma dinâmica que podemos admitir movimenta os nossos
dias e por sinal sempre assim o foi, o discurso pode e deve ser julgado.
Também ao circular percebeu que
as propostas apresentadas não eram de fato um traje sobmedida para nenhum dos
participantes, isto era patente nas objeções e até nos apoios sempre
construídos com um “mas...” o que por sinal lhe trouxe a alegria de que sim o
Homem é um ser livre e único capaz de relacionar-se com os outros sem perder
sua identidade.
Mas o que realmente o deixou
motivado foi verificar que estavam lado a lado pessoas com posições as mais
contraditórias, não se aproximavam entre si as de interpretação semelhantes e
sim conviviam todas no respeito à identidade do outro, não havia o julgamento
de pessoas e sim o respeito ao momento vivido por cada um, que por certo
representavam experiências diferentes a serem consideradas como coerentes para
as suas vidas, em nenhum momento indicava-se um caminho de abrir mão do pensar,
mas sempre uma ponte a compor diversidades, havia no ar a compreensão de que os
momentos pessoais são diferentes e que o de cada um representa o seu viver.
Naquela pausa para respirar
lembrei-me do que estamos hoje involuntariamente partilhando um gigante
investimento em tecnologia para enquadrar o homem na
armadilha de discursos pré-fabricados, coleta-se muita informação de todos e
desenham-se milhares de algoritmos destinados a encontrar brechas para
influenciar nosso comportamento, nesta sociedade da especialização educa-se o
homem em habilidades nunca em senso crítico, são dias em que a exploração do
homem pelo homem a qualquer custo é considerada mérito e não violência
injustificável, perpetuando esta sociedade onde as benesses são cada vez mais
mal distribuídas entre os que nasceram para ser iguais.
Tudo
isso o levou a refletir sobre o que trazia do lugar do qual vinha uma sociedade
onde o medo à solidão impera, onde os homens aderem a discursos funestos ao bem
estar social, tão somente para serem aceitos no rebanho, fazer parte de uma engrenagem
conduzida por discursos violentos e discriminatórios, aos quais resistir é
preciso.
Pode
também sentir que havia movimento naquela assembleia onde a coerência era consequência
direta da vida no momento, nunca um compromisso com um passado não mais existente,
as decisões são pessoais, intransferíveis e refeitas no tempo sem ligação com os
próprios discursos anteriores menos ainda com pretensos discursos futuros.
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