Era um
caçador de vida, equipado com sua sensibilidade em busca dos instantâneos que a
festejassem, deparou-se cada vez mais com a morte celebrada, o resultado do movimentar
no qual estava envolvido lhe trouxe mais e mais esta indesejável surpresa,
dedicou-se a investigar e mostrar a mesma com o intuito de alertar para os
descaminhos na natureza que o homem estava a plantar.
Sua
arte era precisa, sobre bem querer estava construída, os fatos apesar de negar
a vida lhe trazem a gana de encontrar saída, outro homem sabia que por traz de
cada momento existia, e este outro é o que ele buscava querendo-o por inteiro
ver revelar-se em irmandade, pois sem esta nem humanidade existiria.
Se por
um lado na vila testemunhara: “Espaço
exíguo, digno da periferia, acumula em um mesmo quarto múltiplos moradores, ela
ali parecendo ser o centro de tudo, certeza de ter ela já nove anos ele não a teve,
no entorno dela apesar de menina promovida à mãe dona de casa, circulavam aos
seus cuidados os irmãos menores cuja fome aliviar a preocupava, em meio ao
ruído eventual de tiros da vizinhança no eterno jogo entre traficantes e
policiais, ressentia-se nesta dita casa da presença de adultos na maior parte
do dia”.
No
bairro classe média teve o contraponto: “Quarto seu privativo, cercada de
eletrônica ao mundo sempre estava conectada por seus celulares e computadores,
apesar dos seus nove anos parecia já mocinha, pelo seu quarto guloseimas
espalhavam-se parcialmente consumidas, tantas vezes batiam-lhe á porta para perguntar
se de algo precisava que isso a obrigava a durante a maior parte do dia, espantar
estes adultos intrometidos”.
Por aí passava como observador seu
primeiro dilema lhe era muito difícil entender como alguém poderia acreditar e
defender a existência de oportunidades iguais entre estas duas meninas durante suas
vidas, ainda mais lhe perturbava o fato de saber que as primeiras desfavorecidas
estão em muito maior numero que as segundas privilegiadas em sua distribuição
na sociedade em que vive e não por acaso, mas por políticas concretas de exclusão
social.
Conviveu
um dia em escola publica cuja falta de investimento envelhece e arruína a
infraestrutura, cujos esforçados professores tem nos seus próprios recursos o único
apoio a pedagogia e a didática isso com seus já minguados ganhos, perceber como
grita alto para os alunos a presença da merenda em qualidade tão sacrificada
por negociatas que tão bem se conhece, como não bastasse seus currículos de
horas e conteúdos insuficientes, o que torna cada vez mais difícil evitar que
dela a gurizada se ausente.
Pode por
outro lado estar noutro dia em colégio bem murado e gradeado com suas salas de
aula repletas de tecnologia onde viu circular uma mocidade bem nutrida por
entre as diversas cantinas com atividades previstas para todo o dia, conteúdos
diversificados atendendo corpo e espírito, recheado de oportunidades para os
mais diversos experimentos a atrair sua vontade pelo estudar.
Não é
dificil imaginar este segundo dilema que insistia em lhe desafiar, o desigual
investimento econômico na construção do ser humano de amanhã não estará por
óbvio aumentando e perpetuando as diferenças entre os homens, como ele poderia aceitar
que pessoas consigam defender isto como justo, sem sentir vergonha de sua
condição de construtores da desigualdade, pregando o fim de quaisquer políticas
de eliminação das mesmas em nome de uma espécie de seleção natural, digo aqui
ele sentiu muita vergonha desta absurda falta de humanidade que estava a
presenciar.
Estavam
cada vez mais pesados os passos de seu caminhar na periferia, ruas mal cuidadas
qualquer chuva um barro de patinar, postos de saúde lotados de filas por senhas
a madrugar, desrespeitosos ônibus destinados às pessoas empilhar para seu ir
trabalhar, filas de desempregados para garantir o trabalho mal pagar, a segurança
do desrespeito ao humilde o confundindo com um marginal, enfim o ser humano
transformado em utilitário para o sistema funcionar.
Nos ditos
bons bairros a vida apesar da fartura e do conforto, não lhe facilitaram o
andar, suas ruas repletas de automóveis a se digladiar disputando centímetro a centímetro
para na frente estar, sem ninguém respeitar, mau humor, estresse e depressão cercavam-no
como resposta a alta exigência de competição, os cachorros amestrados dentro de
muros e cercados, câmeras e seguranças por todo lado e o medo a prosperar, a
perda total de valores pelo corpo a corpo estimulado como modo operacional do profissional
vencedor.
Incompreensível
lhe era este terceiro dilema, estava muito claro em sua observação que a
felicidade prometida em toda a pirâmide independendo de onde cada qual se encontra,
na base ou no topo, não era atingida, ser isso característica do próprio
sistema como a maioria não percebia ou não o queria ver era-lhe difícil
compreender, o que lhes é permitido ter é a tristeza de ver o outro dobrar-se
frente os azares e as dificuldades como falsa felicidade.
Por
certo o encontrarão por seus caminhos ouvindo sempre, revelando sua interpretação
dos fatos, dificilmente o enxergarão em discussão, mas não se negará a fazer
suas observações, não manifestará vontade de ser entendido e respeitará todos
os rumos desde que não contra o homem.
Não
esperem respostas as suas perguntas, o que ele poderá propiciar é originar reflexões
que em cada um podem amadurecer a simultaneidade entre pergunta e resposta, ou
seja, a própria celebração da vida.
Tudo
tem seu tempo, como observador, à morte celebrada em sua pele ficou marcada por
estes instantâneos, apercebeu-se que o ser humano necessitava reconstruir-se
por inteiro, para ele agora era tempo de evangelizador assim trocando a pele da
morte pela vida poderia seguir em frente sem perder sua fé na humanidade.
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