segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Instantâneos da Morte Celebrada – miniconto.


                Era um caçador de vida, equipado com sua sensibilidade em busca dos instantâneos que a festejassem, deparou-se cada vez mais com a morte celebrada, o resultado do movimentar no qual estava envolvido lhe trouxe mais e mais esta indesejável surpresa, dedicou-se a investigar e mostrar a mesma com o intuito de alertar para os descaminhos na natureza que o homem estava a plantar.
                Sua arte era precisa, sobre bem querer estava construída, os fatos apesar de negar a vida lhe trazem a gana de encontrar saída, outro homem sabia que por traz de cada momento existia, e este outro é o que ele buscava querendo-o por inteiro ver revelar-se em irmandade, pois sem esta nem humanidade existiria.
                Se por um lado na vila testemunhara: “Espaço exíguo, digno da periferia, acumula em um mesmo quarto múltiplos moradores, ela ali parecendo ser o centro de tudo, certeza de ter ela já nove anos ele não a teve, no entorno dela apesar de menina promovida à mãe dona de casa, circulavam aos seus cuidados os irmãos menores cuja fome aliviar a preocupava, em meio ao ruído eventual de tiros da vizinhança no eterno jogo entre traficantes e policiais, ressentia-se nesta dita casa da presença de adultos na maior parte do dia”.
                No bairro classe média teve o contraponto: “Quarto seu privativo, cercada de eletrônica ao mundo sempre estava conectada por seus celulares e computadores, apesar dos seus nove anos parecia já mocinha, pelo seu quarto guloseimas espalhavam-se parcialmente consumidas, tantas vezes batiam-lhe á porta para perguntar se de algo precisava que isso a obrigava a durante a maior parte do dia, espantar estes adultos intrometidos”.
                Por aí passava como observador seu primeiro dilema lhe era muito difícil entender como alguém poderia acreditar e defender a existência de oportunidades iguais entre estas duas meninas durante suas vidas, ainda mais lhe perturbava o fato de saber que as primeiras desfavorecidas estão em muito maior numero que as segundas privilegiadas em sua distribuição na sociedade em que vive e não por acaso, mas por políticas concretas de exclusão social.
                Conviveu um dia em escola publica cuja falta de investimento envelhece e arruína a infraestrutura, cujos esforçados professores tem nos seus próprios recursos o único apoio a pedagogia e a didática isso com seus já minguados ganhos, perceber como grita alto para os alunos a presença da merenda em qualidade tão sacrificada por negociatas que tão bem se conhece, como não bastasse seus currículos de horas e conteúdos insuficientes, o que torna cada vez mais difícil evitar que dela a gurizada se ausente.
                Pode por outro lado estar noutro dia em colégio bem murado e gradeado com suas salas de aula repletas de tecnologia onde viu circular uma mocidade bem nutrida por entre as diversas cantinas com atividades previstas para todo o dia, conteúdos diversificados atendendo corpo e espírito, recheado de oportunidades para os mais diversos experimentos a atrair sua vontade pelo estudar.
                Não é dificil imaginar este segundo dilema que insistia em lhe desafiar, o desigual investimento econômico na construção do ser humano de amanhã não estará por óbvio aumentando e perpetuando as diferenças entre os homens, como ele poderia aceitar que pessoas consigam defender isto como justo, sem sentir vergonha de sua condição de construtores da desigualdade, pregando o fim de quaisquer políticas de eliminação das mesmas em nome de uma espécie de seleção natural, digo aqui ele sentiu muita vergonha desta absurda falta de humanidade que estava a presenciar.
                Estavam cada vez mais pesados os passos de seu caminhar na periferia, ruas mal cuidadas qualquer chuva um barro de patinar, postos de saúde lotados de filas por senhas a madrugar, desrespeitosos ônibus destinados às pessoas empilhar para seu ir trabalhar, filas de desempregados para garantir o trabalho mal pagar, a segurança do desrespeito ao humilde o confundindo com um marginal, enfim o ser humano transformado em utilitário para o sistema funcionar.
                Nos ditos bons bairros a vida apesar da fartura e do conforto, não lhe facilitaram o andar, suas ruas repletas de automóveis a se digladiar disputando centímetro a centímetro para na frente estar, sem ninguém respeitar, mau humor, estresse e depressão cercavam-no como resposta a alta exigência de competição, os cachorros amestrados dentro de muros e cercados, câmeras e seguranças por todo lado e o medo a prosperar, a perda total de valores pelo corpo a corpo estimulado como modo operacional do profissional vencedor.
                Incompreensível lhe era este terceiro dilema, estava muito claro em sua observação que a felicidade prometida em toda a pirâmide independendo de onde cada qual se encontra, na base ou no topo, não era atingida, ser isso característica do próprio sistema como a maioria não percebia ou não o queria ver era-lhe difícil compreender, o que lhes é permitido ter é a tristeza de ver o outro dobrar-se frente os azares e as dificuldades como falsa felicidade.
                Por certo o encontrarão por seus caminhos ouvindo sempre, revelando sua interpretação dos fatos, dificilmente o enxergarão em discussão, mas não se negará a fazer suas observações, não manifestará vontade de ser entendido e respeitará todos os rumos desde que não contra o homem.
                Não esperem respostas as suas perguntas, o que ele poderá propiciar é originar reflexões que em cada um podem amadurecer a simultaneidade entre pergunta e resposta, ou seja, a própria celebração da vida.
                Tudo tem seu tempo, como observador, à morte celebrada em sua pele ficou marcada por estes instantâneos, apercebeu-se que o ser humano necessitava reconstruir-se por inteiro, para ele agora era tempo de evangelizador assim trocando a pele da morte pela vida poderia seguir em frente sem perder sua fé na humanidade.

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