sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Asfixiados por Botas Sujas – miniconto.


                Era uma terra estranha, cuja vocação exercia-se no contraste, o que tinha de bela tinha de desumana, quem se dispunha a servir parasitava o povo, quem exigia a liberdade a queria para escravizar, confundia seus direitos com o poder de discriminar, onde a religião tinha seus deuses a serviço da violência, sua enorme riqueza era feita para poucos acumular, enfim uma pátria que condecora como mérito os desmandos do outro a explorar.
                Escutava-se o ritmado ruído surdo das botas sujas a asfixiar a cultura, negando-lhe crédito, sonegando-lhe valia é julgada por perdulária por desnecessária, a reflexão manifesta em arte por sua característica libertária é condenada.
                Seus mares com suas bonitas praias de águas azuis esverdeadas testemunhavam no dia a dia a miséria a espalhar-se, sua oligarquia gananciosa roubava a qualidade do ensinar para assim melhor ao povo aparelhar, seus juízes serviam os senhores para a injustiça perpetuar, o trabalho era destinado a locupletar os senhores de outras terras via assalariados feitores, traidores escolhidos no próprio local, para qualquer contestação violenta repressão vinha se manifestar.
                Escutava-se o ritmado ruído surdo das botas sujas a asfixiar a educação, negando-lhe o direito do ensinar o pensar, sabotando estudos de filosofia, sociologia e história em nome do pratico capacitar nas habilidades necessárias ao mercado de mão de obra para melhor servi-lo.
                Seu povo multifacetado com sua linda pura mescla de raças e culturas ao qual espalhavam boatos de nefastos inimigos que a qualquer momento viriam à liberdade de todos roubarem, como se esta dita liberdade não fosse uma farsa por sua sujeição a maquina de exploração e consumo, sob o tacão desta inverdade oprimiam a população com o falso refrão de assim protegê-la contra maldosos os defensores da tradição, família e propriedade.
                Escutava-se o ritmado ruído surdo das botas sujas a asfixiar o direito a justa distribuição dos benefícios da produção de toda nação, conceituando o tal de “mérito” pela capacidade de o sangue e o suor de outro acumular e abençoando quaisquer métodos como dignos de justificá-lo.
                Estive lá e assim a vi mais do que vê-la pude perceber que nada disto era novo que gerações mais gerações trabalharam com afinco para construir e mantê-la assim contraditória, destruindo as vontades libertárias, semeando o medo a falsos fantasmas e principalmente comprando via migalhas os feitores da escravidão prometendo-lhes parte do pão sonegado a multidão.
                Voltando a casa, porque o bom filho sempre a casa torna, ao discutir com amigos as impressões daquele lugar e as marcas que ele a mim está a deixar, lembrei-me de pequenas impressões que o convívio com as pessoas de lá me trouxeram e das quais não gostaria que estivéssemos a nos contaminar.
                Um me dizia que o joio do trigo nós temos que separar, que lhe parecia justo ao primeiro exterminar para o segundo prosperar, mesmo que queimasse no fogo algum aparente inocente por certo isto aconteceria porque alguma culpa este teria, julgava-se no direito de identificar quem era trigo e quem era joio simplesmente por ao outro se comparar, tinha sempre certeza de ser o certo logo o outro só poderia estar a errar, mas isto é do homem até posso aceitar, mas como pode a outro esta tarefa delegar dando-lhe procuração para em seu nome justiçar.
                Outro falava da propriedade sagrada a preservar, valendo qualquer violência que se pudesse imaginar, armado até os dentes para aproximações indesejadas afastar, este seu direito divino a vida do outro deveria preservar para suas posses não minar, talvez em sua memória estivesse alguma história, em outros tempos, ter sobre terreno do vizinho à sua cerca posto a caminhar e da defesa intransigente que fizera a esta posse indecente. 
                Um terceiro se punha como abençoado para o comportamento de cada um determinar, afinal ele tinha entendido em especial confidência do divino por certo, o papel que cada qual aqui deveria executar, em nome dos seus deuses, para se santificar, conhecia dos gêneros o comportamento a esperar e aos impuros o direito tinha de segregar e exterminar, cada um deveria reconhecer o seu lugar e assim o aceitar.
                Muitos me propagavam a diferença de posição social ao qual a genética os destinava, é tão obvio que uns nasceram para mandar e outros em seus cromossomas tinham a gene do obedecer, ao qual deveriam se resignar, pois este foi o direito que lhe deram ao nascerem os construtores do universo dos quais eles se julgavam os únicos bens amados e este poder herdar.
                Para nós não foi dificil antever o que pudemos constatar quando em comitiva, as mochilas nas costas, nos deslocamos em viajem para rever o povo e o lugar.
                Outdoors a conclamar “Ame-o ou deixe-o” misturavam-se aos espaços urbanos conclamando o povo a aprovação incondicional dos mandos e desmandos, tudo envolvido no acontecer de um ufanismo oficial enlouquecido.
                Atenção sempre em alerta, cuidado com a porta aberta, policiando seu dizer para evitar má interpretação e ficar a descoberta, circulava a multidão dispersa com medo do como a vão ver, evitava em grupos aparecer para contra a ordem não sugerir ser.
                Nas redes e mídias circulavam todas iguais às noticias, diferentes do boca a boca que corria em forma de quase sigilo, tinham a cara de um mesmo livro, sempre por um mesmo autor escrito.
                Espalhafatos eram os aparatos de grupelhos de justiceiros, enfeitados com seus símbolos vivos e barulhentos corriam atrás de suas inventadas bruxas para queimar, ofensas a moral e aos bons costumes por eles criados, não podiam aceitar, por isso estavam a usar seus mecanismos de combater e segregar.
                As frases eram curtas, incisivas, falsamente positivas, gritos de guerra prontos, acabados, como verdade por si só, sempre desnecessário sobre elas o refletir e o pensar, pois mostravam o poder e como tal sempre estão a acertar.
                Veículos militares por todos os cantos a circular a ordem impõe-se pelo medo que a violência ostensiva pode gerar além de pequenas milícias a paisana buscando assim a todos intimidar.
                Tudo era unanime, proibido era discordar, definitivamente você era bom por ser a favor, ou mau por contrariar, nesta dualidade tipo céu inferno você tinha que se adaptar.
                Encerrando nosso passeio por esta estranha terra, com estas sensações impregnadas na pele, ainda ao aqui chegar escutávamos n’alma o ritmado ruído surdo das botas sujas a asfixiar...   

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