Quando você
me perguntou o que eu estava lendo ontem no ônibus no momento em que me viste pela
janela ao passar naquela parada onde esperavas o teu ônibus, confesso não tive
nenhuma dificuldade de lembrar, bem o sabes que tenho o costume de ler dois ou
três livros ao mesmo tempo, mas estamos em um momento confuso na sociedade, vivenciando
um vendaval de inconsequências, não consegui omitir-me corri em busca da
reflexão sobre o homem Justo.
Tens
toda razão cara, como é bom compartilhar contigo estes deslocamentos pela
cidade usando um transporte comunitário, além de cruzarmos com tantas pessoas
que nos fazem bem só por serem pessoas, temos tempo para nossas leituras, para
nossas conversas, para admirarmos o ser humano no seu dia a dia, sem falar no adequado
uso de energia que isso representa e na cada vez mais necessária luta contra a
poluição.
Conheço
e admiro suas ideias sobre usar transporte coletivo, a opção de andar á pé, por
sinal meu meio de transporte favorito caminhar, em veículos não poluentes como
a bicicleta, são os que sempre nos geram oportunidades de conviver com o pouco
de natureza que as cidades ainda nos reservam, mas voltando ao nosso tema busquei
na minha prateleira “Os Miseráveis” do grande Victor Hugo para reler e era este
o livro daquele dia por que penso que é um dos que melhor traduz o conceito de
ser Justo.
Sim tenho
discutido com vários de nossos amigos, aceleramos a vida e perdemos a
capacidade de autocrítica nos transformando cada vez mais em personagens de ideias
em lugar de assumirmos nosso papel real de seres humanos, pouco a pouco
perdemos a capacidade de sermos protagonistas no roteiro de nossa própria
existência.
Está lembrado
meu amigo de anteontem, aquela discussão absurda no café, conhecidos nossos aos
quais prezamos pessoas que nada devem a inteligência e ao bom senso, enfrentaram-se
em um discurso a beira do ódio, defendendo uma cartilha ideológica sem o filtro
de uma análise de consciência amparada nos seus valores pessoais, acabou se
transformando em um discurso vazio sem nada a trazer de positivo para ninguém.
Sim é
isto mesmo, todos nós temos uma ideologia sem exceção, em diferentes graduações
partindo de um lado da defesa a inclusão
até na outra extremidade a excludente discriminação, mas acima de tudo temos
valores pessoais que desenvolvemos em nós mesmos e sempre são estes que devem guiar-nos,
nunca um conjunto de regras escritas por terceiros estas apenas a estes servem,
ao nos adequarmos á forma estaremos abrindo mão do nosso livre arbítrio.
Lembras-se
daquela roda de cerveja onde a conversa transitou pela questão do mérito em
mundo de oportunidades iguais, o que mais nos impressionou foi à dificuldade de
aceitarem os privilégios que os diferencia e torna injusta a competição a não
ser que se considere mérito diferenças provenientes do acaso, acabamos por
concluir que simplesmente não queremos perder nosso status quo e o defendemos
contra os outros em lugar de buscarmos uma distribuição mais justa do produto
social.
E
quando nos deparamos com aquele grupo de autoconsiderados eleitos que
teimosamente insistiram que a não adesão às regras por eles criadas significava
nosso rebaixamento a um grupo inferior de seres humanos, como se tivessem o direito
de definir quem é o que, pudemos lhes mostrar que em períodos diferentes da
humanidade e até em mesmos períodos em organizações sociais diferentes os
ungidos são outros e muitas vezes completamente divergentes entre si,
entretanto continuaram a preferir encastelar-se em sua autoestima baseada na
diminuição do outro.
Lembro-me
daquela noite no entorno da fogueira tal qual um jogral um relatou:
- “Sentados na areia em pleno
parque a peça teatral rolando e éramos nós um só publico nos divertindo com a comédia
bem representada, tínhamos poderes econômicos diferentes, tínhamos peles de cor
diferente, tínhamos opções sexuais diferentes, mas éramos sim um só publico,
feliz curtindo o prazer de uma boa peça de teatro ao ar livre, sem entrada que
não fosse o custo de parar, sentar e curtir, apenas exercício de vontade pessoal
a nos unir neste espetáculo de vida comum, onde era dada a cada um a
oportunidade igualitária de diversão, ninguém em momento algum precisou
perguntar o que se pensava da peça apenas somamos as diferentes quantidades e
tipos de gargalhadas em um prazer coletivo”.
Outro
sugeriu:
- “Como achar o justo senão
dentro de nós mesmos e se assim o é como julgar o outro pelo meu conceito de
justiça se a mesma esta dentro dele, como bem disseram o que você fala é parte inteira
do que você acredita, quando você me diz que esta rosa é bela, legal, só tenho
que pensar que ela é bela para ti, independente do que ela representa para mim,
a soma destas representações é a própria vida e não posso lhe roubar a beleza
dela que tu tens apenas a posso somar ao conceito que ela tem para mim”.
Eu
comentei:
- “Quando
você me perguntou o que estava lendo no ônibus naquele dia foram nestas coisas
todas que estava pensando nesta vida que levamos nós todos tão diferentes em
talentos e oportunidades, mas que nos aproximam a cada dia mais na busca do
homem justo que cada um de nós merece ser, onde nossos argumentos por mais
contraditórios que sejam não são uma cadeia de ódio e sim o respeito por uma
vida sempre diferente da nossa desde que tenhamos a abertura de ouvir o outro
como um ser único como conceituamos a nós mesmos”.
Você
disse:
- “Não
encontra eco neste tipo de procedimento qualquer comportamento que necessite da
exploração de outro para beneficio próprio, homens livres trocam entre si seus
valores com respeito mutuo e generosidade nunca com ganância, pois esta ultima
é que nos leva aos conflitos e ao mundo de guerras que nos acostumamos a vivenciar”.
Nosso
amigo defendeu:
- “Caminhar
lado a lado respeitando as individualidades esta sendo o aprendizado que
realizamos juntos, não é fácil por certo, mas encontrar dentro de si as
motivações para todos os meus atos bem o sabemos é o único caminho para a felicidade,
todos os nossos movimentos não podem ser conduzidos por outrem que não seja nós
mesmos, sob-risco de ao tentarmos morrermos para nós mesmos”.
Se eu busquei
na releitura de Vitor Hugo o conceito de justo, não foi porque acredito que ele
tenha a verdade e sim porque acredito que no contraponto da leitura encontro a
verdade dentro de mim, assim como quando me aproximo de você e de nossos amigos
no comprimento da minha vocação política encontro a mim mesmo.
Vamos
em frente é já ali na esquina que encontraremos mais outros iguais a carregar
sua vida com prazer e felicidade e assim juntos criarmos o mundo dos libertos,
não existe tarefa desagradável quando da escolha pessoal de cada um, por outro
lado tudo o que fazemos por imposição sutil ou violenta de outro sempre é
penoso e insalubre.
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