domingo, 23 de setembro de 2018

O Justo - Releitura dos Miseráveis - miniconto.


                Quando você me perguntou o que eu estava lendo ontem no ônibus no momento em que me viste pela janela ao passar naquela parada onde esperavas o teu ônibus, confesso não tive nenhuma dificuldade de lembrar, bem o sabes que tenho o costume de ler dois ou três livros ao mesmo tempo, mas estamos em um momento confuso na sociedade, vivenciando um vendaval de inconsequências, não consegui omitir-me corri em busca da reflexão sobre o homem Justo.
                Tens toda razão cara, como é bom compartilhar contigo estes deslocamentos pela cidade usando um transporte comunitário, além de cruzarmos com tantas pessoas que nos fazem bem só por serem pessoas, temos tempo para nossas leituras, para nossas conversas, para admirarmos o ser humano no seu dia a dia, sem falar no adequado uso de energia que isso representa e na cada vez mais necessária luta contra a poluição.
                Conheço e admiro suas ideias sobre usar transporte coletivo, a opção de andar á pé, por sinal meu meio de transporte favorito caminhar, em veículos não poluentes como a bicicleta, são os que sempre nos geram oportunidades de conviver com o pouco de natureza que as cidades ainda nos reservam, mas voltando ao nosso tema busquei na minha prateleira “Os Miseráveis” do grande Victor Hugo para reler e era este o livro daquele dia por que penso que é um dos que melhor traduz o conceito de ser Justo.
                Sim tenho discutido com vários de nossos amigos, aceleramos a vida e perdemos a capacidade de autocrítica nos transformando cada vez mais em personagens de ideias em lugar de assumirmos nosso papel real de seres humanos, pouco a pouco perdemos a capacidade de sermos protagonistas no roteiro de nossa própria existência.
                Está lembrado meu amigo de anteontem, aquela discussão absurda no café, conhecidos nossos aos quais prezamos pessoas que nada devem a inteligência e ao bom senso, enfrentaram-se em um discurso a beira do ódio, defendendo uma cartilha ideológica sem o filtro de uma análise de consciência amparada nos seus valores pessoais, acabou se transformando em um discurso vazio sem nada a trazer de positivo para ninguém.
                Sim é isto mesmo, todos nós temos uma ideologia sem exceção, em diferentes graduações  partindo de um lado da defesa a inclusão até na outra extremidade a excludente discriminação, mas acima de tudo temos valores pessoais que desenvolvemos em nós mesmos e sempre são estes que devem guiar-nos, nunca um conjunto de regras escritas por terceiros estas apenas a estes servem, ao nos adequarmos á forma estaremos abrindo mão do nosso livre arbítrio.
                Lembras-se daquela roda de cerveja onde a conversa transitou pela questão do mérito em mundo de oportunidades iguais, o que mais nos impressionou foi à dificuldade de aceitarem os privilégios que os diferencia e torna injusta a competição a não ser que se considere mérito diferenças provenientes do acaso, acabamos por concluir que simplesmente não queremos perder nosso status quo e o defendemos contra os outros em lugar de buscarmos uma distribuição mais justa do produto social.
                E quando nos deparamos com aquele grupo de autoconsiderados eleitos que teimosamente insistiram que a não adesão às regras por eles criadas significava nosso rebaixamento a um grupo inferior de seres humanos, como se tivessem o direito de definir quem é o que, pudemos lhes mostrar que em períodos diferentes da humanidade e até em mesmos períodos em organizações sociais diferentes os ungidos são outros e muitas vezes completamente divergentes entre si, entretanto continuaram a preferir encastelar-se em sua autoestima baseada na diminuição do outro.
                Lembro-me daquela noite no entorno da fogueira tal qual um jogral um relatou:
- “Sentados na areia em pleno parque a peça teatral rolando e éramos nós um só publico nos divertindo com a comédia bem representada, tínhamos poderes econômicos diferentes, tínhamos peles de cor diferente, tínhamos opções sexuais diferentes, mas éramos sim um só publico, feliz curtindo o prazer de uma boa peça de teatro ao ar livre, sem entrada que não fosse o custo de parar, sentar e curtir, apenas exercício de vontade pessoal a nos unir neste espetáculo de vida comum, onde era dada a cada um a oportunidade igualitária de diversão, ninguém em momento algum precisou perguntar o que se pensava da peça apenas somamos as diferentes quantidades e tipos de gargalhadas em um prazer coletivo”.
                Outro sugeriu:
- “Como achar o justo senão dentro de nós mesmos e se assim o é como julgar o outro pelo meu conceito de justiça se a mesma esta dentro dele, como bem disseram o que você fala é parte inteira do que você acredita, quando você me diz que esta rosa é bela, legal, só tenho que pensar que ela é bela para ti, independente do que ela representa para mim, a soma destas representações é a própria vida e não posso lhe roubar a beleza dela que tu tens apenas a posso somar ao conceito que ela tem para mim”.
                Eu comentei:
                - “Quando você me perguntou o que estava lendo no ônibus naquele dia foram nestas coisas todas que estava pensando nesta vida que levamos nós todos tão diferentes em talentos e oportunidades, mas que nos aproximam a cada dia mais na busca do homem justo que cada um de nós merece ser, onde nossos argumentos por mais contraditórios que sejam não são uma cadeia de ódio e sim o respeito por uma vida sempre diferente da nossa desde que tenhamos a abertura de ouvir o outro como um ser único como conceituamos a nós mesmos”.
                Você disse:
                - “Não encontra eco neste tipo de procedimento qualquer comportamento que necessite da exploração de outro para beneficio próprio, homens livres trocam entre si seus valores com respeito mutuo e generosidade nunca com ganância, pois esta ultima é que nos leva aos conflitos e ao mundo de guerras que nos acostumamos a vivenciar”.
                Nosso amigo defendeu:
                - “Caminhar lado a lado respeitando as individualidades esta sendo o aprendizado que realizamos juntos, não é fácil por certo, mas encontrar dentro de si as motivações para todos os meus atos bem o sabemos é o único caminho para a felicidade, todos os nossos movimentos não podem ser conduzidos por outrem que não seja nós mesmos, sob-risco de ao tentarmos morrermos para nós mesmos”.
                Se eu busquei na releitura de Vitor Hugo o conceito de justo, não foi porque acredito que ele tenha a verdade e sim porque acredito que no contraponto da leitura encontro a verdade dentro de mim, assim como quando me aproximo de você e de nossos amigos no comprimento da minha vocação política encontro a mim mesmo.
                Vamos em frente é já ali na esquina que encontraremos mais outros iguais a carregar sua vida com prazer e felicidade e assim juntos criarmos o mundo dos libertos, não existe tarefa desagradável quando da escolha pessoal de cada um, por outro lado tudo o que fazemos por imposição sutil ou violenta de outro sempre é penoso e insalubre.

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