Publicado após a
sua morte, pela informação que temos "O Castelo" foi escrito por Franz
Kafka em seis meses, que não necessitou mais do que esse meio ano para nos
mostrar o intrincado mundo da burocracia que nos conduz à completa abstração do
real, e o continuado andar em círculos que nos leva a nunca atingir o objetivo,
as interações do protagonista com os outros personagens mostram traços
permanentes de submissão do imaginário coletivo da humanidade, um eterno
adivinhar dos desejos do poder e adequar-se em comportamento a essas falsas
necessidades geradas.
Não resta dúvida
quanto à atualidade desta ficção, os labirintos hoje cresceram em sofisticação,
porém seus resultados permanecem os mesmos, andamos sempre girando em torno de
nós mesmos sem chegar a lugar nenhum, elegemos e criamos um poder que na
verdade é o Deus inexistente construído pelo medo coletivo de perder o que não
temos, de estarmos fora do prumo que nada mais é senão falsas maiorias
estabelecidas por flashes de acontecimentos visualizados e emocionalmente
curtidos, mas dificilmente analisados, muito pouco refletidos, quase nunca
pensados.
Na mesma linha
inscreve-se o outro livro de Kafka, "O Processo", apenas exprimido os
dois caminhos diferentes, enquanto no Castelo o protagonista persegue
indefinidamente alcançar o poder para entendê-lo, no Processo o poder passa
permanentemente intervindo na vida do protagonista sem que este saiba o seu por
que e entenda o que o mesmo deseja, sem dúvida esses dois olhares completamente
diferentes são indicativos de quão iluminada era a pena desse escriba por uma qualificada
e rara inteligência.
Sendo completamente
desnecessário realçar o estilo belíssimo do escritor Tcheco, suas qualificações
como um dos melhores escritores europeus são de conhecimento de todos nós que
gostamos de ler, é importante nessa leitura de Kafka identificar seu conhecimento
da psicologia humana, de seus medos excessivos, de sua visão da estrutura do
poder, que nos aponta não para a competência e sim para um senso comum onde
todos são mais realistas do que o rei, até porque esse rei é um emaranhado de
regras autoproclamadas pelo coletivo e não um ser real.
Sempre de tempos
em tempos releio alguma de suas obras, para me manter longe da sedução do
submeter-se a este maldito falso conhecimento, proclamado por uma maioria
acéfala ensinada e estimulada por todo o sempre a reagir e não pensar, e recomendo-as
como um grande alento para a alma de quem busca encontrar pelo conhecimento o
caminho da liberdade.
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