sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Só Kafka Para Descrever o Inatingível em Seis Meses.

     Publicado após a sua morte, pela informação que temos "O Castelo" foi escrito por Franz Kafka em seis meses, que não necessitou mais do que esse meio ano para nos mostrar o intrincado mundo da burocracia que nos conduz à completa abstração do real, e o continuado andar em círculos que nos leva a nunca atingir o objetivo, as interações do protagonista com os outros personagens mostram traços permanentes de submissão do imaginário coletivo da humanidade, um eterno adivinhar dos desejos do poder e adequar-se em comportamento a essas falsas necessidades geradas.  

     Não resta dúvida quanto à atualidade desta ficção, os labirintos hoje cresceram em sofisticação, porém seus resultados permanecem os mesmos, andamos sempre girando em torno de nós mesmos sem chegar a lugar nenhum, elegemos e criamos um poder que na verdade é o Deus inexistente construído pelo medo coletivo de perder o que não temos, de estarmos fora do prumo que nada mais é senão falsas maiorias estabelecidas por flashes de acontecimentos visualizados e emocionalmente curtidos, mas dificilmente analisados, muito pouco refletidos, quase nunca pensados.

     Na mesma linha inscreve-se o outro livro de Kafka, "O Processo", apenas exprimido os dois caminhos diferentes, enquanto no Castelo o protagonista persegue indefinidamente alcançar o poder para entendê-lo, no Processo o poder passa permanentemente intervindo na vida do protagonista sem que este saiba o seu por que e entenda o que o mesmo deseja, sem dúvida esses dois olhares completamente diferentes são indicativos de quão iluminada era a pena desse escriba por uma qualificada e rara inteligência.

     Sendo completamente desnecessário realçar o estilo belíssimo do escritor Tcheco, suas qualificações como um dos melhores escritores europeus são de conhecimento de todos nós que gostamos de ler, é importante nessa leitura de Kafka identificar seu conhecimento da psicologia humana, de seus medos excessivos, de sua visão da estrutura do poder, que nos aponta não para a competência e sim para um senso comum onde todos são mais realistas do que o rei, até porque esse rei é um emaranhado de regras autoproclamadas pelo coletivo e não um ser real.


     Sempre de tempos em tempos releio alguma de suas obras, para me manter longe da sedução do submeter-se a este maldito falso conhecimento, proclamado por uma maioria acéfala ensinada e estimulada por todo o sempre a reagir e não pensar, e recomendo-as como um grande alento para a alma de quem busca encontrar pelo conhecimento o caminho da liberdade.     

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