sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Maldito Estrangeiro Bendito!

     Quando as manchetes das redes sociais são de extrema intolerância, quando vemos a insensatez desta crise migratória enfrentada pela Europa, tantas pessoas terminando seus dias no sofrimento, o absurdo desta estrutura mundial de má distribuição de renda, é o momento certo de buscarmos apoio em grandes pensadores, meu escolhido nesta virada de mês foi o brilhante escritor Albert Camus esse franco-argelino de grande sensibilidade social, talvez por ter enfrentado o problema durante a sua infância e juventude, lendo e relendo seus escritos não consegui esquivar-me de mostrar-lhes nestas linhas a qualidade do pensamento que circula pela humanidade como contraponto ao injusto sistema implantado no planeta.        

     Em especial relendo "O Estrangeiro", livro de poucas páginas e enorme conteúdo, expressão legítima da inconformidade com o que temos, seu personagem é a própria negação da hipocrisia social que infelizmente insistimos em ampliar, é um cara que não consegue mentir para si mesmo o que intuo ser a maior especialidade do nosso mundo hoje, adoramos nos enganar com intuito de fugirmos da necessidade premente de mudança, transformamos vidas humanas em alimento para a insaciável sede de autodestruição que é a arapuca socioeconômica que criamos e onde somos escravos legítimos de regras ilegítimas por nós inventadas.

     A mim em particular me seduz a maneira como o personagem vai interagindo com as expectativas das pessoas com quem trava relações, ele percebe claramente a cobrança de fantasias do coletivo, que para ele não fazem nenhum sentido, entende perfeitamente os mecanismos de desejo de cada um na construção da relação pretendida para com ele, e o que é mais importante fornece como retorno sempre seu modo de pensar com transparência, a sua verdade é comunicada a outrem independente de saber que não é a resposta esperada, evitando em definitivo entrar no jogo que é tentar adivinhar o que o outro quer ouvir, jogo que globalmente nos acostumados a jogar.

     Quanto ao título explico-me, esta dualidade em relação ao estrangeiro passa pela sensação de interferência que nos causa uma cultura diferente da nossa quando nos confrontamos com ela, na verdade nos sentimos ameaçados por este cara tão diferente, não de nós, mas do imaginário que criamos em relação a nós mesmos, bendito por ser tão ele mesmo, pela sua condição primeira de indivíduo e maldito por me deixar inseguro por sua imagem diferente da que tenho de mim mesmo.  

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