Nos primeiros
quinze dias ele era acompanhado por uma febre de quarenta ou quarenta e um
graus com enorme dificuldade para se alimentar duas ou três colherinhas, dessas
pequeninas de mexer o café, cheias de mingau sete vezes ao dia mais que isso o
mataria, praticamente sua vida era defecar, também o fazia sete vezes ao dia,
não as sobras do alimento como todos nós, mas sim um ácido composto de detritos
de morte interna, vivia em função de tirar a morte de dentro do corpo e de substituí-la
pelas pequenas doses de mingau que lhe repõem não exatamente a vida e sim a possibilidade
de lutar por ela.
Ultrapassada a
primeira quinzena a febre morreu, aqui estamos falando de um segundo período
que compreende alguns meses, voltou a fome e esta o possuiu por inteiro, passou
a ser seu único objetivo, via as pessoas sem enxergar nenhuma, tudo o que lhe
interessava era a espera pela próxima hora de comer, essa passou a ser sua vida
nutrir-se e esperar uma nova refeição, não conseguia em momento algum
compreender por que os outros não o podiam entender nesta sua dedicação exclusiva
ao objetivo de alimentar-se.
Isso eu devo a
Marguerite Duras, escritora Vietnamita-francesa que viveu a resistência em
Paris na Segunda Guerra Mundial, da leitura de seu livro “A Dor” que por sinal
não é para mim seu melhor livro, meus votos vão todos para “O Amante”, mas nesse
primeiro ela nos fala de seu marido na época retirado praticamente morto de um
campo de concentração nazista, mais de 1,70m pesando 37 quilos, era um morto-vivo,
entretanto sempre esteve lúcido.
Não encontrei
melhor reflexão sobre a natureza humana do que ao ler essas linhas, existe
clareza no relato da inteligência de todos os participantes do drama, intelectuais
atuantes na resistência à dominação estrangeira, incluindo junto a estes o
desafiador da morte, mostrou-me o homem como resultado de suas circunstâncias e
assim o somos sempre, como ele o foi, primeiro vivendo só a eliminação da
morte, depois só a necessidade de recompor-se como corpo para vida, essas eram
suas circunstâncias e esse era o homem.
Mais tarde já
passado o pior momento, contaram-lhe sobre a morte na prisão da irmã de vinte e
quatro anos, tinham sido presos juntos, essa morte não conseguia aceitar, teve
o pedido de separação por parte da escritora o que sim pode compreender, outras
circunstâncias outro homem, na sequência escreveu um livro sobre sua
experiência no campo de concentração e nunca mais pode falar sobre o tema nem
mesmo o nome do livro pronunciava.
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