No imaginário do
blues a encruzilhada era o momento de assinar o contrato com o demo e assim
garantir no presente o sucesso como músico e no futuro distante a colocação no
inferno d’alma, tudo dentro dos conformes da civilização cristã onde a festa, a
alegria, a felicidade pessoal, o prazer dos sentidos, são aqui e agora a
própria manifestação do mal, pois ao bem cabe o recolhimento, a tristeza, o
sofrimento, a negação do prazer.
Hoje nas
fantasias ilusórias do poder o grande sonho é recuperar em meio da atual
complexidade mundial os conceitos estabelecidos na encruzilhada do bem e do mal,
associar sempre que possível à esquerda os ideais de liberdade, igualdade,
solidariedade coletivos como usurpadores da liberdade individual, e à direita a
oportunidade de disputar no corpo a corpo um diferencial para si na comparação
com o outro a oportunidade do paraíso anunciado pela riqueza que representa o
viver à custa de outrem.
Não nos parece
difícil montar este circo como pão sempre o há a receita esta completa,
repetimos as mentiras com a insistência necessária para terem a cara de
verdade, temos para isso a grande mídia que apesar de sua crise existencial
nunca deixou de trabalhar para o poder, também temos dinheiro suficiente para
trabalhar espertamente nas redes sociais com mensagens em vídeo, textos e
caricaturas que associam pedaços de realidade fora do contexto com a esquerda e
vinculando-os aos fatores de antemão conhecidos como responsáveis pela
insatisfação do homem moderno.
A parte da
direita na encruzilhada é muito fácil de ser exercida, pois o enaltecimento da
vitória pessoal como justificativa plena e completa de toda e qualquer atitude,
amparada pelo seu deus construído sob sua medida para associar o sucesso à
bem-aventurança, homologa toda a hipocrisia de seu comportamento, glorificando
a mistificação pela inverdade como salvação do homem e do mundo.
Já à esquerda com
seus escrúpulos em relação ao homem está na parte mais difícil do debate, sabe
que a igualdade só pode ser construída a partir do alicerce das oportunidades
distribuídas de maneira homogênea entre todos na sociedade, obrigada a jogar o
jogo na casa do adversário e com as regras por ele determinadas corre
demasiadamente o risco de contaminar-se com a corrupção do poder.
Em particular não
acredito mais no jogo das massas, jogo todas as minhas fichas no crescimento
individual do homem livre, que por sua força, sua independência, sua
resistência, serve como profeta evangelizador do novo homem, que ao ser visto
em sua serenidade, no continuado viver o melhor presente, frutifique em outros
iguais livre pensadores.
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