segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Meus privilégios tem assinatura de meus pais

     Saio de uma margem do rio por sobre troncos levados pela correnteza, um a um vou montando o roteiro das minhas escolhas, eles são disjuntos, eles fogem, eles aparecem e se escondem, reaparecem, cada tronco navegante é uma opção de dar um passo à frente, uma oportunidade de avançar para o outro lado, repentinamente um pé na areia e me percebo por inteiro na outra beira, ao chegar um inventário rápido, me pergunto o que tenho comigo, a resposta é nada absolutamente nada, chego com tudo que tinha quando saí isto é coisa nenhuma.

     De que privilégios nos fala, é o ruído em forma de pergunta que zumbe em meus ouvidos, minha resposta é imediata, falo da regalia da travessia, do direito de estar aqui deste lado agora, de ter o entendimento da importância do desapego à posse, do vazio de coisas repleto de momentos vividos, da alma leve de quem se sente inteiro e em nada desfalcado de satisfação pessoal.

     Se hoje os dois, mãe e pai me faltam fisicamente, a presença de ambos em tudo que sou é imanente, sou um traço real de uma carta por eles assinada, sou o texto escrito resultado de suas vidas, não por me apontarem caminhos sim por aprender ao seu lado observando-os experimentar a vida juntos, não por virtuose sim por humanidade, não por perfeição sim por seus erros e vontade de acertar, não por me mimarem sim por me amarem.

     Se estiver imaginando que minhas pegadas sobrepõem as deles, lamento decepcioná-lo a maior riqueza que a mim deram foi aprender a nada aceitar como pronto, acabado, conhecido e sim como pensamento a ser questionado, eles conviveram com minha rebeldia contrapondo-a com carinho paciente, o que me permitiu andar com minhas próprias pernas, sem muletas, sem perna de pau apenas carne e osso sob a batuta do pensar.

     No teatro da vida agora com quatro filhos exerço o outro papel, o que representa a duplicação do ganho, pois se soma ao já recebido dos meus pais o que colho no dia a dia com os filhos, minha alegria está na liberdade pessoal presente em cada um e no seu senso de justiça, confesso me seduz a ideia de que tem um pouco a ver com minha não interferência e o olhar deles por esta minha permanente busca, que mais eu poderia desejar do que ter filhos justos e livres.


     Só saiu este texto porque ontem equivocadamente confundi o domingo normal com o comercial Dia dos Pais, afinal de pai e de mãe o são todos os dias, acertei o dia, escrever sobre alegria não tem data.                

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