Saio de uma
margem do rio por sobre troncos levados pela correnteza, um a um vou montando o
roteiro das minhas escolhas, eles são disjuntos, eles fogem, eles aparecem e se
escondem, reaparecem, cada tronco navegante é uma opção de dar um passo à
frente, uma oportunidade de avançar para o outro lado, repentinamente um pé na
areia e me percebo por inteiro na outra beira, ao chegar um inventário rápido,
me pergunto o que tenho comigo, a resposta é nada absolutamente nada, chego com
tudo que tinha quando saí isto é coisa nenhuma.
De que
privilégios nos fala, é o ruído em forma de pergunta que zumbe em meus ouvidos,
minha resposta é imediata, falo da regalia da travessia, do direito de estar
aqui deste lado agora, de ter o entendimento da importância do desapego à
posse, do vazio de coisas repleto de momentos vividos, da alma leve de quem se
sente inteiro e em nada desfalcado de satisfação pessoal.
Se hoje os dois,
mãe e pai me faltam fisicamente, a presença de ambos em tudo que sou é
imanente, sou um traço real de uma carta por eles assinada, sou o texto escrito
resultado de suas vidas, não por me apontarem caminhos sim por aprender ao seu
lado observando-os experimentar a vida juntos, não por virtuose sim por humanidade,
não por perfeição sim por seus erros e vontade de acertar, não por me mimarem
sim por me amarem.
Se estiver imaginando
que minhas pegadas sobrepõem as deles, lamento
decepcioná-lo a maior riqueza que a mim deram foi aprender a nada aceitar como
pronto, acabado, conhecido e sim como pensamento a ser questionado, eles
conviveram com minha rebeldia contrapondo-a com carinho paciente, o que me
permitiu andar com minhas próprias pernas, sem muletas, sem perna de pau apenas
carne e osso sob a batuta do pensar.
No teatro da vida
agora com quatro filhos exerço o outro papel, o que representa a duplicação do
ganho, pois se soma ao já recebido dos meus pais o que colho no dia a dia com
os filhos, minha alegria está na liberdade pessoal presente em cada um e no seu
senso de justiça, confesso me seduz a ideia de que tem um pouco a ver com minha
não interferência e o olhar deles por esta minha permanente busca, que mais eu
poderia desejar do que ter filhos justos e livres.
Só saiu este
texto porque ontem equivocadamente confundi o domingo normal com o comercial Dia
dos Pais, afinal de pai e de mãe o são todos os dias, acertei o dia, escrever
sobre alegria não tem data.
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