terça-feira, 11 de agosto de 2015

Imagem Corta na Carne é Godard.

     Sol escaldante em pleno meio-dia de inverno gaúcho, quem diria hein, a caminho do cinema para ver “Adeus à Linguagem” obra de 2014 de Jean-Luc Godard, sendo seu primeiro filme longa metragem em 3D, o absurdo da temperatura já sinalizava o que me esperava. Como sempre, Godard é pensamento puro, é cinema cerebral e crítico.

     Sentado em plena plateia do espetáculo em grande expectativa comecei ganhando um bônus sentimental, sim nos anúncios de filmes a serem exibidos com as sínteses de sempre, um deles foi o pequeno príncipe em 3D, o que me transmutou imediatamente para minha adolescência, em uma pureza irrecuperável onde na peça teatral de mesmo nome, representei o próprio personagem, estas coisas nunca esquecemos: a nossa flor, o carneiro, a responsabilidade para com quem seduzimos.

     Por fim, estava frente a frente a essa obra do grande mestre agora já na casa dos oitenta e tantos anos, muito lúcido, cada vez mais investigativo, sempre questionador nos colocando não apenas dentro das melhores imagens tridimensionais, mas justapondo com imagens planas e sons que parecem em dimensões diferentes, ver uma vez realmente é insuficiente, seus pensamentos entre citações de Rilke, Monet, Flaubert vai nos atingindo através de imagens que vistas uma só vez aproveitá-las todas torna-se impossível.

     "A ideia é simples: uma mulher casada e um homem solteiro encontram-se. Amam-se, discutem, separam-se. Um cão erra entre a cidade e o campo. As estações passam. O homem e a mulher encontram-se outra vez. O cão entre eles. O outro é um. Um é o outro. São três...”.

     As palavras acima são a descrição simples de Jean-Luc Godard para "Adeus à Linguagem”, palavras muito mais poderosas que a sinopse do filme, essa completamente insuficiente não me parece ter a ver com o mesmo, talvez assim o seja porque só o nome Godard diz muito, me debrucei sobre algumas críticas e também me parece insuficientes, o que é perfeitamente explicável, um filme multifacetado como este pode gerar uma análise a cada um dos minutos de sua existência, logo temos que nos contentar em citar um ou outro detalhe.

     Eu particularmente tenho especial gosto pelas provocações propostas pelo diretor, que são inúmeras, o conceito da vitória do pensamento do derrotado na guerra, referência à vitória do fascismo hoje presente nas democracias totalitárias ganhadoras da guerra, onde seu maior propagador era o nazista e derrotado Hitler, a presença na natureza e no ambiente urbano do cão vivendo a mediação entre o conflito das pessoas carregadas de civilização e assim chamando a desconstrução, a questão da mulher incapaz de fazer o mal, que perturba e que mata e a igualdade reduzida ao espaço único das necessidades vitais.


     Talvez o que mais seduza seja a busca permanente de desconstrução no filme e o aproveitamento dos recursos de 3D nos colocando dentro de uma imagem que corta fundo na carne da gente iluminando o espírito, não temos apenas imagens, são também sons e pensamentos em 3D. Sim, merece ser visto muitas vezes mais.

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