Sol escaldante em pleno meio-dia de inverno
gaúcho, quem diria hein, a caminho do cinema para ver “Adeus à Linguagem” obra
de 2014 de Jean-Luc Godard, sendo seu primeiro filme longa metragem em 3D, o
absurdo da temperatura já sinalizava o que me esperava. Como sempre, Godard é
pensamento puro, é cinema cerebral e crítico.
Sentado em plena plateia
do espetáculo em grande expectativa comecei ganhando um bônus sentimental, sim nos
anúncios de filmes a serem exibidos com as sínteses de sempre, um deles foi o
pequeno príncipe em 3D, o que me transmutou imediatamente para minha adolescência,
em uma pureza irrecuperável onde na peça teatral de mesmo nome, representei o
próprio personagem, estas coisas nunca esquecemos: a nossa flor, o carneiro, a
responsabilidade para com quem seduzimos.
Por fim, estava
frente a frente a essa obra do grande mestre agora já na casa dos oitenta e
tantos anos, muito lúcido, cada vez mais investigativo, sempre questionador nos
colocando não apenas dentro das melhores imagens tridimensionais, mas
justapondo com imagens planas e sons que parecem em dimensões diferentes, ver
uma vez realmente é insuficiente, seus pensamentos entre citações de Rilke,
Monet, Flaubert vai nos atingindo através de imagens que vistas uma só vez
aproveitá-las todas torna-se impossível.
"A ideia é
simples: uma mulher casada e um homem solteiro encontram-se. Amam-se, discutem,
separam-se. Um cão erra entre a cidade e o campo. As estações passam. O homem e
a mulher encontram-se outra vez. O cão entre eles. O outro é um. Um é o outro.
São três...”.
As palavras acima
são a descrição simples de Jean-Luc Godard para "Adeus à Linguagem”, palavras
muito mais poderosas que a sinopse do filme, essa completamente insuficiente
não me parece ter a ver com o mesmo, talvez assim o seja porque só o nome
Godard diz muito, me debrucei sobre algumas críticas e também me parece insuficientes,
o que é perfeitamente explicável, um filme multifacetado como este pode gerar
uma análise a cada um dos minutos de sua existência, logo temos que nos
contentar em citar um ou outro detalhe.
Eu
particularmente tenho especial gosto pelas provocações propostas pelo diretor,
que são inúmeras, o conceito da vitória do pensamento do derrotado na guerra, referência
à vitória do fascismo hoje presente nas democracias totalitárias ganhadoras da
guerra, onde seu maior propagador era o nazista e derrotado Hitler, a presença
na natureza e no ambiente urbano do cão vivendo a mediação entre o conflito das
pessoas carregadas de civilização e assim chamando a desconstrução, a questão
da mulher incapaz de fazer o mal, que perturba e que mata e a igualdade
reduzida ao espaço único das necessidades vitais.
Talvez o que mais
seduza seja a busca permanente de desconstrução no filme e o aproveitamento dos
recursos de 3D nos colocando dentro de uma imagem que corta fundo na carne da
gente iluminando o espírito, não temos apenas imagens, são também sons e
pensamentos em 3D. Sim, merece ser visto muitas vezes
mais.
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