quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mas que Ela se Move se Move!

     Frente a frente com alta hierarquia da Inquisição, Galileu Galilei, com mais de setenta anos de idade, negando toda a sua teoria, o fazia em nome da fé, por imposição desta a terra não mais girava em torno do sol, como se não bastasse isso, obrigado, jurava que qualquer pessoa que acreditasse na teoria que ele propôs, sendo do seu conhecimento a denunciaria à Santa Inquisição. Essa cena é apresentada no documentário De L’Argentine (1986), do diretor do cinema novo alemão Werner Schroeter, imagem do terror, do poder, da força da tortura e da insensatez humana.

     Escolheu a Argentina, como poderia ter escolhido o Chile ou o Brasil na América Latina da época, talvez pelo retumbante clamor das mães da praça de maio com a força do seu slogan "tem que pagar", o terrorismo de estado apresentou-se nestes países com uma violência incomum, nem crianças, filhas de opositores, ficaram a salvo, o diretor alemão traz no filme uma denúncia qualificada, muito forte, expandida para outras situações totalitárias no mundo, mexe muito conosco, mesmo agora quase trinta anos após sua estreia, e fica a pergunta: Como podemos conviver com essas situações sem nos sentirmos extremamente diminuídos?

     Não se resumiu o documentário à questão da ditadura, o diretor chamou para o filme os temas da opressão sexual, dos continuados governos apoiadores da exploração do homem pelo homem, da eterna injustiça da pobreza, buscando trabalhar e ampliar o tema do abuso de poder, imagem da qual a Inquisição apresenta-se como modelo a ser seguido, assim o fazem os esquemas totalitários que deságuam sempre na tortura e na delação da qual a mesma foi pós-graduada.

     A afirmação de necessidade e urgência em buscar os culpados e julgá-los legalmente é um dos pontos altos da película, transparece na afirmação de que os vivos foram coniventes, incluídos neste rol a igreja, os políticos e a imprensa, no seu contraponto afirma a ideia de que quem denunciou morreu torturado, assassinado, o que nos provoca a refletir o como prepararmo-nos para eventos futuros de tamanha infelicidade tanto no sentido de previamente evitá-los como caso ocorra de enfrentá-los.


    Talvez o murmúrio final, que faz parte da lenda, e nos parece impraticável de ser dito por Galilei na época de caça as bruxas, "Mas que Ela se Move se Move!", aponte o caminho da resistência reforçando a posição estratégica de acreditar sempre e divulgar dentro do possível esta verdade entre seus pares de pensamento, não precisamos de mártires e sim de consciência coletiva.

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