Frente a frente com
alta hierarquia da Inquisição, Galileu Galilei, com mais de setenta anos de
idade, negando toda a sua teoria, o fazia em nome da fé, por imposição desta a
terra não mais girava em torno do sol, como se não bastasse isso, obrigado,
jurava que qualquer pessoa que acreditasse na teoria que ele propôs, sendo do
seu conhecimento a denunciaria à Santa Inquisição. Essa cena é apresentada no
documentário De L’Argentine (1986), do diretor do cinema novo alemão Werner
Schroeter, imagem do terror, do poder, da força da tortura e da insensatez
humana.
Escolheu a
Argentina, como poderia ter escolhido o Chile ou o Brasil na América Latina da
época, talvez pelo retumbante clamor das mães da praça de maio com a força do
seu slogan "tem que pagar", o terrorismo de estado apresentou-se
nestes países com uma violência incomum, nem crianças, filhas de opositores,
ficaram a salvo, o diretor alemão traz no filme uma denúncia qualificada, muito
forte, expandida para outras situações totalitárias no mundo, mexe muito
conosco, mesmo agora quase trinta anos após sua estreia, e fica a pergunta: Como
podemos conviver com essas situações sem nos sentirmos extremamente diminuídos?
Não se resumiu o
documentário à questão da ditadura, o diretor chamou para o filme os temas da
opressão sexual, dos continuados governos apoiadores da exploração do homem
pelo homem, da eterna injustiça da pobreza, buscando trabalhar e ampliar o tema
do abuso de poder, imagem da qual a Inquisição apresenta-se como modelo a ser seguido,
assim o fazem os esquemas totalitários que deságuam sempre na tortura e na
delação da qual a mesma foi pós-graduada.
A afirmação de
necessidade e urgência em buscar os culpados e julgá-los
legalmente é um dos pontos altos da película, transparece na afirmação de que
os vivos foram coniventes, incluídos neste rol a igreja, os políticos e a
imprensa, no seu contraponto afirma a ideia de que quem denunciou morreu
torturado, assassinado, o que nos provoca a refletir o como prepararmo-nos para
eventos futuros de tamanha infelicidade tanto no sentido de previamente
evitá-los como caso ocorra de enfrentá-los.
Talvez o murmúrio
final, que faz parte da lenda, e nos parece impraticável de ser dito por
Galilei na época de caça as bruxas, "Mas que Ela se Move se Move!",
aponte o caminho da resistência reforçando a posição estratégica de acreditar
sempre e divulgar dentro do possível esta verdade entre seus pares de
pensamento, não precisamos de mártires e sim de consciência coletiva.
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