Certo quase
amanheceu e entre um copo térmico de café e uma ou duas cigarrilhas me encontro
com alguém entrando no nosso prédio, com seu capacete de usar na moto ainda enfiado
na cabeça, cumprimentamos-nos, é o início de um dia para mim e o fim de uma
tarefa noturna para ele, observo que os extremos passam pelo mesmo ponto do
tempo, não recebo nem passo qualquer informação, fica tudo por conta da
imaginação de cada um de nós, lembro que já tinha passado o entregador do
jornal do dia e depositado o mesmo com suas velhas e repetidas notícias em
algumas caixas de correspondência do prédio, já tinha um segurança do shopping
vizinho feito sei lá que tarefa de controle no estacionamento em frente no
outro lado da rua, então estamos é hora de realmente acordar.
Coloco meus tênis
e saio para caminhar, sempre no mesmo horário, com mais ou menos ímpeto
dependendo do fim de dia anterior, começo um descortinar de encontros, gosto de
cumprimentar com ou sem expectativa de retorno, sei lá algo me diz que é
saudável manifestar de viva voz um desejo de um bom dia, alguma simples frase
de presença nas relações do dia das outras pessoas, sempre aparecem muitas
oportunidades para tal, ora outros caminhantes, também muitos corredores,
pessoas ocupadas em exercer o trabalho de proteger patrimônio, outras esperando
para começar um dia de trabalho, aproveito e curto esses espaços de
sociabilidade.
Não sei bem
porque, deve ser do meu temperamento, procuro encontrar uma pista, em verdade não
sei de que tipo, em cada um destes "cruzar de caminho", eu sou sim
observador e gosto de olhar, ver de corpo inteiro, penso inclusive que quase
sempre sou inoportuno, as pessoas não gostam de prover sua imagem para
terceiros, e assim manifestam todo um ritual de contato, algumas com seus
rostos alegres, outras com suas feições fechadas, têm sim certo distanciamento
e até expressões de nervosismo de inquietação, cada um desses movimentos eu tento
decifrar e encontrar qual alma esconde-se por trás destes atos.
Claro não vejo nada, imagino tudo, até
catalogo profissão pelo visual que se apresenta, se erro ou não nunca saberei,
pois ninguém me revelará claro o que fica comigo é o ser que criei, esse sim me
acompanha pelo tempo que eu o quiser, normalmente não ando com multidões me
contento com muitos pequenos espaços de tempo com diferentes criaturas, multidão
para mim é a quantidade de situações que envolvem ver pessoas em um simples
dia.
Sim isso do título
é Mutantes, "Olho e não vejo Nada", mas me lembrar da letra é
consequência pura da associação de recordações de um tempo mágico, o fato está na
sensação vivida quando sempre que me desloco por ambientes diversos enxergando
diferentes pessoas, com os meus filtros iguais para todos e tão particulares, esse
tipo de olhar não desserve a ninguém e gera uma vida infinita em mim, é um
mundo encantado de personagens imaginárias, com essas eu curto viver.
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