sexta-feira, 3 de abril de 2015

Olho e Não Vejo Nada

     Certo quase amanheceu e entre um copo térmico de café e uma ou duas cigarrilhas me encontro com alguém entrando no nosso prédio, com seu capacete de usar na moto ainda enfiado na cabeça, cumprimentamos-nos, é o início de um dia para mim e o fim de uma tarefa noturna para ele, observo que os extremos passam pelo mesmo ponto do tempo, não recebo nem passo qualquer informação, fica tudo por conta da imaginação de cada um de nós, lembro que já tinha passado o entregador do jornal do dia e depositado o mesmo com suas velhas e repetidas notícias em algumas caixas de correspondência do prédio, já tinha um segurança do shopping vizinho feito sei lá que tarefa de controle no estacionamento em frente no outro lado da rua, então estamos é hora de realmente acordar.

     Coloco meus tênis e saio para caminhar, sempre no mesmo horário, com mais ou menos ímpeto dependendo do fim de dia anterior, começo um descortinar de encontros, gosto de cumprimentar com ou sem expectativa de retorno, sei lá algo me diz que é saudável manifestar de viva voz um desejo de um bom dia, alguma simples frase de presença nas relações do dia das outras pessoas, sempre aparecem muitas oportunidades para tal, ora outros caminhantes, também muitos corredores, pessoas ocupadas em exercer o trabalho de proteger patrimônio, outras esperando para começar um dia de trabalho, aproveito e curto esses espaços de sociabilidade.

     Não sei bem porque, deve ser do meu temperamento, procuro encontrar uma pista, em verdade não sei de que tipo, em cada um destes "cruzar de caminho", eu sou sim observador e gosto de olhar, ver de corpo inteiro, penso inclusive que quase sempre sou inoportuno, as pessoas não gostam de prover sua imagem para terceiros, e assim manifestam todo um ritual de contato, algumas com seus rostos alegres, outras com suas feições fechadas, têm sim certo distanciamento e até expressões de nervosismo de inquietação, cada um desses movimentos eu tento decifrar e encontrar qual alma esconde-se por trás destes atos.

     Claro não vejo nada, imagino tudo, até catalogo profissão pelo visual que se apresenta, se erro ou não nunca saberei, pois ninguém me revelará claro o que fica comigo é o ser que criei, esse sim me acompanha pelo tempo que eu o quiser, normalmente não ando com multidões me contento com muitos pequenos espaços de tempo com diferentes criaturas, multidão para mim é a quantidade de situações que envolvem ver pessoas em um simples dia.    


     Sim isso do título é Mutantes, "Olho e não vejo Nada", mas me lembrar da letra é consequência pura da associação de recordações de um tempo mágico, o fato está na sensação vivida quando sempre que me desloco por ambientes diversos enxergando diferentes pessoas, com os meus filtros iguais para todos e tão particulares, esse tipo de olhar não desserve a ninguém e gera uma vida infinita em mim, é um mundo encantado de personagens imaginárias, com essas eu curto viver.

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