sexta-feira, 24 de abril de 2015

A Geração Pós Guerra

     Estava com minha filha saboreando um cachorro-quente acompanhado de uma cerveja quando ela começou a rir, sem conseguir parar principiou a me contar o que lhe tinha acontecido, observaram a ela que um amigo a tinha visto acompanhada de um beatnik o qual imaginava que era o pai dela, no caso eu, ela ria porque jovem como ela o é, via esse tipo de personagem como pré-histórico e acrescentava a isso a dificuldade de associar a imagem do mesmo com a que ela tem de mim, de fato estávamos juntos quando ele nos viu e certamente nas cercanias de uma sala de cinema que é um de nossos pontos de encontro.

     A geração que estava chegando à fase adulta nos anos 50 e 60 era uma geração inquieta, algo fácil de entender pelo ambiente pós-Segunda Guerra Mundial, entre as muitos correntes filosóficas anti-materialistas, alguns desses jovens pensadores estabeleceram uma ideário anti-conformista que teve como seu principal articulador Jean-Louis Lebris de Kerouac, mais conhecido como Jack Kerouac, cujo livro "On the Road" escrito em 1957 virou um Cult e até os dias de hoje tem seus apaixonados admiradores, foi ele quem introduziu a frase "Geração Beat" em 1948 para caracterizar um conjunto de jovens com uma espécie de espiritualidade do submundo Nova Iorque catalogando seus personagens como beatnik.

     Essas teorias estavam em voga por ocasião do meu nascimento, certamente sofri a influência desse e de outros movimentos da contracultura mundial, convivíamos com muitos movimentos de contestação à sociedade da época, na medida em que saí da infância para a juventude envolvi-me com eles, marcando posições, buscando experiências do tipo construir uma comunidade em um apartamento alugado com amigos e vivermos uma experiência espiritual cujo ápice seria viajar à Índia, que era por nós considerados a Meca da espiritualidade, assim como largar o emprego insatisfatório e não pensar duas vezes sair de mochila nas costas a viajar pelo país deixando para o retorno encontrar ocupação mais adequada,fazia parte do pacote também usar cabelos longos, trajes personalizados, leitura de muitos livros, e frequência grande a peças teatrais e filmes, participação na luta contra a ditadura e na contestação do status quo social.

     Em momento algum minha filha poderia identificar-me com o passado acima relatado, pois a imagem que ela partilhava no dia a dia, apesar de acompanhar debates meus com amigos, ver-me adotar sempre uma postura não consumista, um posicionamento de luta permanente contra as estruturas sociais injustas, era principalmente a do pai que partia em busca do pão diário para nossa mesa e do conforto para a família.


     Penso que o vazio existencial hoje presente na nossa sociedade por certo cumprirá mais um ciclo histórico, estamos à porta de um novo momento de inquietude, por motivos muito diferentes, porém baseados no mesmo sentimento, desencontro com o modelo de sociedade estabelecido, sinto a sensação generalizada de “falta de sentido”, na vida e nos processos participativos em escolas, em atividades profissionais, em movimentos políticos, o que nos deixa à beira de um novo tipo de mobilização social com características imprevisíveis.

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