sexta-feira, 6 de junho de 2014

A Arte Ria - Final

   Finalmente o vi levantar da cadeira, sair do camarim e dirigir-se para seu espaço de estudo e reflexão, talvez outra peça, talvez outra plateia, mas muito mais o momento é de buscar leitura, cinema, uma convivência discreta com alguns lugares calmos, bons para ler, tomar um chope, e eventualmente discutir a vida com alguém, esse é o caminho que ele me confidenciou que seguiria, já tinha tentado isso anos atrás, porém interrompido por um relacionamento maravilhoso, abriu mão desse momento como única escolha saudável.

     Nada como um tempo vivendo este purgatório, onde pode somar os acertos e os erros, e sentir o conforto que a princípio parecia mágoa, era apenas o impacto da mudança, que ele por tanto tempo evitou, e agora lhe parecia claramente um caminho que deveria a muito ter tomado, tinha obrigação de entender que a camisa de força na qual estava preso não tinha como justificar-se.

     Parece, pelo menos assim o vejo, mais maduro, infinitamente melhor preparado, pois as incontáveis quantidades de coisas boas que lhe aconteceram servem de aríete para este novo começo, sei também que em alguns momentos o vazio deve continuar a aparecer, assim como o ex-fumante que de tempos em tempos cada vez mais espaçados precisa lutar por um instante contra a vontade de fumar, também ele deverá lembrar-se que a perfeição é uma meta, como diz Gilberto Gil, porém nem todas nossas obras serão bem acabadas.

     Os Atores e as Plateias merecem continuadamente renovar-se buscando os espaços de luz própria que gere vida superando a mediocridade que é a tentativa constante de acomodação a qual são tentados os seres humanos.

     Minha interpretação do que vi é simples, lembra um pouco a questão dos três dias em que é destruído e reconstruído o templo conforme Jesus disse ser capaz, o Ator tinha a certeza de que só sua morte poderia trazer a ressurreição e isso ele obrigatoriamente, para corresponder a si mesmo, deveria fazê-lo muitas vezes e provavelmente ainda o fará, pois vida é a sequência de momentos vividos com intensidade independente do grau de medição que estabelecemos para nossas emoções, todas as melhores são as que podem ser vividas.          


     Artéria, sangue, corpo, tecidos nervosos, paixões, alma a arte da vida, a estória está contada, todo final é um novo início e então talvez possamos ouvir novas estórias...

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