Finalmente o vi
levantar da cadeira, sair do camarim e dirigir-se para seu espaço de estudo e
reflexão, talvez outra peça, talvez outra plateia, mas muito mais o momento é
de buscar leitura, cinema, uma convivência discreta com alguns lugares calmos,
bons para ler, tomar um chope, e eventualmente discutir a vida com alguém, esse
é o caminho que ele me confidenciou que seguiria, já tinha tentado isso anos
atrás, porém interrompido por um relacionamento maravilhoso, abriu mão desse momento
como única escolha saudável.
Nada como um
tempo vivendo este purgatório, onde pode somar os acertos e os erros, e sentir
o conforto que a princípio parecia mágoa, era apenas o impacto da mudança, que
ele por tanto tempo evitou, e agora lhe parecia claramente um caminho que
deveria a muito ter tomado, tinha obrigação de entender que a camisa de força na
qual estava preso não tinha como justificar-se.
Parece, pelo
menos assim o vejo, mais maduro, infinitamente melhor preparado, pois as incontáveis
quantidades de coisas boas que lhe aconteceram servem de aríete para este novo
começo, sei também que em alguns momentos o vazio deve continuar a aparecer,
assim como o ex-fumante que de tempos em tempos cada vez mais espaçados precisa
lutar por um instante contra a vontade de fumar, também ele deverá lembrar-se
que a perfeição é uma meta, como diz Gilberto Gil, porém nem todas nossas obras
serão bem acabadas.
Os Atores e as
Plateias merecem continuadamente renovar-se buscando os espaços de luz própria que
gere vida superando a mediocridade que é a tentativa constante de acomodação a
qual são tentados os seres humanos.
Minha interpretação do que vi é simples, lembra
um pouco a questão dos três dias em que é destruído e reconstruído o templo
conforme Jesus disse ser capaz, o Ator tinha a certeza de que só sua morte
poderia trazer a ressurreição e isso ele obrigatoriamente, para corresponder a
si mesmo, deveria fazê-lo muitas vezes e provavelmente ainda o fará, pois vida
é a sequência de momentos vividos com intensidade independente do grau de
medição que estabelecemos para nossas emoções, todas as melhores são as que
podem ser vividas.
Artéria,
sangue, corpo, tecidos nervosos, paixões, alma a arte da vida, a estória está
contada, todo final é um novo início e então talvez possamos ouvir novas
estórias...
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