terça-feira, 14 de abril de 2015

Processos Gestão Sim, Engessar Não!

     Afirma-se neste momento na comunidade, considerando clientes e profissionais, a necessidade de automação de processos, mais e mais encontramos empresas com solicitação de motor de workflow, o que traz recordações do meu início profissional, quando sonhávamos e tínhamos os modelos teóricos, mas não possuíamos tecnologia suficiente para construção de eficientes motores, tecnologia essa que hoje nos sobra.

     Alentador é o fato de que o mercado está buscando entender melhor como são feitas as tarefas no seu negócio, por quais atores, em que regras, trilhando o bom caminho para tal que é o mapeamento dos processos com objetivo de conhecê-los, medir sua maturidade, documentá-los de forma transparente e principalmente buscar seu redesenho alcançando melhorias que gerem valor.

     Temos já um bom time de especialistas trabalhando com gestão de processos no mercado, não que montar uma esteira de informação automatizando do início ao fim o processo seja a solução ideal em todos os casos e sim o simples fato de repensar o negócio é por si só salutar para as organizações e que seja esse o espírito continuadamente analisar e redesenhar, a famosa melhoria contínua.

     Certamente em muitos casos seria interessante a reengenharia, isto é, começar do zero, porém quase sempre essa se mostra impraticável, ou seja, passa obrigatoriamente pelo confronto com a realidade da empresa e do mercado no hoje, aposto que com uma eficiente gestão de processos implantada, podemos caso seja necessário atingi-la, pois o perfeito conhecimento do que fazemos é a base definitiva para garantirmos a migração para novos processos e quem sabe por que não até para a quebra de paradigmas.

     Uma boa modelagem de processo deveria passar pelas mesmas características do principal processo que conhecemos que é arte de viver do homo sapiens, que podemos afirmar é um sucesso por sua longevidade e por seus avanços tecnológicos, e aqui começa o bom desafio, como criar uma modelagem que atenda o principal que é a recriação permanente do processo usando as decisões tomadas a cada momento em sua própria execução, em outras palavras incorporar a inteligência do aprendizado.  


     No último domingo vi o excelente filme “O Gebo e a Sombra”, em pré-estreia na Cinemateca Capitólio do diretor “Manoel de Oliveira”, obra dos seus 105 anos, ele que viveu até os 107 anos, que nos mostra uma vida, a do Gebo, engessada o levando a lugar nenhum, engessar os processos teria a mesma consequência condenar a organização a um fim melancólico como foi o desse protagonista.     

sábado, 11 de abril de 2015

Objetos, Rotina, Inicia o Dia.

     Começa o dia com a chaleira chiando, motivo? O espetáculo inglório esquentar a água para o coador festejar o café que o bule recebe prazeroso esse último reclama de supetão o esvaziar-se do precioso líquido em benefício do copo térmico, que por sua vez vangloria-se de ser ele e tão somente ele a sair comigo até o pátio do condomínio onde consumo o seu conteúdo tendo como parceiro inseparável o fumar de uma cigarrilha e a organização mental necessária para decidir, para pensar.

     No quarto o chinelo batia pé furioso, nunca podia fazer um passeio mais longo, nunca estava liberado para sair do portão do condomínio, enquanto ele bem o sabia que o tênis por quem estava sendo trocado nesse momento, assim como ocorria todas as manhãs, dava quatro voltas no traçado quase plano do Iguatemi em minha companhia, tudo bem! Às vezes era na rota em aclives e declives do parque Germânia onde temos um ar mais puro o que apenas lhe provocava ampliar a inveja, quase sempre caminhando são escritas minhas postagens na memória para futura edição.

    Caso possuísse relógio, estaria quase na hora de bater o aviso de duas horas após o despertar, fim da caminhada novamente em casa e aquele alvoroço na cozinha, em frenesi trafegam os componentes do futuro desjejum entre o gelado refrigerador e o quente fogão, tomo meu suco enquanto movimenta-se a frigideira, o prato, o copo, os talheres cada qual querendo ser mais útil na preparação dos ovos mexidos com seus fiambres e múltiplos queijos, sendo poucos os objetos da cozinha reclamam todos do seu excessivo uso, tudo termina como descrevo nos próximos atos, primeiro sentado na cama a alimentar-me e segundo limpar os utensílios na pia eliminando todas as pistas do acontecido.

     Lacrimejam as toalhas cansadas de se molhar todas as manhãs, a pequena por meu tique maníaco de várias vezes lavar as mãos e a grande por causa do volume do corpo e comprimento do cabelo que hoje me caracterizam, seu alento é que estão mais molhadas somente as roupas de baixo, cueca e meias, que por hábito são lavadas durante o banho, sempre que posso o tomo frio com água na temperatura normal o que me deixa mais atento a mim  mesmo.    


     Ritual feito eu estou pronto por mais um dia a exercer a vocação de conviver com os outros, quanto mais simplifico minha vida, menos necessito e o pouco que tenho torna-se importante por sua repetida presença, me apego aos objetos por me serem úteis e só aos que o são, me apego aos movimentos por me serem saudáveis, me apego à oportunidade de pensar por mim mesmo por me libertar.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Múltiplos Caminhos um Processo

    O Projeto do ser humano adulto cresce no pensamento infantil à medida que esta criança vai avançando para a adolescência, em sua infância adivinha o futuro acalentando as situações futuras por vivenciar, isso ocorre em conformidade com o ambiente de convivência social que lhe é imposto e certamente influenciará em suas futuras escolhas.

     Igreja Católica, eu era um sacristão (ajudante de missa) desastrado quebrando Galheta, não lembro se a da água (o povo) ou a do vinho (a divindade), alimentando um sonho de criança em ser padre quando crescer.

     Teco-teco, o piloto e eu dentro do pequeno avião em voo vulgarmente chamado de parafuso, isto é girando de cabeça apontada para o chão, qual a ideia? Assustar-me, qual o resultado? Encantaram-me, então ser piloto era meu novo desejo de vida futura.      

     Televisão, uma antena no alto de um tronco de eucalipto e um aparelho em casa lá no interior do nosso Rio Grande do Sul era um dos primeiros da cidade, minha grande facilidade com a matemática, um mundo de construções, eletrônica com novos sinais aparecendo por todos os lados, indústria com suas máquinas sofisticadas só podiam despertar e fazer crescer a vontade de ser engenheiro.     

     Ser padre era a força da família católica presente que somada aos amigos de origem alemã, que se não eram católicos eram luteranos praticantes, isso com o passar do tempo determinou minha participação na pastoral de juventude, na luta contra a ditadura, no engajamento como ser político, em encontrar minhas verdades e minhas paixões por ler, escrever, teatro e cinema focando forte na filosofia, sociologia e psicologia.

     Ser piloto de avião manifestou-se na minha vocação de nômade, aparecia já na paixão pelos riscos desde a aventura de teco-teco, sempre gostei de estar com o pé na estrada, adolescente mochila nas costas, no tempo de executivo trabalho com viagens constantes e hoje decididamente um caminhante, como qualquer navegante nunca deixei de ter um porto seguro para mirar, para imaginar poder voltar, mesmo que pouco lá estivesse.

     Ser engenheiro, todos os caminhos apontaram para esse destino, não o engenheiro da mecânica, eletrônica ou civil, mas o engenheiro da lógica, dos processos, da tecnologia da informação, felizmente juntando o gostar e o como sobreviver, o que tira um pouco a carga do modelo consumista em que vivemos.

     Processo único com seus múltiplos caminhos paralelos concretiza no dia a dia pelo processo de decisão o assumir e transformar dos sonhos acalentados desde sempre, à medida que aumentava o conhecimento das coisas e das pessoas os vários “eu” modelavam o que hoje sou. 

sábado, 4 de abril de 2015

Ando Meio Desligado...

     Você vai dizer Mutantes de novo! Nada a ver e tudo ser, adolescente curtia essa sensação em paixões de minuto envolvendo todo meu ser, essa história de não sentir os pés no chão, de fato via-me de fora completamente envolvido dessa coisa tão nossa que é se entregar à vida em seu estado de pura emoção e olhava com os olhos da razão e achava bom.

     Embaixo da máscara de oxigênio, esse em seu volume máximo, o ritmo do corpo em busca da vida, por certo não havia decisão racional, por certo não havia espírito a comandar o corpo e sim uma vontade só física de absorver o ar no ritmo do desespero que exige vida, o compasso das necessidades do coração bombeiam a vida por todas as artérias em luta inglória, porém incessante contra a morte.

     Essa intensidade que podia tomar conta por inteiro da gente naqueles tempos, pouco se explicava também, lembro-me bem que agarrava qualquer momento de vida sem barreiras, sim freios não os havia, sempre a busca do tête-à-tête como que respondendo ao instinto de completar-se com o outro, claro andávamos aos bandos, porém sempre direcionados a encontrar mais e mais momentos de dois a dois realizarmos o objetivo da criação.

     Não me contive a apenas olhar o ritmo deste respirar, passei a tentar imitá-lo, aspirar e expirar o ar no mesmo intervalo de tempo, como que querendo sentir essa necessidade física de viver, deixar o meu corpo embalar-me no ritmo da vida que eu ali via, vendo e repetindo observava o rosto todo deformado dedicado por inteiro a ter todo o ar que necessitava e só pensava como é forte o instinto de sobreviver.

     Tomado pela alegria do encontro reproduzia todas as alterações que bem o conhecemos, face rubra, um quase tremer, respiração mais forte, um bater rápido do coração, sim o sabia são um monte de hormônios que tal qual rios abertos circulavam internamente no corpo, e um esforço enorme para dizer as palavras certas, como se alguma palavra pudesse ter qualquer força sobre o que era acima de tudo manifestação de dois corpos que se atraiam como se imãs fossem.

     Em frente à cama no hospital, estava claro que para ela, nada, nem ninguém interessava, tudo era concentrado no grande esforço de viver, se parasse de respirar todos os mecanismos iniciados dessa luta travada célula a célula contra múltiplas infecções não mais seriam alimentadas pelo sangue oxigenado e o calor interno do corpo desaparece pela imobilidade da circulação, só parar um minuto de respirar e tudo se acaba, fica um corpo rígido e gelado.   

     Compreendo bem, que o corpo e espírito são mecanismos do ser humano que trabalham no conceito horizontal, em cooperação, sem ordem de comando por parte de nenhum dos dois e quando funcionam bem juntos refletem o que costumeiramente definimos como estado de felicidade que tem como sinônimo mais forte o termo vida.             

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Olho e Não Vejo Nada

     Certo quase amanheceu e entre um copo térmico de café e uma ou duas cigarrilhas me encontro com alguém entrando no nosso prédio, com seu capacete de usar na moto ainda enfiado na cabeça, cumprimentamos-nos, é o início de um dia para mim e o fim de uma tarefa noturna para ele, observo que os extremos passam pelo mesmo ponto do tempo, não recebo nem passo qualquer informação, fica tudo por conta da imaginação de cada um de nós, lembro que já tinha passado o entregador do jornal do dia e depositado o mesmo com suas velhas e repetidas notícias em algumas caixas de correspondência do prédio, já tinha um segurança do shopping vizinho feito sei lá que tarefa de controle no estacionamento em frente no outro lado da rua, então estamos é hora de realmente acordar.

     Coloco meus tênis e saio para caminhar, sempre no mesmo horário, com mais ou menos ímpeto dependendo do fim de dia anterior, começo um descortinar de encontros, gosto de cumprimentar com ou sem expectativa de retorno, sei lá algo me diz que é saudável manifestar de viva voz um desejo de um bom dia, alguma simples frase de presença nas relações do dia das outras pessoas, sempre aparecem muitas oportunidades para tal, ora outros caminhantes, também muitos corredores, pessoas ocupadas em exercer o trabalho de proteger patrimônio, outras esperando para começar um dia de trabalho, aproveito e curto esses espaços de sociabilidade.

     Não sei bem porque, deve ser do meu temperamento, procuro encontrar uma pista, em verdade não sei de que tipo, em cada um destes "cruzar de caminho", eu sou sim observador e gosto de olhar, ver de corpo inteiro, penso inclusive que quase sempre sou inoportuno, as pessoas não gostam de prover sua imagem para terceiros, e assim manifestam todo um ritual de contato, algumas com seus rostos alegres, outras com suas feições fechadas, têm sim certo distanciamento e até expressões de nervosismo de inquietação, cada um desses movimentos eu tento decifrar e encontrar qual alma esconde-se por trás destes atos.

     Claro não vejo nada, imagino tudo, até catalogo profissão pelo visual que se apresenta, se erro ou não nunca saberei, pois ninguém me revelará claro o que fica comigo é o ser que criei, esse sim me acompanha pelo tempo que eu o quiser, normalmente não ando com multidões me contento com muitos pequenos espaços de tempo com diferentes criaturas, multidão para mim é a quantidade de situações que envolvem ver pessoas em um simples dia.    


     Sim isso do título é Mutantes, "Olho e não vejo Nada", mas me lembrar da letra é consequência pura da associação de recordações de um tempo mágico, o fato está na sensação vivida quando sempre que me desloco por ambientes diversos enxergando diferentes pessoas, com os meus filtros iguais para todos e tão particulares, esse tipo de olhar não desserve a ninguém e gera uma vida infinita em mim, é um mundo encantado de personagens imaginárias, com essas eu curto viver.

terça-feira, 31 de março de 2015

Era Ele Sim!

     Você me pede testemunha, não lhe posso dar sou eu a minha única testemunha, de qualquer maneira não lhe serviria isso te afirmo em definitivo, testemunha mesmo que seja eu próprio, é uma impossibilidade absoluta, não tem como existir a não ser como a falsificação da verdade traindo completamente o sentido que normalmente assinalamos de comprová-la, não se pode com certeza afirmar uma verdade, pois a veracidade é invisível aos nossos olhos, sempre a descrevemos de maneiras diferentes utilizando nossos pessoalíssimos filtros, se faço um paralelo do conceito com o mesmo livro lido cinco vezes que são na verdade cinco livros, o mesmo só existe no momento específico de sua degustação pelo espírito do leitor.

     Mas minha certeza é completa era ele sim, mesmo transmutado em corpos diferentes, deparo-me com ele em diferentes situações e mascaradas, porém, apesar dos disfarces o sei, percebo a indiferença que ele assume em meu espírito, fato é o vazio de valor que sua presença me adiciona, talvez estejas certo ao me dizer que ele inexiste e seja apenas fruto da minha imaginação, estais certo sim se penso que como corpo ele é uma alma inexistente.

     Posso sim identificá-lo em uma reunião social, ou em um compromisso de trabalho, pode ser em uma solenidade religiosa, tão somente o identifico pelo vazio que se mostra a mim, vejo-o sempre com seus ardis mesquinhos, muito fáceis de decifrar, são armados pela falta de identidade como gente, por uma busca egoísta de ilusórios ganhos frente a outrem, vantagens essas que tanto eu como ele sabemos que se define por sua inverdade.

     Por que ele existe? Por que muda tanto de humor? Por que tem aparências tão diversas? Questionando-me tentas encontrar um ponto falho no meu raciocínio, buscando ficas com insistência por respostas que não o podem identificar, também me desentendo quanto ao porquê de me dedicar a lhe mostrar sua existência, se não consigo ver em nenhum momento sua vontade de conhecer, não serão argumentos e relatos meus que o farão vê-lo.


     Talvez seja melhor assim mesmo, possivelmente nada irás ganhar ao conhecer o anti-homem que se me apresenta por trás de todos esses disfarces, sei que não posso deixar de identificá-lo, apesar de me ser indiferente sua existência é precisamente por essa indiferença que o identifico e sinto que é muito difícil viver em contato com pessoas indiferentes, sim ele é fruto da submissão e inexiste por ser marionete na mão do poder coletivo.  

sexta-feira, 27 de março de 2015

A Morte como realização da Vida

     Nosso escritor e poeta nascido em Praga no Império Austro-Húngaro, hoje República Tcheca, Rainer Maria Rilke, em um de seus livros foi quem melhor me descreveu sua excelência a morte ao defini-la como pessoal e intransferível, em outras palavras dizendo que cada um tem a morte correspondente a sua pessoa, exemplificava via a morte de um tio poderoso que envolveu por vários dias toda a comunidade que dependia dele através de manifestações e ruídos gigantescos que deixavam toda a vila insone.

     Quando moleque por sorte mais desencontros com a mesma, movia-me em direção a sua companhia com frequência, mas o máximo que conseguia e por diversas vezes foi um conjunto de ossos quebrados, coisas da idade que se manifesta pela irreflexão e traquinagem e por sorte minha foi marcado por desencontros, depois amadurecido sempre que se possa admitir que um homem do sexo masculino possa amadurecer, fui me encontrando com essa figura tétrica quando manifestava sua presença indesejada junto a pessoas de quem gostava.

     Certo, me rendo sou obrigado a admitir, sempre passou por mim rápida quase não percebida por certo por vontade minha e não dela afetavam-me as causas e o buraco branco da ausência das pessoas queridas muito mais do que o próprio ato de morrer, porém nos últimos tempos a partir do final do ano passado começou a andar de braços dados no dia a dia comigo, na miscigenação de sua imagem com a da minha mãe a ponto de confundirem-se com uma só pessoa, ora via minha mãe ora via a morte.

     Sou de não olhar para trás, nunca dei muita bola para o após, não sou frequentador de velórios, enterros e cemitérios, são eventos que não me dizem praticamente nada, mas sim frequento a vida e suas explicações, e foi assim que vivi o perder minha filha, sim a perdi recém-nascida por dificuldades respiratórias, nunca pude aceitar, não a morte e sim a negligência a falta de aparelhagem que a pudesse salvar, e a enterrei e página virada, o que vale é quem ficou.


     Claro já perdi amigos, claro já perdi parentes e em quase todos os casos convicto fiquei de que era o momento em que o desejavam, também quero morrer quando o desejar, sem barganhar migalhas de vida de má qualidade, apenas viver com forças próprias minhas, desejo eu próprio embalar-me ou então ser jogado inerte no colo da morte é o que realmente vai realizar-me, e a quero do meu tamanho, com alegria retornar ao pó do qual um dia nasci e tendo a minha morte como celebração da vida.