quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Anjos & Demônios

     Partindo do pressuposto por um lado da unicidade do indivíduo e por outro da formação das maiorias de pensamento, tão comuns em nossa sociedade hoje, surpreende-me a escala diferenciada de reações apresentadas ante nosso comportamento habitual, quando entabulamos contatos individuais, de fato só verificamos comportamento hegemônico quando nos confrontamos com grupos, isto é no atacado, onde as vontades do ser humano submetem-se em benefício da manifestação do todo.

     Não estou analisando movimentos sofisticados e/ou complexos comportamentos, estou falando de um simples bom dia, e situando-o em um mesmo ambiente público onde pessoas dedicam-se a caminhar ou correr, as reações são as mais diversificadas, curtimos como retorno a esse singelo cumprimento desde uma reação agressiva, ofendida, de irritação, passando por um simples ignorar até um alegre sorriso, comportamentos tão díspares refletindo o fato de que o que somos em nada interessa, tão somente sofremos o que aos outros são, seus medos, suas fantasias e o seu mundo particular.

     O real só pode existir em um determinado momento e em nós mesmos, o que dispensa maiores explicações, ao nos contrapormos com o outro o enxergamos pelo somatório de nossas experiências anteriores, ou seja, nós o criamos à nossa maneira e semelhança, e o que mais me encanta nessa situação de criatura é que o nosso lado camaleão realmente pode corresponder a essa criação, pois desde sempre o demônio nada mais é do que uma das muitas caras do anjo.

     Se buscarmos enquadrar nossas vivências na régua definida em um extremo o maior índice de bondade e noutro o maior índice de maldade nenhum de nossos atos encontrará seu espaço em qualquer ponto dessa régua, essa escala de qualificação não se sustenta, apenas vivemos como conseguimos, quaisquer atitudes tomadas são apenas esta manifestação da vida e como tal válida no nível de ser humano individual, sempre que este se respeite.


     Estas linhas são apenas a manifestação de uma curiosidade e o desejo de alinhamento com quem as lê, não creio na dualidade entre o bem e o mal e sim em atitudes baseadas na honestidade consigo mesmo, eu creio na impossibilidade de em algum instante de qualquer relacionamento indiferente da intensidade coincidir a foto que autogero com a imagem que o outro projeta em si de mim. 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A Saudável e Antiga Temperança Grega

     Gosto muito desta ideia, quando tiramos do foco a existência do poder como uma força central e o distribuímos no agrupamento social, como reação temos a consequente dispersão da resistência no mesmo fórum, que se reflete no dilema de sermos nós indivíduos resistência ou poder seguindo os ritos respectivamente do conservadorismo ou da mudança.

     Temos aí um jogo de caráter permanente e conflituoso por si só, cuja arena é o dia a dia, onde existe necessidade de vigilância, principalmente da resistência, pois enquanto o poder exerce-se com a naturalidade da má formação pessoal, a resistência em contrapartida exige o trabalho continuado de identificar o abuso possível, em quaisquer atos por mais transvestidos de insignificância estejam, pois o seu somatório no contexto global torna-se opressão como um todo.

     Encontramos a importância que a Grécia antiga colocava para a temperança, nada mais nada menos do que a luta constante de dominar-se a si mesmo, exercer o controle sobre seus prazeres, não coibi-los nem classificá-los, apenas colocá-los no contexto de uma relação honesta consigo próprio, os grandes pensadores dessa época a reforçavam como qualidade que por si só serve de guia para a grandeza da cidade, a força da comunidade livre.

     É um tema que pondero como atualíssimo, pois se joga pesado em marketing buscando a submissão das pessoas ao consumo de políticas, ideias e coisas, em síntese exercer poder sobre o pensamento individual através de mantras muito bem urdidos gerando movimentos e atitudes sem a devida independência pessoal, isto é, submissos.

    Urge apoiarmos e incentivarmos esta temperança pessoal, pois o autodomínio, a busca do prazer real, só pode ser obtido sob o firme alicerce da criteriosa avaliação particular em cada decisão, contrapondo ao prazer ilusório filho de oportunidades geradas artificialmente por estes pensamentos terceirizados, é a própria resistência o ato de pensar, cuja visibilidade sempre resulta em exemplo, respeito sendo por si nascedouro de novos seres resistentes.


     A mudança depende desta manifestação continuada de resistência e seu fator multiplicador que só a vivência hoje, agora, dessa saudável e antiga herança dos grandes pensadores gregos, a temperança, pode nos ajudar a conseguir.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Normal Love, cinema experimental uma impressão pessoal.

     Ontem na sala PF Gastal (Gasômetro) foi-me oportunizado ver o filme Normal Love de Jack Smith, abertura do Cine Esquema Novo 2014, confesso cheguei à sala de cinema completamente desinformado, a única pista era tratar-se de cinema experimental, e que equivocadamente imaginava serem experimentos dos dias de hoje.

     Confesso, o filme cumpriu seu papel a ponto de na caminhada de hoje de manhã que é o momento em que escrevo mentalmente minhas futuras postagens consegui perder-me no número de voltas feitas em torno Iguatemi, tão envolvido estava na análise do mesmo, de cara posso afirmar, ele cumpriu seu objetivo, pelo menos quanto a mim, que é fazer-me pensar.

     Claro além do próprio filme, havia algumas provocações adicionais:

- Primeiro minha completa ignorância do tema, pois sou desde sempre apenas um grande frequentador de salas de cinema, hábito este adquirido já quando criança nos dias de calor com as portas abertas do cinema, sem ar condicionado, poder sentar no muro de dois metros da minha casa no interior do RS e ver todos os filmes, todas as noites, e como adolescente, já em POA, viver a época de ouro do cinema autoral com Glauber aqui, Fellini na Itália e tantos outros contemporâneos pelo mundo todo.
- Depois a própria etiqueta experimental que, como o termo bem o diz, sempre representa um desafio para quem faz e para quem vê.
 - Finalmente o interesse de um pesquisador e especialista de cinema em saber minha opinião sobre o mesmo, possivelmente para ter o contraponto com os pensamentos da comunidade do cinema.

     De início a surpresa foi o diálogo formado só por imagens e sons, o que sempre torna tudo mais difícil para quem filma e para quem vê, porém, muito mais rico abre todo campo para a imaginação e te permite passar teu próprio filme.

     Gostei muito da fotografia, as transformações interagindo com a natureza e os seres humanos, se viam duas palmeiras à medida que a câmera se movimentava já era uma pessoa, e no passo seguinte um novo ser se revela, as pessoas e a vegetação se misturavam e se confundiam em diferentes figuras.

     Quanto ao som não pude casá-lo com a imagem, me agradou como som, apesar de um pouco alto demais, porém não vi completude em relação às imagens, certamente por incompetência minha sou da geração de melodias simples com letras fortes, não tenho cultura musical apesar de concordar com o pessoal do século XIX que colocava a música como arte primeira e mais pura e gostaria de escutar suas frases como os personagens de Proust.
     
     A mensagem recebida, uma grande viagem (com ou sem aditivos químicos), comum à época, pela integração do homem com a natureza, nossa relação intimista com ela, uma espécie de jardim do Éden atualizado, sem esquecer a relação entre a serpente e a mulher chavão que hoje definitivamente está no politicamente incorreto e a referência sempre atual aos sacrifícios humanos exigidos pela barbárie da guerra, aí sim cada vez mais tema politicamente correto.     


     Não há uma linha direta entre o pensamento do cineasta e do assistente, isso é sabido, certamente vi um filme muito diferente do que ele filmou ou quem sabe o mesmo, pois como vim a descobrir agora este filme é de 63, isto é da minha geração, o que pode aproximar-me dos sentimentos que o mesmo quis expor.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Faça-se a Luz!

     Estamos alguns anos após 2000 e na mesa do bar o tema "Idade Média" corria solto, a víamos com a primeira fase sem luz depois do gênesis "Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia", o que nos interessava era o porquê e o como chegamos a um momento de obscuridade tão grande, principalmente em sequência a civilizações do porte das egípcias, gregas e romanas, entre uma e outra jogada, a bola da vez era a igreja, não por ser a igreja, mas sim por ser o único poder estabelecido e baseado numa impossibilidade que é a Fé.

     Recordando "No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: Faça-se a luz!”. E a luz foi feita, sim, disse presente o renascimento com pensadores como Descartes, Michelangelo iniciando uma bela resposta para as trevas.
                                                                                                                                                         
     Graças ao pessoal da sala PF Gastal pude ver nesta semana documentários sobre Poe, Vitor Hugo e Sartre com seu "Castor" (a brilhante feminista Simone de Beauvoir) e as minhas releituras do mês compostas por obras de Poe, Bukowski, Proust e Henry Miller, que esplendor o mundo até 1970 onde as luzes iniciadas pelo renascimento e principalmente a partir de Dostoievski brilharam ao máximo.

     Agora um pouco adiante do ano 2200, um mundo de encontros não mais em mesas e sim em temas que espalhados pelo espaço compartilham pensantes, nos encontramos no ponto "idade das trevas" e estamos partilhando o sentimento de um conjunto de anos, 1970 a 2014, tentando compreender como foi possível uma segunda idade média e entre as muitas explicações a que unia mais pensamentos é a de ser uma consequência óbvia de um imperialismo (a igreja da época) com sua democracia (a fé da época).     


     Deus onde estais? Precisamos um novo “Faça-se a luz!”, com ou sem você necessitamos semear pensadores e derrubar a sofisticada máquina imperialista, diferenciadora de homens, estabelecida como verdade hegemônica sobre a humanidade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Quando Vamos Derrubar os Muros!

     Fronteiras entre nações, como explicá-las, ainda temos espaço no mundo globalizado para o conceito de nação? Por que não uma governança global estabelecida sobre trocas mediadas de serviços, bens, alimentos e arte, pois encontramos hoje nas nações apenas minorias oprimindo no âmbito interno e externo as mesmas e seu conteúdo principal os humanos.

     Uma governança global por certo começaria muito bem eliminando os grandes desperdícios gerados pelos gastos militares, pois esses se estabelecem na fictícia proteção contra imaginárias nações inimigas, e ainda lucraríamos com o fim dos dispendiosos mecanismos de gestão governamental que se reproduzem na direta relação com a quantidade de países.

     No mundo onde a arte, o trabalho e a informação são sempre e cada vez mais universais a migração é uma realidade e só não acontece em maior número pelo continuado construir de barreiras protecionistas que separam os diversos povos, buscando filtrar a convivência através de interesses normalmente não bem explicados.   

     Poderíamos trabalhar com a identidade de um grupo de pessoas para justificar a manutenção dessas estruturas arcaicas, porém isso já perdeu desde muito tempo o sentido, e só se mantêm através de constante e violento esforço de propaganda, estamos sempre inventando inimigos para unir seres humanos artificialmente ligados entre si dentro de muros, e a construção destes sempre foram a partir de conquistas feitas pela violência da guerra.

     Para exemplificar, quem torce por uma seleção nacional? Na verdade as pessoas torcem pelo seu time e pode-se ver claramente que se envolvem mais com os eventos entre nações pessoas que no dia a dia não curtem o esporte em questão e ainda assim por forte pressão midiática e se você gosta de corrida de automóvel você torce por um determinado piloto? Por um time de construtores? Sim e nunca por um estado constituído.


     Poderíamos encontrar um conceito de governança global, que substituindo o sistema representativo estabelecido na maioria dos países, estivesse baseado em mediação voluntária nas relações de trocas entre as pessoas, muitas já realizam trocas de maneira independente do lugar e só não o fazem com maior intensidade pela permanente repressão dos governos a esse tipo de iniciativa, temos que estimular o aprendizado da vida em rede e seus mecanismos de relacionamentos, quem sabe não é esse o caminho da liberdade que o homem sempre almejou.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Abaixo todos os Juízos de Valor

     Droga, sim que queimem no inferno todos os juízes de valor, é uma batalha inglória tentar livrar-me deles, uma luta permanente enquanto circulo pela nossa cidade, Porto Alegre, cruzando caminhos com muitas pessoas e colocando uma etiqueta aqui, rotulando outro ali, tenho que estar me policiando constantemente, sabendo que não são meus esses malditos níveis de qualificação para mais ou para menos, mas como estão arraigados, como aparecem de supetão, como emergem a cada olhar.

     Gostamos de nos enganar imaginando que o que brota instantaneamente dentro de nós corresponde ao de mais nosso possível, algo tipo um instinto, uma verdade interna, quando de fato bem o sabemos é a continuada influência da civilização grudada na gente, em outras palavras não tem nada de nosso, tudo vem de outros.

     Sinto-me obrigado a contrapor violentamente esta maldita primeira impressão, despir-me dessa carga pesada para poder simplesmente olhar e curtir, sem passar por intermináveis escalas de valor, quando falamos de coisas ainda vá lá pode ser aceitável esse procedimento, mas para com as pessoas isso é inadmissível, porque tem que ser alta, baixa, magra, gorda, linda, feia quando são apenas e principalmente pessoas.

     A única certeza que tenho é a completa inadequação da comparação, pois é certo que determinar valor é comparar, mas comparar com quem? Com o que? De onde tiro os parâmetros se me conheço tão pouco, que nem comigo mesmo posso contrapor a presença do outro, nossos sentidos costumam nos trair constantemente e o bonito se torna feio sem que nada possamos fazer, pois o julgamento depende da quantidade de veneno presente em nosso fígado, em nosso espírito, na nossa alma.


     Quanto mais casca tiro, mais sujeira incrustada encontro e como é difícil limpar-se dessa achando a pureza do núcleo, descobrindo o que realmente somos, agregue a isso o fato de considerar que a tal da civilização, que é impossível evitar frequentar, tem como principal meta nos impingir receitinhas prontas de como não viver, mais aumenta minha determinação para me lapidar e assim abrir mão dessa nefasta herança.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

No fundo do poço

     Poço, sim rumo ao fundo deste encontraremos as pistas que nos definem e que caracterizam o ser humano que somos fundo do poço é força de expressão, a busca do indivíduo por sua alma é além de difícil completamente imprevisível quanto ao seu conteúdo, assim vejo a vida e se considero que estamos todos em distâncias diferentes deste alvo que é ter clareza do que somos, devo compreender o fato de resultarem imagens diversas com respeito às pessoas e às coisas, não é justo exigir de quem está visualizando a grandiosidade do universo que tenha as mesmas respostas de quem olha as modestas riquezas de sua alma.

     Amigos de grande afinidade de pensamento, por vezes se desencontram no discurso, por quê? Pela natureza desigual do momento vivido, o mesmo fato responde por interpretações aparentemente divergentes e que o futuro talvez demonstre ter o mesmo ideário em sua origem, apresentam-se de maneira diferente conforme o respectivo marco do tempo, se considerarmos que não se pode antecipar o tempo é obrigação de quem pode olhar-se no passado achar o elo que liga os mesmos.

     Existe em nós o tempo da construção onde levantamos tijolos construindo sonhos, realizando projetos, agregamos informação e conceitos, em continuação nos deparamos com o momento da desconstrução onde buscamos eliminar tudo o que trouxemos de desnecessário buscando o mínimo do mundo para acharmos o máximo de nós, não diria que estamos na hora do tudo feito e sim no momento do fazermos em nós.

     Descobrir em nossos gestos, em cada pensamento, na manifestação das vontades, atitude por atitude quem nos influência e por que, substituindo a repetição impensada de filosofia de outrem por respostas conscientes nascidas de reflexão nossa, pessoal, frente a cada fato que a vida nos proporciona.


     Neste processo de decodificação, transparência me parece importante, porém cercada de cuidados para não magoarmos quem nos estima, pois não somos beleza pura, não somos nem maior, nem menor que ninguém, apenas um ser individual único que em momento algum pode corresponder à completa expectativa de alguém.