Droga, sim que queimem
no inferno todos os juízes de valor, é uma batalha inglória tentar livrar-me
deles, uma luta permanente enquanto circulo pela nossa cidade, Porto Alegre, cruzando
caminhos com muitas pessoas e colocando uma etiqueta aqui, rotulando outro ali,
tenho que estar me policiando constantemente, sabendo que não são meus esses
malditos níveis de qualificação para mais ou para menos, mas como estão
arraigados, como aparecem de supetão, como emergem a cada olhar.
Gostamos de nos
enganar imaginando que o que brota instantaneamente dentro de nós corresponde
ao de mais nosso possível, algo tipo um instinto, uma verdade interna, quando de
fato bem o sabemos é a continuada influência da civilização grudada na gente, em
outras palavras não tem nada de nosso, tudo vem de outros.
Sinto-me obrigado
a contrapor violentamente esta maldita primeira impressão, despir-me dessa carga
pesada para poder simplesmente olhar e curtir, sem passar por intermináveis escalas
de valor, quando falamos de coisas ainda vá lá pode ser aceitável esse procedimento,
mas para com as pessoas isso é inadmissível, porque tem que ser alta, baixa,
magra, gorda, linda, feia quando são apenas e principalmente pessoas.
A única certeza
que tenho é a completa inadequação da comparação, pois é certo que determinar
valor é comparar, mas comparar com quem? Com o que? De onde tiro os parâmetros se
me conheço tão pouco, que nem comigo mesmo posso contrapor a presença do outro,
nossos sentidos costumam nos trair constantemente e o bonito se torna feio sem
que nada possamos fazer, pois o julgamento depende da quantidade de veneno
presente em nosso fígado, em nosso espírito, na nossa alma.
Quanto mais casca tiro, mais sujeira
incrustada encontro e como é difícil limpar-se dessa achando a pureza do
núcleo, descobrindo o que realmente somos, agregue a isso o fato de considerar
que a tal da civilização, que é impossível evitar frequentar, tem como
principal meta nos impingir receitinhas prontas de como não viver, mais aumenta
minha determinação para me lapidar e assim abrir mão dessa nefasta
herança.
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