sábado, 16 de maio de 2015

Trilha do Poder - Efeito Exponencial

     Se não separo um tempo para refletir sobre o que me acontece a cada momento, passam imunes por mim pequenas atitudes de manifestação de poder por parte de terceiros, logo perco a oportunidade de conhecê-lo em sua práxis, interpretá-lo em seus movimentos e exercitar a minha resistência, não devo iludir-me com a ideia de um centro de poder que erradicado nos traria a sonhada liberdade, pois o mesmo é disperso na sociedade como um todo, portanto deve ser combatido nas suas menores manifestações, quanto mais recusar submeter-me mais crescerá a comunidade dos resistentes a enfrentar esta verdadeira pirâmide de esmagar o outro que criamos.

     Conto duas pequenas histórias vividas nesta semana em relação as quais dediquei um tempo para visualizar com consciência o jogo de poder, nas quais o fato de dedicar-me a pensá-las me parece por si só um primeiro ato de resistência, sendo o segundo o dedicar-me a lhes contar.  

     Já faz mais de um mês, encontrava-me a fazer o que repito cinco a seis vezes ao dia em frente ao prédio onde trabalho, fumar minha cigarrilha, observar as pessoas e divagar sobre a vida quando repentinamente fui interrompido por uma senhora que me observou: “As plantas não fumam, poderias evitar colocar o resto de sua cigarrilha em um lugar que não fosse o canteiro em volta desta árvore na calçada”.

     Pacientemente expliquei-lhe, que o que estava fumando era fumo de charuto enrolado em folhas de tabaco, ou seja, complemente natural e por isso ou os colocava em uma lixeira orgânica, ou em um lugar onde houvesse terra com plantas para funcionar como adubo.

     Era a proprietária do prédio onde trabalho, e para minha surpresa, nesta semana foi conversar com a pessoa a quem aluga a sala com intuito de impor sua vontade, observem que é um passeio público lugar para o qual não tinha nenhuma delegação de comando, aparentemente não lhe era agradável ver os restos de tabaco em torno da árvore ou simplesmente não lhe agradava ver-me a fumar neste local, sendo meus argumentos razoáveis, preferiu exercer o poder de coação.

     O curioso é a coincidência, neste mesmo dia, percebi que a construtora de um grande prédio de apartamentos vizinho a este, aproveitando algum artifício legal qualquer, simplesmente avançou algo tipo meio metro sobre a calçada, construindo um novo muro para privatizar um local que era de circulação pública, agredindo toda a cidadania com a diminuição do tamanho da área de circulação o que já era por nós um direito adquirido, outro exercício de poder contra todos em favor de alguns.   


     Esse perverso efeito exponencial da necessidade do poder resulta em uma cadeia de seres humanos cumprindo simultaneamente dois papéis, o de submissão em relação a quem internamente classifica de mais forte e o de dominação sobre quem pré-julga como mais fraco, pois já internalizada no homem pela coerção social a desigualdade converge na construção da sociedade injusta que permite a exploração de um ser humano por outro.

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