Se não separo um
tempo para refletir sobre o que me acontece a cada momento, passam imunes por mim
pequenas atitudes de manifestação de poder por parte de terceiros, logo perco a
oportunidade de conhecê-lo em sua práxis, interpretá-lo em seus movimentos e
exercitar a minha resistência, não devo iludir-me com a ideia de um centro de
poder que erradicado nos traria a sonhada liberdade, pois o mesmo é disperso na
sociedade como um todo, portanto deve ser combatido nas suas menores
manifestações, quanto mais recusar submeter-me mais crescerá a comunidade dos
resistentes a enfrentar esta verdadeira pirâmide de esmagar o outro que criamos.
Conto
duas pequenas histórias vividas nesta semana em relação as quais dediquei um
tempo para visualizar com consciência o jogo de poder, nas quais o fato de
dedicar-me a pensá-las me parece por si só um primeiro ato de resistência,
sendo o segundo o dedicar-me a lhes contar.
Já faz mais de um
mês, encontrava-me a fazer o que repito cinco a seis vezes ao dia em frente ao
prédio onde trabalho, fumar minha cigarrilha, observar as pessoas e divagar
sobre a vida quando repentinamente fui interrompido por uma senhora que me
observou: “As plantas não fumam, poderias evitar colocar o resto de sua
cigarrilha em um lugar que não fosse o canteiro em volta desta árvore na
calçada”.
Pacientemente
expliquei-lhe, que o que estava fumando era fumo de charuto enrolado em folhas
de tabaco, ou seja, complemente natural e por isso ou os colocava em uma
lixeira orgânica, ou em um lugar onde houvesse terra com plantas para funcionar
como adubo.
Era a
proprietária do prédio onde trabalho, e para minha surpresa, nesta semana foi conversar
com a pessoa a quem aluga a sala com intuito de impor sua vontade, observem que
é um passeio público lugar para o qual não tinha nenhuma delegação de comando, aparentemente
não lhe era agradável ver os restos de tabaco em torno da árvore ou simplesmente
não lhe agradava ver-me a fumar neste local, sendo meus argumentos razoáveis, preferiu
exercer o poder de coação.
O curioso é a
coincidência, neste mesmo dia, percebi que a construtora de um grande prédio de
apartamentos vizinho a este, aproveitando algum artifício legal qualquer,
simplesmente avançou algo tipo meio metro sobre a calçada, construindo um novo
muro para privatizar um local que era de circulação pública, agredindo toda a
cidadania com a diminuição do tamanho da área de circulação o que já era por
nós um direito adquirido, outro exercício de poder contra todos em favor de
alguns.
Esse perverso
efeito exponencial da necessidade do poder resulta em uma cadeia de seres
humanos cumprindo simultaneamente dois papéis, o de submissão em relação a quem
internamente classifica de mais forte e o de dominação sobre quem pré-julga
como mais fraco, pois já internalizada no homem pela coerção social a
desigualdade converge na construção da sociedade injusta que permite a
exploração de um ser humano por outro.
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