terça-feira, 19 de maio de 2015

A Mulher em 1980 por Téchiné

     Dos oito filmes exibidos na Mostra 8X André Téchiné na Cinemateca Capitólio, até o momento apenas consegui assistir dois: Hotel das Américas (Hôtel des Amériques, França, 1981) e O Local do Crime (Le Lieu Du Crime, França, 1986), por feliz coincidência com a linda e talentosa atriz Catherine Deneuve que em ambos protagoniza “A Mulher Liberta”, o que não é comum na maioria dos filmes. Um tipo de heroína capaz de negar o papel recomendado na organização social em que vive, assumindo sua independência frente ao estereótipo de mulher na década de oitenta.

     Na primeira película, a relação complexa de um personagem dividido entre um velho amigo companheiro de várias aventuras e a personagem principal. Como paixão que aparece repentinamente em sua vida, e como tal mudando-a como um todo, nenhum dos três personagens principais tinha um comportamento padrão, era a permanente busca de algo a mais, ora avançando ora retrocedendo, vários jogos de relacionamento são desenvolvidos alternadamente entre os dois amantes, bem como entre os dois amigos, também dos três com os outros personagens, tudo em função de suas experiências anteriores que nos vão revelando o quadro psicológico que explica as dificuldades do viver de cada um que nos são apresentadas durante o desenrolar da trama. Não há espaço para final feliz, apenas para realismo.

     No segundo, o trio principal é formado pela protagonista, seu filho e um criminoso, com o qual não podemos evitar simpatizar, pois procede como se não tivesse escolha, comete os crimes em incidentes ocasionais inclusive no intuito de proteger a dupla mãe e filho. A lucidez do diretor ao mostrar um jovem, no caso o filho com quatorze anos, com todo seu potencial imaginativo em uso permanente, sempre enfrentando a sociedade formal hipócrita com a espada representada por sua verdade interna, percebe-se claramente que esta pureza vem de sua mãe que a demonstra não tendo medo de apaixonar-se pelo “bandido” e o assumindo por perceber nele uma pessoa completamente diferente do rótulo que lhe colaram, enfrentando a tudo e a todos, também nesse filme não temos um final fechado, apenas as personalidades reveladas e a dúvida quanto ao futuro.

     Em ambos os filmes há paisagens muito belas, excelentes planos, bem fotografados, com um enredo que nos mantém focados durante todo o desenrolar. O constante mostrar das diferenças entre a sociedade estabelecida e o comportamento inesperado e autêntico dos personagens, pessoas por inteiro que tomam decisões por conta própria e, melhor ainda, as assumem, enfrentam permanentemente a pressão das formas de comportamento estabelecidas como regras na comunidade, mostrando-se verdadeiras e assumindo as consequências de suas opções para o bem e para o mal.

     As mulheres vividas nos dois filmes como personagem principal por Catherine Deneuve são do tipo com “M” maiúsculo, olham-se de frente e enfrentam o preconceito de cabeça erguida, tomando sempre as decisões por sua conta e risco. Em outras palavras, livres e corajosas vencem seus medos com vidas compatíveis com seus sonhos, assumindo assim cada qual o domínio de si mesma.    .     

Nenhum comentário:

Postar um comentário