Dos oito filmes
exibidos na Mostra 8X André Téchiné na Cinemateca Capitólio, até o momento
apenas consegui assistir dois: Hotel das Américas (Hôtel des Amériques, França,
1981) e O Local do Crime (Le Lieu Du Crime, França, 1986), por feliz
coincidência com a linda e talentosa atriz Catherine Deneuve que em ambos
protagoniza “A Mulher Liberta”, o que não é comum na maioria dos filmes. Um
tipo de heroína capaz de negar o papel recomendado na organização social em que
vive, assumindo sua independência frente ao estereótipo de mulher na década de
oitenta.
Na primeira
película, a relação complexa de um personagem dividido entre um velho amigo
companheiro de várias aventuras e a personagem principal. Como paixão que aparece
repentinamente em sua vida, e como tal mudando-a como um todo, nenhum dos três
personagens principais tinha um comportamento padrão, era a permanente busca de
algo a mais, ora avançando ora retrocedendo, vários jogos de relacionamento são
desenvolvidos alternadamente entre os dois amantes, bem como entre os dois
amigos, também dos três com os outros personagens, tudo em função de suas
experiências anteriores que nos vão revelando o quadro psicológico que explica
as dificuldades do viver de cada um que nos são apresentadas durante o
desenrolar da trama. Não há espaço para final feliz, apenas para realismo.
No segundo, o
trio principal é formado pela protagonista, seu filho e um criminoso, com o
qual não podemos evitar simpatizar, pois procede como se não tivesse escolha,
comete os crimes em incidentes ocasionais inclusive no intuito de proteger a
dupla mãe e filho. A lucidez do diretor ao mostrar um jovem, no caso o filho
com quatorze anos, com todo seu potencial imaginativo em uso permanente, sempre
enfrentando a sociedade formal hipócrita com a espada representada por sua
verdade interna, percebe-se claramente que esta pureza vem de sua mãe que a
demonstra não tendo medo de apaixonar-se pelo “bandido” e o assumindo por perceber nele uma pessoa completamente diferente do
rótulo que lhe colaram, enfrentando a tudo e a todos, também nesse filme não
temos um final fechado, apenas as personalidades reveladas e a dúvida quanto ao
futuro.
Em ambos os
filmes há paisagens muito belas, excelentes planos, bem fotografados, com um
enredo que nos mantém focados durante todo o desenrolar. O constante mostrar
das diferenças entre a sociedade estabelecida e o comportamento inesperado e
autêntico dos personagens, pessoas por inteiro que tomam decisões por conta
própria e, melhor ainda, as assumem, enfrentam permanentemente a pressão das
formas de comportamento estabelecidas como regras na comunidade, mostrando-se
verdadeiras e assumindo as consequências de suas opções para o bem e para o mal.
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