Percebo em
"Luz do Inverno, dirigido por Ingmar Bergman, talentoso diretor sueco,
filme do estudo de nossa última quarta-feira, que por sinal estão muito boas,
na semana anterior o grande Fellini e agora o especial Bergman, um centro no
suicídio de um dos personagens. A partir desse fato desencadeia um processo de
libertação dos outros personagens, a começar pelo principal, o pastor Tomas, o
que não é muito usual pelos preconceitos existentes contra essa ação de atentar
contra a própria vida.
Em particular acredito que essa atitude é um
direito pessoal, mas consigo entender a carga de preconceito que carregamos
sobre esse ato como sociedade, e principalmente como sociedade comprometida com
preceitos religiosos, pregando o paraíso pós-vida. Logo, só poderíamos
penalizá-lo para evitar que as pessoas busquem antecipar a fuga dos sofrimentos
encontrando o paraíso por antecipação via essa ação agressiva contra si, a
religião vive de glorificar o sofrimento para garantir a submissão.
No caso
específico desse enredo o potencial suicida, desesperançado com o mundo, apesar
de certa prosperidade financeira e de uma família bem organizada, por
aconselhamento da mulher parte em busca do pastor para se iluminar pela opção
de viver, aí Bergman nos surpreende com um pastor que não tem nenhuma palavra
de incentivo à vida e sim faz um discurso empolgado sobre sua própria morte em
vida, o resultado é inevitável: a caminho de casa o suicídio é cometido.
Percebe-se a
partir daí a cadeia de reações libertadoras em todos os personagens,
iniciando-se pelo próprio pastor que assume sua verdade de vida posicionando-se
frente à mulher com quem se relacionava eventualmente com a verdade de seus
sentimentos, não gostava dela, continuava apaixonado pela esposa que havia
morrido há três anos e não via nem gostaria de incentivar qualquer futuro na
relação entre os dois.
A própria esposa do falecido parece grata com
o finalizar dessa vida atormentada pelo repetitivo encontro com um parceiro
dividido entre continuar a viver ou morrer, dizendo para o pastor que não
necessitava do seu apoio e companhia de orações, precisava mostrar-se forte
junto aos filhos iniciando uma nova relação onde os assumiria no papel de pai e
mãe principiando este por contar-lhes da morte do pai.
A amante do
pastor também me passou a ideia de se libertar da relação
humilhante de esmolar o amor do pastor sentindo-se capaz de acompanhá-lo em
suas pregações, sem o constrangimento de implorar o seu gostar e apenas
ajudando-o em sua missão pastoral.
Como em todos os
filmes de Ingmar Bergman, há uma fotografia excelente e uma proposta de análise
psicológica dos personagens muito rica e fascinante que incentiva nosso pensar,
muitos outros ângulos nos mostra essa película em especial, porém preferi
contar para vocês o sentimento inicial que me perpassou.
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