domingo, 17 de maio de 2015

Bergman e o Suicídio como Agente Libertador

     Percebo em "Luz do Inverno, dirigido por Ingmar Bergman, talentoso diretor sueco, filme do estudo de nossa última quarta-feira, que por sinal estão muito boas, na semana anterior o grande Fellini e agora o especial Bergman, um centro no suicídio de um dos personagens. A partir desse fato desencadeia um processo de libertação dos outros personagens, a começar pelo principal, o pastor Tomas, o que não é muito usual pelos preconceitos existentes contra essa ação de atentar contra a própria vida.
     Em particular acredito que essa atitude é um direito pessoal, mas consigo entender a carga de preconceito que carregamos sobre esse ato como sociedade, e principalmente como sociedade comprometida com preceitos religiosos, pregando o paraíso pós-vida. Logo, só poderíamos penalizá-lo para evitar que as pessoas busquem antecipar a fuga dos sofrimentos encontrando o paraíso por antecipação via essa ação agressiva contra si, a religião vive de glorificar o sofrimento para garantir a submissão.
     No caso específico desse enredo o potencial suicida, desesperançado com o mundo, apesar de certa prosperidade financeira e de uma família bem organizada, por aconselhamento da mulher parte em busca do pastor para se iluminar pela opção de viver, aí Bergman nos surpreende com um pastor que não tem nenhuma palavra de incentivo à vida e sim faz um discurso empolgado sobre sua própria morte em vida, o resultado é inevitável: a caminho de casa o suicídio é cometido.
     Percebe-se a partir daí a cadeia de reações libertadoras em todos os personagens, iniciando-se pelo próprio pastor que assume sua verdade de vida posicionando-se frente à mulher com quem se relacionava eventualmente com a verdade de seus sentimentos, não gostava dela, continuava apaixonado pela esposa que havia morrido há três anos e não via nem gostaria de incentivar qualquer futuro na relação entre os dois.
     A própria esposa do falecido parece grata com o finalizar dessa vida atormentada pelo repetitivo encontro com um parceiro dividido entre continuar a viver ou morrer, dizendo para o pastor que não necessitava do seu apoio e companhia de orações, precisava mostrar-se forte junto aos filhos iniciando uma nova relação onde os assumiria no papel de pai e mãe principiando este por contar-lhes da morte do pai.
     A amante do pastor também me passou a ideia de se libertar da relação humilhante de esmolar o amor do pastor sentindo-se capaz de acompanhá-lo em suas pregações, sem o constrangimento de implorar o seu gostar e apenas ajudando-o em sua missão pastoral.

     Como em todos os filmes de Ingmar Bergman, há uma fotografia excelente e uma proposta de análise psicológica dos personagens muito rica e fascinante que incentiva nosso pensar, muitos outros ângulos nos mostra essa película em especial, porém preferi contar para vocês o sentimento inicial que me perpassou.

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