Percebi estampado no olhar do seu
rosto, ele no camarim, a cadeira de sempre, só estava pensando naquelas
cortinas que depois de quase 25 anos fecharam-se pela última vez, lacradas em
definitivo, identifiquei claramente que vive nele a certeza de que sua amada
parceira deste tempo todo, a plateia, nunca mais! Sabe que não mais conseguirá olhar a si mesmo
através dela.
Sim solidão, terá todo tempo do
mundo, solidão, como o teve, solidão, nestes últimos anos para envolver-se em
seus devaneios, não mais alimentando a esperança de reencontro entre ele e a
plateia, mas sim para separar um a um os conflituosos pensamentos em permanente
competição, segundo por segundo de sua atenção, disputando o mesmo espaço no
mesmo instante, o que só é uma impossibilidade para a ciência.
Só me atrevo a revelar seus
pensamentos, pois o conhecendo desde sempre, sei o quanto ele gostaria de
revelar-se, conversar sobre isso, percebi que ele sempre soube que era
impossível, frente a frente emoções desviam os pensamentos, confundem o pensar
por argumentos feitos para o outro e nunca validados consigo mesmo, se diz de
tudo só não o que se sente, só não o que se quer menos ainda o que deveria.
Uma história sempre deveria começar
pelo fim, ele sabia bem disto as vaias, críticas furiosas das últimas
apresentações o entristeciam apesar de lembrarem antigos aplausos, velhos
carinhos, pequenas compreensões, que assim seja solidão por si só não é um mal,
o fim da esperança sim é o mal maior, todo este tempo ele imaginou que podia
não mais gaguejar, que podia não mais esquecer parte do texto, que podia não
mais trocar as palavras, que podia transmitir a vida tão merecida para a plateia.
Que estranho momento o envolvia eu percebia com lucidez, a loucura dos desencontros que
nele aconteciam simultaneamente, muita tristeza aquela simples do irrealizado,
um desejo ardente que com início de nova temporada, com o novo personagem, com
outro ator que não ele, conseguisse saber por notícias, ruídos distantes, que a
plateia construindo uma relação que ele não mais era capaz, estava envolvida e
feliz, o contraponto, finalmente para ele libertado tinha a certeza feliz da
solidão.
Artéria,
sangue, corpo, tecidos nervosos, paixões, alma a arte da vida, continuamos outra
hora, quem sabe...
Parabéns. Acho que estas coletâneas devem ir para um livro...
ResponderExcluirObrigado Mestre, vamos deixar engrossar um pouco o caldo antes de pensar nisso ...
ResponderExcluir