segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Arte Ria - Só Li Dão Vida

                Percebi estampado no olhar do seu rosto, ele no camarim, a cadeira de sempre, só estava pensando naquelas cortinas que depois de quase 25 anos fecharam-se pela última vez, lacradas em definitivo, identifiquei claramente que vive nele a certeza de que sua amada parceira deste tempo todo, a plateia, nunca mais!  Sabe que não mais conseguirá olhar a si mesmo através dela.

                Sim solidão, terá todo tempo do mundo, solidão, como o teve, solidão, nestes últimos anos para envolver-se em seus devaneios, não mais alimentando a esperança de reencontro entre ele e a plateia, mas sim para separar um a um os conflituosos pensamentos em permanente competição, segundo por segundo de sua atenção, disputando o mesmo espaço no mesmo instante, o que só é uma impossibilidade para a ciência.

                Só me atrevo a revelar seus pensamentos, pois o conhecendo desde sempre, sei o quanto ele gostaria de revelar-se, conversar sobre isso, percebi que ele sempre soube que era impossível, frente a frente emoções desviam os pensamentos, confundem o pensar por argumentos feitos para o outro e nunca validados consigo mesmo, se diz de tudo só não o que se sente, só não o que se quer menos ainda o que deveria.
 
                Uma história sempre deveria começar pelo fim, ele sabia bem disto as vaias, críticas furiosas das últimas apresentações o entristeciam apesar de lembrarem antigos aplausos, velhos carinhos, pequenas compreensões, que assim seja solidão por si só não é um mal, o fim da esperança sim é o mal maior, todo este tempo ele imaginou que podia não mais gaguejar, que podia não mais esquecer parte do texto, que podia não mais trocar as palavras, que podia transmitir a vida tão merecida para a plateia.

                Que estranho momento o envolvia eu percebia com lucidez, a loucura dos desencontros que nele aconteciam simultaneamente, muita tristeza aquela simples do irrealizado, um desejo ardente que com início de nova temporada, com o novo personagem, com outro ator que não ele, conseguisse saber por notícias, ruídos distantes, que a plateia construindo uma relação que ele não mais era capaz, estava envolvida e feliz, o contraponto, finalmente para ele libertado tinha a certeza feliz da solidão.


                Artéria, sangue, corpo, tecidos nervosos, paixões, alma a arte da vida, continuamos outra hora, quem sabe...      

2 comentários:

  1. Parabéns. Acho que estas coletâneas devem ir para um livro...

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  2. Obrigado Mestre, vamos deixar engrossar um pouco o caldo antes de pensar nisso ...

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