quinta-feira, 15 de maio de 2014

Da Ficção

   Não só o que escrevo, mas o que todos escrevem é sempre ficção, pois está apoiado no presente e em sua conjuntura, o habitat exterior e interior de quem escreve, a verdade deste instante pode ser a mentira do imediatamente anterior e é de imprevisível definição no próximo momento.

   A própria ciência, construída sobre raciocínios lógicos, apoiada em pesquisas anteriores, deduzida a partir de verdades aceitas por todos, documentada e demonstrada nada mais é do que um continuado negar-se reflete sempre o momento da humanidade, estamos sempre montando um castelo de cartas que qualquer brisa pode derrubar.    

   Bato nesta tecla pela impossibilidade de reproduzirmos emoções, pois condições interiores e exteriores de um determinado momento não o permitem por serem irreproduzíveis e se mesmo assim tentássemos retratá-las por um texto já não seria mostrado o momento real e sim a análise daquele momento, pois quando o escrevemos estamos vivendo em circunstâncias muito diferentes das ocorridas.

   Isso passa de instante a instante, obrigando-nos a sempre contar uma estória e nunca a história propriamente dita, também me vejo vivendo o mesmo fenômeno nas minhas leituras e releituras, sempre é diferente, sempre tem sua marca da hora da leitura, sempre é vida real transformada em lembranças que nunca são as mesmas.

    O que não invalida o fato de a descrevermos, pois por ser ficção tem certamente um valor nominal morto por ser passado e também vivo em todas as releituras que faremos ou que outros o farão e assim infinitamente poderão criar vidas novas nas almas das pessoas.

   Assim quando tento montar um conto, analisar uma situação do dia a dia, passar uma reflexão, narrar uma ocorrência ou simplesmente dizer algo no papel, estou apenas permitindo que os poucos leitores produzam suas próprias escritas, pois não leem o que escrevi (nem mesmo eu o leria) e sim o seu próprio texto.


   Vivo isso no momento de escrever, se não decidisse apertar o gatilho para dizer "publicar", continuaria toda a vida a reescrever o mesmo texto, a mesma sentença, cada releitura uma nova forma, um refazer.  

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