terça-feira, 30 de junho de 2015

Tela Grande em Final de Junho

     Caros programadores de cinema da nossa bela cidade, Porto Alegre, que lhes parece um pouco de sexta geração do cinema chinês, não seria uma boa ideia? Terminei a leitura de “O mundo de Jia Zhangke”, oportuno seria ver agora na tela grande o trabalho deste cineasta, e confirmar o somatório de elogios recebidos, não fiquei apenas lendo neste fim de mês, pude ver três filmes na semana “Django Livre” dirigido por Quentin Tarantino, “O Franco Atirador” a obra-prima de Michael Cimino e “Top Girl ou a Deformação Profissional” da Diretora Tatjana Turanskyj.

     Essa China, da poesia dos seus jardins e dos contos de rolo, da mudança acelerada de fotografia nessas últimas três ou quatro décadas, da alma de seu povo os cidadãos simples envolvidos por esse verdadeiro furacão de mudança, da qual o diretor Jia parece ser seu melhor pintor, é ela que eu preciso conhecer por meio da exibição dos seus filmes, já perceberam que gostei muito do livro e agora é preciso vê-los na sala de cinema que é seu lugar de direito não no computador, não ficaria feliz de por extensão de punição me vedar assim como o fizeram ao diretor aos seus primeiros filmes o circuito oficial de distribuição.

     Quanto a essa bela obra de Tarantino, sendo quota obrigatória ou não, sua qualidade de roteiro e filmagem é indiscutível, o debate que fica é a questão da escravidão se é oportuno seguir trabalhando o tema ou não, os argumentos contra e a favor são muitos, eu particularmente gostei do foco do filme, um faroeste onde nosso herói é um negro que cumpre todos os rituais desse tipo de filme vencendo a tudo e a todos e chegando ao seu objetivo que era voltar com a sua mulher a heroína negra que falava alemão, menção honrosa para a interpretação do caçador de recompensas por sua fina ironia.

     Discussão sobre o fracasso do Vietnã? Lembrem-se o filme O Franco Atirador foi lançado muito próximo da retirada americana daquelas terras, Cimino nos apresenta essa derrota sem poupar em suas imagens o verdadeiro caos que foram aqueles últimos momentos, mostra-nos ainda o contraste da alegria de uma cidade pequena antes da ida ao front e sua sorumbática face ao retorno do que sobrou da intervenção militar, um deficiente físico, um morto e um sobrevivente angustiado pelo terror vivido, bom filme soma muito para a luta contra essas guerras inúteis.        

     Não existe alma nessa profissão? Top Girl ou a Deformação Profissional, da diretora feminista nos pareceu incompleto, se atendeu o objetivo de chocar, chamar atenção para o descalabro das situações vividas, a quantidade de fraturas expostas nos envolvidos em cada um dos simples encontros sexuais, esqueceu-se por completo de mostrar o contraponto da pessoa que estava por trás da “deformação profissional” e tinha muito a mostrar, candidata fracassada à atriz, mãe de uma menina, tinha toda uma construção pessoal que podia ser explorada e da qual senti falta, realmente não consegui compreender a contribuição ao para o feminismo do filme.


     Pronto paguei minha dívida com vocês, partilhei minha semana em relação à sétima arte, se nenhum proveito desta narrativa for possível tirar no mínimo ficaram informados do que curti e talvez provocados a ver os filmes do seu particular ponto de vista, que por certo é a única maneira de vê-los.            

domingo, 28 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Sociologia

     Nós reagimos contra uma educação tecnicista distanciada da construção do homem, refutamos uma noção de sexo utilitarista procriador proibido como prazer, nós abominamos o imperialismo americano ou qualquer outro, que nos tratava como quintal quando deveria ser uma liderança, era assim nossa geração jovem nos anos sessenta nos manifestávamos através de movimentos de militância política/social e optávamos por uma vida alternativa.

     Quarta fase do jogo efeito rebanho, os resultados eram medidos pela capacidade de apropriar-se da rebeldia jovem convertendo-a em submissão ao consumo, regra enquadrar no sistema espaços para criatividade, para o espírito de mudança dirigindo seus resultados para manutenção do status quo via simulada autonomia.

     Éramos muitos circulávamos jogando nossas bolinhas de gude contra os cavalos da repressão, nossas reuniões no bar da esquina, dentro dos grêmios escolares nas organizações jovens das igrejas onde discutíamos a vida e a sociedade, música era o tropicalismo, cinema novo a opção, realismo marxista na literatura e teatro, nossas trincheiras ambientadas a escancarar a existência de desigualdade e sonhar com ideais igualitários.

     Perdemos feio, foi uma derrota do tamanho da utopia sonhada, apreenderam muito conosco, no marketing para gerar massas de manobra, nas técnicas de gerenciamento para substituir o autoritarismo pela persuasão, maneira suave de exercer poder, podiam substituir a tortura e a força por grupos de trabalhos dirigidos a metas e resultados e com a febre encantadora do consumo a manter toda uma população ocupada, distraída, com a próxima aquisição e a cada década que chegava mais acomodação e conservadorismo.

     Especializamo-nos no desperdício, pois toda a pesquisa é movimentada pelo poder econômico e político, o trabalho intelectual é direcionado para o detalhe particular conforme interesse de quem exerce o poder, todos nossos esforços são contra o homem e a favor de sua submissão o que só podia resultar em uma sociedade cada vez mais egocêntrica dirigida a comprar a próxima inutilidade a ser lançada no mercado.

     A sociologia interpreta esses movimentos em um somatório de pequenos cases que escondem o todo, pois se tirarmos uma radiografia da sociedade, hoje encontraremos muito trabalho inútil com objetivos fantasiosos executados por homens depressivos, pressionados e distraídos por ínfimos minutos de prazer gerados por tão somente o momento da aquisição e posse de um objeto qualquer, no mesmo instante o mesmo torna-se obsoleto vira uma inutilidade. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Teologia

     Acompanhou-me por toda a vida os benefícios obtidos, que não são poucos, por minha formação em ambiente religioso, seu principal reflexo uma posição crítica sobre o contexto no qual se inserem a questão fé, a questão instituição religiosa, a questão pessoas e seus deuses, a questão do ser inteiro.

     Terceira fase do jogo autoridade da fé, os resultados eram medidos por seu nível de sujeição a dogmas concebidos para tirar benefício do medo da morte, regra interferir na vida dos outros alimentando conceito de bem e mal com objetivo de exercer o poder.

     Quando colocamos em cheque a estrutura autoritária da pastoral da juventude diretamente ligada à hierarquia da igreja que ao invés de fornecer consultores preferia fornecer um dono, a crise gerou um recuo estratégico, afastar o padre nomeado como responsável via uma ida à Europa em curso de especialização, aguardar o esfriamento do movimento, disfarçar a derrota, ganhar um tempo, e planejar o retorno para quando fosse mais conveniente, isto é, possível retomar o controle.

     Como conviver em harmonia centros de formação de homens livres, incentivados por núcleos esclarecidos dentro da organização, com a estrutura formalizada que digladiava por manter-se como controladora de milhares de fiéis, enquanto a primeira fomentava o interesse no homem e em sua libertação a segunda buscava manter poder sobre o homem.

     A história está repleta de guerras geradas em nome da fé, quantos homens morreram nessas batalhas, mais triste ainda é a quantidade que abriu mão da vontade de viver em troca do consolo de um hipotético lugar de imortais, lembrem-se de que quando a Igreja não foi o poder foi a conselheira deste e ainda hoje se cometem as maiores atrocidades em nome de Deus.

     A teologia a serviço de uma organização, sustentada por esta, não encontra outra justificativa que não seja aprimorar o uso do ás na manga, o medo da morte, com objetivos que não são a justiça e a liberdade do homem e sim a diminuição deste pela submissão aos autodenominados representantes do criador.  

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Psicologia

     Estava começando uma história, uma menina legal estudava comigo na universidade, algumas afinidades tipo atração física, como a conversa fácil, também buscas comuns de lazer, música e reflexões, parecia simples era só atirar-se a aventura de viver o maior tempo possível a dois.

     Segunda fase do jogo ”receita de bolo”, os resultados eram medidos pela leitura correta dos livros que infelizmente se traduz em descompromisso com quem estava a sua frente, regras ganhar o pão de cada dia sem qualificar-se.

     Pois é, passado um tempo, já estávamos o que na época chamava-se namorando fiz um carinho nos seus seios sem interromper-me ela imediatamente começou a tremer quase uma crise de pânico, o que vocês podem imaginar resultou em longas conversas, ela me contou que consultou um psiquiatra para entender o que lhe acontecia, era incontrolável, o mesmo lhe receitou pasmem vocês "ter relações com um professor mais velho", pois o problema estava ligado ao modo como ela via e sentia o relacionamento de seus pais.

     Ou seja, não ajudou em nada a moça, e sim aumentou o tamanho do problema, convenhamos a receita estava correta ela precisava superar as adversidades internas com um relacionamento compreensivo, alguém que pudesse com carinho conquistar-lhe a confiança e a conduzir com segurança o relacionamento a dois.

     Ponto para a antropofagia, o cara estava ganhando a vida à custa de outrem, em nenhum momento preocupou-se com a pessoa que estava a sua frente, tinha a receita de bolo nos livros que estudara, e diminuir as possibilidades de que ela pudesse ser feliz, o que de fato fez, estava dentro da sua maneira de ganhar o pão de cada dia, talvez até se candidatasse a ser o charmoso mais velho compreensivo.


     Sem alento, vemos com constância muito superior ao desejável a execução de procedimentos desse tipo em todas as profissões, autômatos na busca dos meios de consumo, resumem a vida nesta luta insana pelo melhor quinhão, independente de quantos seres humanos serão destruídos por seus atos, repito sem alento, pois os indícios apontam para uma maioria crescente se posicionamento nessa direção. 

domingo, 21 de junho de 2015

Alcova Espartana de uma Alma Ateniense

     Voltamos quando menos esperamos ao berço da cultura ocidental: a Grécia antiga, o sonho dourado da tragédia grega, do ditirambo onde o coro evoca e cria o Deus Dionísio, quem sabe alegre quem sabe sombrio era o povo transformando-se em Deus através da afirmação da vida em plenitude e globalidade.

     Essa força espantosa da música que nos envolve em um diálogo profundo capaz de materializar o pensamento expresso por um coro, nos aponta o caminho da redescoberta da força viva que é o homem e sua capacidade de criar, da qual abrimos mão por ocuparmo-nos em excesso com a geração de conceitos e regras universais, isto é, destinada aos outros, em lugar de encontrar e exercitar o homem interior.

    Este recinto fechado de encontro de nossa alma com ela mesma só pode ser obtido com uma forte disciplina pessoal, podemos falar de manter uma guerra interminável contra as distrações de nós mesmos que nos impinge a sociedade de consumo, sempre nos oferecendo foco para milhares de pessoas, conceitos ou materiais tão longes de nosso querer que quando alcançados sempre resultam na insatisfação de sua inutilidade.  

     Quando percebemos não temos tempo para nada, estamos sempre ocupados demais para vivermos, iludidos pelo amanhã com suas fantasias que nos são vendidas, afastando-nos do presente que é o templo sagrado da alma humana, ou mais grave, debruçados sobre um passado que só poderia realizar-se novamente como farsa.             


     Alcova, sim o fechar-me em mim mesmo como espaço indivisível e inviolável para o simples existir, espartana pela absoluta pessoalidade das regras estabelecidas e executadas e quando falo na alma ateniense penso em movimento de ideias, em convivência entre homens livres, justos, senhores de si mesmos, capazes de articularem com desenvoltura seus anseios de não dependência, não se sujeitando a qualquer filtro moral de outrem em detrimento de sua verdade.   

sábado, 20 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Iniciação

     Ora estava na quadra de basquete treinando, na época de pivô era considerado alto, ora como sócio-atleta do clube participava das reuniões dançantes, assim início da juventude o importante era no jogo das relações com amigos e com namoradas encontrar meu espaço emergente onde dividimo-nos entre esportes, álcool e paixão, ora bolas, tinha também os estudos e alguns movimentos para ganhar uns trocados.

     Primeira fase do jogo “fazer-se querido”, os resultados eram medidos pela popularidade entre os amigos e por quantidade de namoradas inventadas ou não, e a regra era adivinhar o comportamento desejado pelos outros jogadores.

     Quanto aos companheiros parecia simples era só iniciar a fumar e beber sair para dançar, falar das gurias, escolher alguém do grupo para ser a vítima, com isso agradava a todos, se possível criar histórias para buscar enciumar os companheiros e assim agregar a si prestígio no grupo, na sequência tentar corresponder, ser acreditado nas histórias contadas, com o tempo acabava que as leituras e os filmes muito ajudavam a jovem imaginação.

     Faz parte de nossa iniciação o ato de optar, na questão política social em plena Guerra Fria escolha foi a terceira via o maoísmo, e na ditadura a resistência brizolista e participação na esquerda cristã, embalado pelo movimento estudantil e a juventude católica.

     Bom o namoro complicava um pouco, mas os fins de noite dançantes eram uma boa alternativa, depois de algumas tentativas acabava-se ficando com alguém, e comigo não foi diferente apareciam as namoradas, e então o mais difícil era evoluir a relação, na memória encontro histórias inventadas para justificar um beijo, um carinho, gerar as oportunidades, claro meus eram os temores, minha experiência reduzia-se a umas coroas solitárias que gostavam de curtir a gurizada, imaginação foi a arma que utilizei e lembro bem de ter vivido coisas boas e assim o foi sempre eterno enquanto durava.

     Ainda falando em opções culturais, na música Rolling Stones e tropicalismo, na literatura Medo a Liberdade, Análise do Homem do socialismo freudiano humanista de Erich Fromm, Demian de Hermann Hesse autor fortemente influenciado por Nietzsche, no cinema as obras primas dos franceses (Godard, etc.), italianos (Fellini, Pasolini, etc.), ou como queiram do cinema europeu como um todo (Bergman, etc.) e do cinema novo brasileiro (Glauber, etc.), no turismo mochila nas costas e de preferência uma festa na casa dos pescadores em Garopaba - SC.      


     Buscando a memória social coletiva, desde pequenos, por nossos pais representantes da sociedade, somos treinados a fazer-se gostar, no modo Ivan Pavlov buscando as recompensas fugindo dos castigos desenvolvendo a capacidade de enganar e sofisticar, o suficiente para transformar uma relação que deveria ser natural, em um grande jogo entre jovens, em um conjunto de avanços e recuos estratégicos, adivinhações de necessidades e possibilidades, artimanhas mil enfim para atingir objetivos simples de convivência.                

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Jogo da antropofagia - Prólogo

     Encontro-me nesta situação inaudita, quando a descobri estava inserido neste maldito jogo e desde já o aclaro "declaro para quem de direito que o texto que segue é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas e fato real é mera coincidência", se escrevo sobre o mesmo o faço na condição de não saber se sou parte do imaginário do autor do jogo ou qual tipo de inteligência represento.

     Sobre o autor cabe ressaltar que é desconhecido, ou seja, existem muitas e apenas suposições sobre o mesmo, porém a falta de provas contundentes não nos permite confirmar qualquer uma dessas, quem o diz tê-lo visto nunca apresentou as comprovações e exigiu a fé na sua visão, umas das teorias com a qual simpatizo é de um conjunto de impulsos construído e influenciado por ideias antagônicas de pessoas através do tempo.

     Por que minha surpresa com essa situação quem sabe resultado de alguma desinteligência, pois até agora não consegui compreender qual o objetivo do jogo, simplesmente tenho que jogar, parece que é assim mesmo, estou no tabuleiro, sou uma peça e qualquer movimento feito é parte do jogo, para ser franco vou mais adiante não sei realmente como me classificar como jogador, também se o soubesse não sei se faria diferença.

     Por favor, me perdoem se nestas linhas esteja colocando uma visão irreal do mesmo, mas é o que consegui refletir, aceito de bom grado as críticas bem provável que até precise delas para que possa me colocar nos eixos, como se diz por aqui, não tenho certeza se estou no bom caminho até porque todas as tentativas feitas para entendê-lo no convívio com outros jogadores resultaram em me deixarem inseguro quanto ao conhecimento do mesmo.

     O objetivo do que vão ler, salvo a hipótese que eu fui condicionado a fazê-lo no que não creio, é em primeiro lugar checar comigo mesmo o entendimento, depois checar com quem interessar possa, para isso vou contar-lhes algumas jogadas, sua interpretação de minha parte, ou de parte de outros de quem as ouvi, não me peçam para ensinar-lhes o caminho da vitória, pois não o sei. 

     Concluindo gostaria de ressaltar que o colocado aqui é de minha inteira responsabilidade, assim acredito esteja mostrando a minha visão do processo como um todo, o que de fato não é garantia de verdade ou existência, apenas é a minha verdade e também não o sei se poderia pensar em uma verdade universal, mas...