quarta-feira, 15 de outubro de 2014

No fundo do poço

     Poço, sim rumo ao fundo deste encontraremos as pistas que nos definem e que caracterizam o ser humano que somos fundo do poço é força de expressão, a busca do indivíduo por sua alma é além de difícil completamente imprevisível quanto ao seu conteúdo, assim vejo a vida e se considero que estamos todos em distâncias diferentes deste alvo que é ter clareza do que somos, devo compreender o fato de resultarem imagens diversas com respeito às pessoas e às coisas, não é justo exigir de quem está visualizando a grandiosidade do universo que tenha as mesmas respostas de quem olha as modestas riquezas de sua alma.

     Amigos de grande afinidade de pensamento, por vezes se desencontram no discurso, por quê? Pela natureza desigual do momento vivido, o mesmo fato responde por interpretações aparentemente divergentes e que o futuro talvez demonstre ter o mesmo ideário em sua origem, apresentam-se de maneira diferente conforme o respectivo marco do tempo, se considerarmos que não se pode antecipar o tempo é obrigação de quem pode olhar-se no passado achar o elo que liga os mesmos.

     Existe em nós o tempo da construção onde levantamos tijolos construindo sonhos, realizando projetos, agregamos informação e conceitos, em continuação nos deparamos com o momento da desconstrução onde buscamos eliminar tudo o que trouxemos de desnecessário buscando o mínimo do mundo para acharmos o máximo de nós, não diria que estamos na hora do tudo feito e sim no momento do fazermos em nós.

     Descobrir em nossos gestos, em cada pensamento, na manifestação das vontades, atitude por atitude quem nos influência e por que, substituindo a repetição impensada de filosofia de outrem por respostas conscientes nascidas de reflexão nossa, pessoal, frente a cada fato que a vida nos proporciona.


     Neste processo de decodificação, transparência me parece importante, porém cercada de cuidados para não magoarmos quem nos estima, pois não somos beleza pura, não somos nem maior, nem menor que ninguém, apenas um ser individual único que em momento algum pode corresponder à completa expectativa de alguém. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Direita Volver Marche!

     Vamos fazer um "minha culpa", conseguimos um resultado eleitoral decididamente à direita, elegendo um congresso e possivelmente a maioria dos executivos aos quais podemos prender sem nenhuma dúvida a etiqueta "conservador", com certeza o preço a pagar será alto, estamos adiando por mais quatro anos a reforma política e o enfrentamento do importante desafio que é a melhora da educação.

     Só cabe a nós mesmos a responsabilidade por este fracasso são doze anos no poder e no quesito educação nada fizemos, mantemos um ensino com alto grau de deficiência, herdado por influência americana nos tempos da ditadura, quando penso que nesse período poderíamos ter liberado um primeiro time com a marca de qualidade do ensino integral, capaz de decidir com o discernimento de quem aprendeu a pensar as melhores opções para nosso país, só tenho a lamentar-me por termos jogado fora esses doze anos. 

     Não podemos esquecer que os propósitos da direita, com suas enfeitadas e bonitas frases que nada dizem, têm sempre foco em manter a elite no controle, via educação insuficiente, primando por evitar o desenvolvimento da capacidade de análise crítica, defendendo uma livre iniciativa estabelecida sobre a velha história de vender oportunidades iguais para desiguais.

     Sei que o momento não é de riso, mas me lembrei da piada que fala do religioso que dizia dar tudo ao Senhor atirando as moedas da coleta para cima e deixando que ele, o Senhor, servisse-se do que quisesse, é assim que vejo a direita defendendo a violência econômica, policial e social contra o povo a quem acusa de não aproveitar as oportunidades que a democracia lhes oportuniza por negligência, preguiça e má índole.


     Nossa tarefa tornou-se muito mais difícil, teremos que levantar trincheiras na sociedade civil, sem esperança de apoio significativo dos mecanismos públicos de gestão, o que imagino só seja possível com um forte comprometimento individual, para evitarmos a regressão do pouco que conseguimos de avanço, com cada um de nós vivendo um dia a dia com posicionamentos transparentes, corretos e de continuada vigilância.    

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Almas Gêmeas

     Quando escutei "Cara sou sua alma gêmea, penso igual a você", de imediato reagi, meu amigo a igualdade nos debilita, a diversidade nos fortalece, preciso que você raciocine do seu modo e não como eu, só assim podemos somar valor, eu concordo, sempre haverá intersecções, pontos de vista que se encontram, mas o que expande o espírito humano é o que eu não pensei o que não lhe havia ocorrido o que um terceiro nos oportunizou.

     Porque me vem à lembrança isso hoje? Boa pergunta, talvez o pós-eleição com seus resultados previsíveis e não desejados, ou quem sabe apenas a visualização de tantas unanimidades tão bem definidas como burras pelo nosso grande Nelson Rodrigues, o todo sempre é heterogêneo e como tal funciona, nosso corpo traz em si essa lição quando uma mesma célula original divide-se em milhares de células especializadas, cada uma apreendendo sua função e vivendo-a na prática e assim garantindo o funcionamento do todo.

     Seguiu o interrogatório: "Então por que escreves? Por que disponibilizas para todos teus escritos?". Não fugi de responder, passei a explicar a ideia de que por princípio somos semente, apreendemos e passamos adiante nosso conhecimento então "c'est fini", quer dizer, aí termina nossa missão, essa é a regra básica da natureza vive-se para entender mentalmente a vida e passar adiante a descoberta, para escrever necessito refletir e publicando faço minha parte e justifico meu existir.

     Não satisfeito largou de primeira: "Por que dedicas tuas horas à leitura?". Não titubeei, lendo busco provocar-me, encontrar espaços internos, oportunidade de vasculhar os inúmeros buracos negros ainda virgens em mim existentes, interessante como uma frase, uma palavra, um momento, desencadeia frenéticas pesquisas, movimenta uma complexa rede de interligações e permite preencher uma lacuna antes vazia na minha construção filosófica.

     Somos um pouco cópia, gerados como síntese da vida de todo o sempre, constituídos da soma dos que viveram, tudo que aqui esteve antes de nós, contemos o DNA desses e dos que viverão, pelo menos assim o vejo enquanto não nos habilitarmos a domar o tempo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Na dança das cores

   Navegando do preto, ausência de todas as cores e como tal tem a beleza de todas, pois as absorve, até o branco onde a presença de todas as cores possibilita que as reflitam, convivemos em uma sociedade onde um espetacular arco-íris marca sua presença através de um mesmo ser humano diversificado em sua pigmentação por sua adaptação na própria pele humana aos diversos comportamentos da natureza, nada nos diferencia no essencial apenas no transitório e isto é o pote de ouro que a lenda diz estar na origem deste arco-íris.

    Difícil entender como as diferentes transformações por que passaram os seres humanos durante seus muitos anos de convivência com diversos níveis de exposição a raios ultravioletas pode ser parâmetro de segregação, propiciam perseguições covardes a grupos e indivíduos, quando na verdade deveriam gerar orgulho de nossa capacidade não só de mudarmos nossos pigmentos como transferirmos geneticamente os mesmos à nossa prole como um conhecimento a ser repassado.

     Não posso furtar-me a uma manifestação clara contra o preconceito, os cinco sentidos me permitem ver a beleza do homem em todas suas cores, ouvir a graça dos sons emitidos por diferentes tons, cheirar os perfumes das diferentes peles, apalpar as diferentes densidades e anatomias, saborear o gosto que nos oferece a natureza especial de cada um.

     A falta de preparo intelectual, que nos humilha por sua mediocridade, aparece plena na intolerância da cultura dos slogans, no policiamento dos comportamentos, no cerceamento da liberdade do indivíduo e muito mais na exclusão social dos desfavorecidos, o que vemos é um grupo social disposto sempre a atirar a primeira pedra, no grande espetáculo global de apedrejamento que se tornou este mundo globalizado, onde a maioria sempre forma-se em torno de um pseudo politicamente correto para expurgar seus pecados nas costas do outro.


     Por aqui neste nosso Brasil, não nos vejo diferentes, e precisamos com urgência, partindo de cada um em iniciativa pessoal e intransferível trilhar o caminho da busca da cultura, sem esperarmos por iniciativa de outrem, dar o primeiro passo, pois desde sempre o todo depende da parte e cada célula tem o seu papel a cumprir, sem esperar ou cobrar do outro qualquer coisa, só a cultura extermina o preconceito e possibilita o nascimento do homem por inteiro.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

No Olho do Furacão - Viajei!

     A viagem de sempre, são vinte e quatro anos de peregrinação à Meca do GeneXus, Montevidéu  a bela capital do Uruguai que ainda conserva em muito aquela imagem que tanto amamos da Paris do início do século passado que para nossa alegria espalhou-se pelo sul da América, com seus cafés, seus bares, seu povo. 

     Cá estou eu no centro do furacão em viagem interior, preparando-me para o deslocamento físico, misturando lembranças com vontades, recordando quando no apertado teatro de um banco, o Banco da República, se não me engano, éramos trezentos e representávamos trezentos, nós mesmos, e somávamos vontade a um ideal acalentado por cinco visionários, que incessante escreviam-no linha a linha.

     Hoje sei seremos três mil representando trezentos mil, e este patrimônio, esta comunidade é sim o grande legado, que a soma dos anos constrói e alimenta esta sim é a grande viagem onde todos os rumos ainda não se completaram, não sabemos ao certo o caminho e o estrago que o furacão definirá.

     Não me sai da cabeça, a Elis Regina nossa grande Elis cantando "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais", assim vejo nosso momento como comunidade GeneXus, temos os alicerces da mudança, sim já  foram construídos, mas existe um tudo ainda por fazer, temos a tecnologia temos a possibilidade de fazê-lo mas nossas aplicações ainda são as mesmas dos tempos dos tabuladores, acanhadas respostas ao dia a dia, claro com muitos Gigabytes de tecnologia embarcada.

     Reencontrando este time profissional, esclarecido e amante da mudança, eu aposto na revolução que esta comunidade irá construir, sei que vou encontrar-me com muitos insatisfeitos como eu, que percebemos o ninho perfeito armado o suficiente para afrontarmos todas as forças que nos empurram para as soluções conservadoras e realmente inovarmos.


    Estamos aparelhados, somos massa crítica, bom então é a hora de colocarmos nossa contribuição e fazermos a mudança, pois essa só nós como comunidade podemos fazê-la. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Entre o singular e o plural

     Gosto de mulher, no plural, poderia gostar de homem? Certamente que sim e até optado por ser bissexual, escolha bastante comum na década de 1960, foi uma decisão particular minha que independe de conceito de bem ou mal como qualquer outra decisão que tomamos e vamos em frente, isto é, assumimos e assim o fazem as mulheres e os homens.

     Insisti acima com o “gosto de mulher no plural” o que vale para quem escolheu outro modelo de relação também, pois mesmo tendo apreço a quem no dia a dia decide-se a abortar novas relações com outros parceiros, admito que a mim não pareça natural, uma pessoa no singular não pode preencher a gama de interações que me são necessárias, por isso mais importante do que a opção tomada é o plural que me encanta e me atrai certo que também não poderei ser único a completar uma mulher.

     Assim vejo os homens e as mulheres fazendo suas escolhas e os estimo e respeito em primeiro lugar por terem escolhido, pois decisões são sempre corretas independente do caminho tomado, já dizia Descartes o importante não é decisão tomada, mas o ato de decidir.   

     Não sou médico, não sou psicólogo, logo apenas manifesto-me sobre o que é para mim o tema, não estamos falando de genética, não estamos falando de circunstâncias especiais de vida, não estamos falando de anomalias, estamos falando apenas de definir o gostar, buscar seu espaço particular de afetividade, buscar um modelo de relação com os outros que não necessita ser apoiado nem criticado, tão somente respeitado.

     O homem livre, o ser humano independente do sexo, constrói sua rede de relações de maneira individual, prepara-as e aperfeiçoa-as à sua maneira sem que interferência externa alguma o possa modificar, ele edifica seus sentimentos, seus alvos do gostar, como opção tomada no somatório de todos os instantes de sua vida, reassumindo-os a todo o momento.

     Obviamente que o entorno o obriga a posicionar-se, porém não o modifica, apenas oportuniza o escolher, livre e independente dos caminhos assumidos no passado, uma sempre nova decisão, seus e só seus são os caminhos e a felicidade que deles advêm.


     Quando aceito o individual de cada escolha obrigatoriamente eu como ser humano estou desautorizando qualquer possibilidade de não aceitação, de crítica, de preconceito, e não só como também a simples ideia de colocar em questão ou de analisar uma escolha de outrem não é admissível, pois só a estes compete decidir e analisar suas opções.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

De pernas para cima!

       Acordei e finalmente reencontrei-me com a civilização, na cozinha a barata com suas finas e delgadas pernas, confortavelmente deitada de costas, debatia-se, mexendo-as entre a vida e a morte, realmente era a prova de existência e a mostra da civilização que aí esta.

     Meu software interno de imediato chamou-me atenção para Kafka, acordando e vivendo sua metamorfose, enquanto deliciava-me com esses pensamentos, em paralelo, de maneira concorrente foi me lançado Raul Seixas, sim metamorfose ambulante, Raul Seixas o homem das cobras e aranhas que coitadas realmente não têm culpa nenhuma de eu ter visto uma barata agonizante.

     Vocês estão dizendo, vejam como este cara está confuso, ele mistura todas as coisas, acostumados que estamos em ver a reta como melhor caminho entre dois pontos, ilusão esta que o tempo sempre destrói nos trazendo a realidade do que não podemos entender.

     Enquanto essas tarefas executavam-se em paralelo na minha mente, a inteligência das pessoas envolvidas iluminava a imagem de Lucy, não exatamente a imagem da mulher, bonita e muito boa atriz por sinal, e sim o tema recorrente da ficção inteligente, olha aí novamente o Senhor Tempo, que tão bem trabalha o roteiro do filme.

     Seria impossível enumerar aqui a quantidade de interelações que conseguimos trabalhar, as histórias paralelas que vivenciamos em nosso cérebro, quando os confrontamos com os ridículos dez por cento que nos dignamos a utilizar, assim pensei retornando ao filme.

     Lembrei-me de que não sei se antes, durante ou depois de Proust, quando se defronta com o passado e o presente disputando em seu ser o mesmo espaço, brigando segundo a segundo um som lembra outro não se sabe mais qual se ouve, vemos uma paisagem, vemos outra, não sabemos em qual tempo estamos vivendo certamente nos dois simultaneamente.

     Sim amigos nós precisamos domar o tempo e para tal fugirmos destes malditos “dezporcento” que insistimos em como limite colocar na nossa capacidade de viver.