sábado, 8 de setembro de 2018

O Justo - Releitura dos Miseráveis.


     Talvez estas páginas de Victor Hugo do livro “Os Miseráveis” do qual estou vivendo a releitura contenham a melhor definição para conceituar O Justo, tenho por mim que estamos em um momento no qual necessitamos recuperar esta construção não de um personagem e sim de sua existência como ser humano.

     Parece que perdemos a capacidade da autocrítica que permite encontrar em nós mesmos a discussão de conceitos comportamentais adequados para a humanidade, hoje preferimos usar uma guia de um discurso ideológico como apoio aos nossos procedimentos do viver o dia a dia quando deveríamos optar por uma análise de consciência amparada em nossos valores.

     A posição de conforto que significa tomar decisões com base em uma cartilha que, apesar de por mim escolhida, é escrita por terceiros não me parece adequada ao livre arbítrio tão caro á nós homens, sempre que enxergo tudo apoiado nestes óculos que em verdade não são meus estou abrindo mão do optar e me deixando conduzir por outrem.

     Não raro perco completamente o senso de justiça vivendo e semeando mais o ódio que o amor, sim porque ódio é a desqualificação inadequada do outro com fins de descriminação, um pouco aquela utopia inventada de estar entre os poucos eleitos que acaba por me justificar perante mim mesmo, por óbvio que para ser um dos poucos tenho que julgar o outro como um desqualificado frente a mim e aos meus.

     Com base na desmoralização do Justo passamos a construir a ferocidade das guerras, a insensatez da escravidão do homem pelo homem, a ignorância violenta da discriminação, a injustiça da má distribuição dos bens produzidos por todos, sempre amparados em argumentos, pois o papel tudo aceita, que são apenas construções arbitrárias de lógica independente de valores associados ao ser humano.

     Prestamos-nos ainda para o descalabro do pueril bate boca entre partidários de diferentes bíblias de pensamento, cada qual afrontando o outro por ridicularizar as ideias e as pessoas que as abraçam via diminuição e nunca por adição de valores em um processo que se radicaliza em cada vez mais baixo nível de agressão.

     Reencontrar O Justo dentro de cada um de nós é uma tarefa que requer urgência para que possamos conviver comunitariamente entre humanos em harmonia com a natureza, é o chamamento que encontro em cada página relida deste clássico da literatura universal escrito por Victor Hugo, sendo este reencontro uma tarefa pessoal e intransferível, algo que só eu posso fazer por mim mesmo, porém esparramar-se-á sobre todo o universo.            

     Temos muitas questões de fórum intimo que em primeiro lugar são importantes para o nosso prazer e felicidade pessoais e como consequência imediata irradiam este clima para todos os nossos iguais, para estas não podemos abrir mão da reflexão individual e em nenhuma hipótese transferirmos esta responsabilidade para terceiros pode ser feito, a pena para tal e a infelicidade nossa e dos outros.  

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