sexta-feira, 13 de março de 2015

O Roubo

      Não me reconheci, ouvi trinta e quatro reais, coloquei uma nota de cem na mão do caixa e recebi setenta e seis, devo ter escutado mal era vinte e quatro, na matemática sou forte tinha recebido dez a mais de troco, que foi fazer companhia às poucas notas que tinha no bolso, quanto à audição, bem! Não sei mais, talvez só escute “o que” e ”o como” que quero ouvir, comecei a fazer malabarismos de raciocínio tipo “esse lanche não vale tudo isso”, “o caixa não iria errar em exatos dez reais”, “a quebra de caixa garante esse pequeno valor”, “a empresa tem isso previsto na conta lucros & perdas”, entre outros.

     Nesse dia tinha saído cedo do escritório, chegando ao shopping logo na entrada me encontrei com minha irmã em um desses cafés sofisticados tão comuns nesses ambientes, não realmente não gosto de centros comerciais fechados, prefiro bares e cafés ao ar livre, claro que nessa preferência encontra-se também a vontade forte de degustar as minhas cigarrilhas, ela me esperava com um pedido já engatilhado de dois cafés, o meu tem que ser duplo é claro, uns pãezinhos de queijo além do bolo de espinafre que ela estava a degustar, sairíamos após o lanche para fazer umas compras no supermercado.

     Saindo em direção ao local das compras passei no caixa para acertar a despesa e vivi o momento acima relatado, me cobraram o valor incorreto, pior foi a menos e com isso me beneficiava, coloquei o troco na carteira e fiquei me convencendo que estava tudo certo, as compras no supermercado eram poucas, mas todo o tempo estive com assunto do acerto, não me saia da cabeça, ao ir embora não resisti e puxei o assunto com minha irmã, indiretamente é claro, comentei o valor referindo-me ao baixo preço, ela de imediato me contestou, levando-me a ter certeza que o valor maior era o correto.

     Como o caixa do café estava em meu caminho de saída, dirigi-me ao mesmo e perguntei-lhe sobre a possibilidade de calcular o valor novamente, conforme relatávamos o consumo ele pesquisava os preços e na calculadora fazia suas contas, estava nervoso, achou um valor diferente próximo do mais alto, não tive duvidas peguei na carteira dez reais e disse “recebi troco a mais estou lhe devolvendo”, satisfeito por ter me redimido, aborrecido por ter tentado trapacear comigo mesmo e tão facilmente predispor-me a ficar com o que não era meu, que por certo iria fazer falta ao caixa.

     Sai convencido que tenho que aumentar a autovigilância, pois percebi que sempre posso manipular os meus pensamentos, maquiando-os para provocar situações favoráveis tão somente a mim mesmo, sendo desonesto comigo e com quem convivo tanto no dia a dia como eventualmente, não existe bom ou mau ladrão existe o roubo e quem o exerceu independente da relevância do valor, de fato importa a disciplina interna de construir relações justas comigo e com os outros.      

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