Não me reconheci,
ouvi trinta e quatro reais, coloquei uma nota de cem na mão do caixa e recebi
setenta e seis, devo ter escutado mal era vinte e quatro, na matemática sou
forte tinha recebido dez a mais de troco, que foi fazer companhia às poucas
notas que tinha no bolso, quanto à audição, bem! Não sei mais, talvez só escute
“o que” e ”o como” que quero ouvir, comecei a fazer malabarismos de raciocínio
tipo “esse lanche não vale tudo isso”, “o caixa não iria errar em exatos dez
reais”, “a quebra de caixa garante esse pequeno valor”, “a empresa tem isso
previsto na conta lucros & perdas”, entre outros.
Nesse dia tinha
saído cedo do escritório, chegando ao shopping logo na entrada me encontrei com
minha irmã em um desses cafés sofisticados tão comuns nesses ambientes, não
realmente não gosto de centros comerciais fechados, prefiro bares e cafés ao ar
livre, claro que nessa preferência encontra-se também a vontade forte de degustar
as minhas cigarrilhas, ela me esperava com um pedido já engatilhado de dois
cafés, o meu tem que ser duplo é claro, uns pãezinhos de queijo além do bolo de
espinafre que ela estava a degustar, sairíamos após o lanche para fazer umas
compras no supermercado.
Saindo em direção
ao local das compras passei no caixa para acertar a despesa e vivi o momento acima
relatado, me cobraram o valor incorreto, pior foi a menos e com isso me beneficiava,
coloquei o troco na carteira e fiquei me convencendo que estava tudo certo, as
compras no supermercado eram poucas, mas todo o tempo estive com assunto do
acerto, não me saia da cabeça, ao ir embora não resisti e puxei o assunto com
minha irmã, indiretamente é claro, comentei o valor referindo-me ao baixo preço,
ela de imediato me contestou, levando-me a ter certeza que o valor maior era o
correto.
Como o caixa do
café estava em meu caminho de saída, dirigi-me ao mesmo e perguntei-lhe sobre a
possibilidade de calcular o valor novamente, conforme relatávamos o consumo ele
pesquisava os preços e na calculadora fazia suas contas, estava nervoso, achou
um valor diferente próximo do mais alto, não tive duvidas peguei na carteira
dez reais e disse “recebi troco a mais estou lhe devolvendo”, satisfeito por
ter me redimido, aborrecido por ter tentado trapacear comigo mesmo e tão
facilmente predispor-me a ficar com o que não era meu, que por certo iria fazer
falta ao caixa.
Sai convencido
que tenho que aumentar a autovigilância, pois percebi que sempre posso manipular
os meus pensamentos, maquiando-os para provocar situações favoráveis tão
somente a mim mesmo, sendo desonesto comigo e com quem convivo tanto no dia a
dia como eventualmente, não existe bom ou mau ladrão existe o roubo e quem o exerceu
independente da relevância do valor, de fato importa a disciplina interna de
construir relações justas comigo e com os outros.
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