A vida
acontecendo na repetição circular da normalidade, entre caminhadas, livros,
filmes e o trabalho, era um domingo, e enquanto me distraia fumando uma
cigarrilha interrompe-me pela manhã um jovem vizinho a questionar-me de supetão
– “Será que vai acontecer algo hoje à tarde? como vai ser lá?".
Surpreendi-me, do
que será que ele estava falando, foi por apenas um instante, logo me refiz,
porém ele percebeu minha perplexidade e continuou - “Cai a Dilma? Teremos impugnação?
Como termina à tarde?", e assim comentava sua insatisfação, expectativas e
a vontade de participar das manifestações à tarde.
Fui recuperando
na memória aos poucos as outras surpresas que tive nos quinze dias anteriores a
esse encontro, pequenos achados, ocorrências insensatas, desconectadas. Por exemplo,
encontrar em um jornal uma notícia de um possível desabastecimento nos
supermercados, lembro-me bem e juro que não entendi, tem uma excelente safra à
vista e uma superoferta de bens duráveis, meu sentimento é que, ao contrário, quem
está correndo atrás de compradores é o comércio.
Enquanto
escutava-o, ele jovem ainda na faixa dos 25 a 35 anos, a falar-me em mudança
nos rumos e nos nomes do governo federal, visualizei em pensamento de outra
nota na mídia desmentindo uma possível intervenção militar, como assim intervenção
militar?! Não há nem ambiente no exército para isso, menos ainda vontade
americana de se envolver em aventuras desse tipo em seu quintal, pois já estão
bastante ocupados com seus outros campos de batalha.
O rapaz estava entusiasmado,
seguia seu discurso querendo saber se eu iria me engajar no movimento que
ocorreria à tarde, confirmei ausência falando da falta de embasamento legal
para qualquer mudança e novamente me assaltou a visão dos grandes espaços de mídia,
para o diário anunciar de um novo recorde no valor do dólar, mas em nenhuma notícia
encontrei dados sobre a quantidade negociada, o que permitiria ver, sendo essa
significativa, um prenúncio de problema, nulas referências à validade no câmbio
mundial dessa aproximação do valor do euro, sim me trouxe a nítida sensação de
superficialidade orquestrada.
Aí está o Boato, ou
melhor, uma central de boatos, tentando reproduzir o pré-64, tentando
aproveitar o espaço gerado pelas importantes manifestações do ano passado,
tentando aproveitar-se de dificuldades óbvias do momento em que anos e anos de
corrupção tornam-se visíveis, para construir uma mudança rumo à direita,
espalhar boatos sempre foi uma opção de administração da opinião pública e
criação de espaço para manifestações populares somados a dissertações
escritas, vídeos e tiradas humorísticas nas redes sociais, temos aí então um
prato cheio para cruzadas vazias de conteúdo e repletas de golpismo.
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