terça-feira, 24 de março de 2015

O Boato

     A vida acontecendo na repetição circular da normalidade, entre caminhadas, livros, filmes e o trabalho, era um domingo, e enquanto me distraia fumando uma cigarrilha interrompe-me pela manhã um jovem vizinho a questionar-me de supetão – “Será que vai acontecer algo hoje à tarde? como vai ser lá?".

     Surpreendi-me, do que será que ele estava falando, foi por apenas um instante, logo me refiz, porém ele percebeu minha perplexidade e continuou - “Cai a Dilma? Teremos impugnação? Como termina à tarde?", e assim comentava sua insatisfação, expectativas e a vontade de participar das manifestações à tarde.

     Fui recuperando na memória aos poucos as outras surpresas que tive nos quinze dias anteriores a esse encontro, pequenos achados, ocorrências insensatas, desconectadas. Por exemplo, encontrar em um jornal uma notícia de um possível desabastecimento nos supermercados, lembro-me bem e juro que não entendi, tem uma excelente safra à vista e uma superoferta de bens duráveis, meu sentimento é que, ao contrário, quem está correndo atrás de compradores é o comércio.

     Enquanto escutava-o, ele jovem ainda na faixa dos 25 a 35 anos, a falar-me em mudança nos rumos e nos nomes do governo federal, visualizei em pensamento de outra nota na mídia desmentindo uma possível intervenção militar, como assim intervenção militar?! Não há nem ambiente no exército para isso, menos ainda vontade americana de se envolver em aventuras desse tipo em seu quintal, pois já estão bastante ocupados com seus outros campos de batalha.

     O rapaz estava entusiasmado, seguia seu discurso querendo saber se eu iria me engajar no movimento que ocorreria à tarde, confirmei ausência falando da falta de embasamento legal para qualquer mudança e novamente me assaltou a visão dos grandes espaços de mídia, para o diário anunciar de um novo recorde no valor do dólar, mas em nenhuma notícia encontrei dados sobre a quantidade negociada, o que permitiria ver, sendo essa significativa, um prenúncio de problema, nulas referências à validade no câmbio mundial dessa aproximação do valor do euro, sim me trouxe a nítida sensação de superficialidade orquestrada. 


     Aí está o Boato, ou melhor, uma central de boatos, tentando reproduzir o pré-64, tentando aproveitar o espaço gerado pelas importantes manifestações do ano passado, tentando aproveitar-se de dificuldades óbvias do momento em que anos e anos de corrupção tornam-se visíveis, para construir uma mudança rumo à direita, espalhar boatos sempre foi uma opção de administração da opinião pública e criação de espaço para manifestações populares somados a dissertações escritas, vídeos e tiradas humorísticas nas redes sociais, temos aí então um prato cheio para cruzadas vazias de conteúdo e repletas de golpismo. 

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