segunda-feira, 2 de março de 2015

Griffith: um Manifesto à Escravidão.

     Polêmico? Só na boa vontade de alguns apaixonados pelo cinema, por problemas de administração de meu tempo pessoal, assisti, mas não consegui participar do debate sábado na sala de cinema P. F. Gastal ao término do filme "O Nascimento de Uma Nação, de D. W. Griffith", mas não vou fugir de manifestar minha opinião. O filme é um primor de catecismo fascista que glorifica o branco ocidental, bestializa o negro africano e ridiculariza os brancos abolicionistas, um verdadeiro manifesto escravocrata a serviço dos poderosos sulistas americanos.

     Não pretendo julgar Griffith e sua obra por um filme, confesso que não conheço toda a sua filmografia, mas sim quero analisar essa obra específica, realmente é uma superprodução para o ano 1915 e localizo muita qualidade, muita arte nas imagens geradas, se bem aprendi com Leonardo Bomfim, no workshop "Primeiro Cinema", todos os recursos utilizados já estavam presentes em obras de Lumière, Méliès e contemporâneos destes menos conhecidos, logo nós não estamos precisamente falando de inovação, o que por certo não lhe tira as qualidades de grande diretor que era Griffith, e sim atesta que essa obra era resultado um forte investimento para defender uma ideia, o racismo, havia muitos recursos entre os poderosos para financiar este monumento à insanidade humana.

     A ideologia fascista presente no filme é tão forte que apela sucessivas vezes para uma pretensa ideia de neutralidade, de só mostrar fatos históricos, transformando a guerra civil americana, conhecida como guerra da secessão, em uma batalha entre negros e brancos. Sabemos, a história nos mostra, que os negros na época não tinham condições mínimas de estabelecer uma guerra, apenas envolveram-se nesta por convocação dos brancos que tinham no norte em fase de industrialização um contraponto ao sul da oligarquia rural.

     Os mocinhos da fita, as duas famílias uma nortista e outra sulista, no filme são a própria imagem da beleza, pureza e perfeição branca, chegam a beirar a impossibilidade as cenas destes personagens com estigmas de exuberante bondade, alegria e vocação para o amor, feitas pelo diretor do filme.
     Os negros e seus amigos brancos são ridicularizados ao extremo para mostrar sua pretensa inferioridade, são feios, perversos, lascivos e traiçoeiros, até a fraude eleitoral quando operada por negros é considerada um ato de violência, porém realizada por brancos apresenta-se como uma intimação justiceira para recolocar as coisas nos eixos, a vitória dos de sempre.


     Não posso aceitar como justificativa a época de 1915 para tanta selvageria, para tanto preconceito, não posso esquecer que a revolução francesa da liberdade, fraternidade e igualdade tinha ocorrido há mais de cem anos, posso sim compreender que nosso Griffith colocou suas belíssimas imagens a serviço do poder econômico rural/feudal nesse momento inicial do capitalismo americano, não que os gestores da nascente indústria pensassem diferente, apenas eles necessitavam mudar o modelo de escravidão para seus novos interesses.   

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