Polêmico? Só na
boa vontade de alguns apaixonados pelo cinema, por problemas de administração
de meu tempo pessoal, assisti, mas não consegui participar do debate sábado na
sala de cinema P. F. Gastal ao término do filme "O Nascimento de Uma
Nação, de D. W. Griffith", mas não vou fugir de manifestar minha opinião.
O filme é um primor de catecismo fascista que glorifica o branco ocidental,
bestializa o negro africano e ridiculariza os brancos abolicionistas, um verdadeiro
manifesto escravocrata a serviço dos poderosos sulistas americanos.
Não pretendo
julgar Griffith e sua obra por um filme, confesso que não conheço toda a sua filmografia,
mas sim quero analisar essa obra específica, realmente é uma superprodução para
o ano 1915 e localizo muita qualidade, muita arte nas imagens geradas, se bem aprendi
com Leonardo Bomfim, no workshop "Primeiro Cinema", todos os recursos
utilizados já estavam presentes em obras de Lumière, Méliès e contemporâneos
destes menos conhecidos, logo nós não estamos precisamente falando de inovação,
o que por certo não lhe tira as qualidades de grande diretor que era Griffith, e
sim atesta que essa obra era resultado um forte investimento para defender uma
ideia, o racismo, havia muitos recursos entre os poderosos para financiar este
monumento à insanidade humana.
A ideologia fascista
presente no filme é tão forte que apela sucessivas vezes para uma pretensa ideia
de neutralidade, de só mostrar fatos históricos, transformando a guerra civil
americana, conhecida como guerra da secessão, em uma batalha entre negros e
brancos. Sabemos, a história nos mostra, que os negros na época não tinham
condições mínimas de estabelecer uma guerra, apenas envolveram-se nesta por
convocação dos brancos que tinham no norte em fase de industrialização um
contraponto ao sul da oligarquia rural.
Os mocinhos da
fita, as duas famílias uma nortista e outra sulista, no filme são a própria
imagem da beleza, pureza e perfeição branca, chegam a beirar a impossibilidade
as cenas destes personagens com estigmas de exuberante bondade, alegria e
vocação para o amor, feitas pelo diretor do filme.
Os negros e seus
amigos brancos são ridicularizados ao extremo para mostrar sua pretensa
inferioridade, são feios, perversos, lascivos e traiçoeiros, até a fraude
eleitoral quando operada por negros é considerada um ato de violência, porém
realizada por brancos apresenta-se como uma intimação justiceira para recolocar
as coisas nos eixos, a vitória dos de sempre.
Não posso aceitar
como justificativa a época de 1915 para tanta selvageria, para tanto
preconceito, não posso esquecer que a revolução francesa da liberdade,
fraternidade e igualdade tinha ocorrido há mais de cem anos, posso sim compreender
que nosso Griffith colocou suas belíssimas imagens a serviço do poder econômico
rural/feudal nesse momento inicial do capitalismo americano, não que os
gestores da nascente indústria pensassem diferente, apenas eles necessitavam
mudar o modelo de escravidão para seus novos interesses.
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