domingo, 17 de janeiro de 2016

Carrego a Culpa com Dignidade.

     Pode parecer contraditório entre a responsabilidade por dano e a qualidade moral que infunde respeito não parece haver pontes possíveis, garanto que esse conflito eu transporto no corpo desde sempre e caminham lado a lado sem se desmerecerem a culpa e a dignidade, tem-me sido impossível ser bem-sucedido em todas as atitudes direcionadas a compor com outrem um mecanismo qualquer de vivência, mesmo que gratifique muito todas as partes por longos tempos são fadadas a decomporem-se o que sempre envolve falta.   

     Dediquei-me mais de uma vez a organizar uma família, o saldo foi positivo, mais até do que eu merecia, mesmo que todas as tentativas tenham fracassado, minha responsabilidade nesse insucesso é total, isso é convicção que tenho não necessitando mais do que entender meus mecanismos internos para saber da inviabilidade dessa empreitada, tendo eu como parte integrante, alcançar alguma perenidade.    

     Das pedras que não me jogo, falta de compreensão e atenção à parceira é uma delas, bem como o permanente incentivo ao desenvolvimento individual dela com, se possível, nenhuma interferência minha além de apoiar, já a teimosia de viver tão somente por minhas pernas e ideias é uma carapuça que visto e assumo como necessária, mesmo sabendo que deságua na insustentabilidade da instituição com a mesma inevitabilidade que o rio corre ao mar, que fazer senão tentar ser uno na construção do partilhado.

    Ao redor da cerveja ou do café, sim mesa partilhada ora por um filho, o mais novo, pouco mais de quarenta anos diferença, ora por outro, o mais velho, com vinte cinco a menos, a conversa por igual, ideias arejadas de ambos os lados debate conceitual sobre a existência e os rituais que nos são exigidos no dia a dia, sempre com a delicadeza do respeito ao ato do outro pensar, ganham todos, e em mim pelo menos a culpa torna-se aceitável pelos resultados prazerosos que essa convivência me traz.

     Do mesmo modo ao partilhar minha prosa nos saraus de um dos filhos, o do meio, ou frequentar as oportunidades de exercer a paixão pelo cinema com a minha filha, a única mulher, encontramos sempre caminhos comuns que vivem seu auge quando juntos agregados de especiais amigos de cada um curtimos um churrasco regado do bom debate.        


     As estruturas não se mantiveram possíveis de serem mantidas, é uma culpa que posso bem carregar comigo, mas só o posso por um imensurável valor de pessoas que sobreviveram a esse desabamento, que se danem as instituições que sejam louvadas as pessoas e suas dignidades. 

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