Pode parecer
contraditório entre a responsabilidade por dano e a qualidade moral que infunde
respeito não parece haver pontes possíveis, garanto que esse conflito eu
transporto no corpo desde sempre e caminham lado a lado sem se desmerecerem a
culpa e a dignidade, tem-me sido impossível ser bem-sucedido
em todas as atitudes direcionadas a compor com outrem um mecanismo qualquer de
vivência, mesmo que gratifique muito todas as partes por longos tempos são fadadas
a decomporem-se o que sempre envolve falta.
Dediquei-me mais
de uma vez a organizar uma família, o saldo foi positivo, mais até do que eu
merecia, mesmo que todas as tentativas tenham fracassado, minha
responsabilidade nesse insucesso é total, isso é convicção que tenho não
necessitando mais do que entender meus mecanismos internos para saber da
inviabilidade dessa empreitada, tendo eu como parte integrante, alcançar alguma
perenidade.
Das pedras que
não me jogo, falta de compreensão e atenção à parceira é uma delas, bem como o
permanente incentivo ao desenvolvimento individual dela com, se possível,
nenhuma interferência minha além de apoiar, já a teimosia de viver tão somente
por minhas pernas e ideias é uma carapuça que visto e assumo como necessária,
mesmo sabendo que deságua na insustentabilidade da instituição com a mesma
inevitabilidade que o rio corre ao mar, que fazer senão tentar ser uno na
construção do partilhado.
Ao redor da
cerveja ou do café, sim mesa partilhada ora por um filho, o mais novo, pouco
mais de quarenta anos diferença, ora por outro, o mais velho, com vinte cinco a
menos, a conversa por igual, ideias arejadas de ambos os lados debate
conceitual sobre a existência e os rituais que nos são exigidos no dia a dia,
sempre com a delicadeza do respeito ao ato do outro pensar, ganham todos, e em
mim pelo menos a culpa torna-se aceitável pelos resultados prazerosos que essa
convivência me traz.
Do mesmo modo ao
partilhar minha prosa nos saraus de um dos filhos, o do meio, ou frequentar as
oportunidades de exercer a paixão pelo cinema com a minha filha, a única
mulher, encontramos sempre caminhos comuns que vivem seu auge quando juntos
agregados de especiais amigos de cada um curtimos um churrasco regado do bom
debate.
As estruturas não
se mantiveram possíveis de serem mantidas, é uma culpa que posso bem carregar
comigo, mas só o posso por um imensurável valor de pessoas que sobreviveram a esse
desabamento, que se danem as instituições que sejam louvadas as pessoas e suas
dignidades.
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