sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Bom Cinema Sempre Atual

    Quando falo em cinema todo dia para mim é dia de espetáculo, no último fim de semana meus momentos de cinéfilo aconteceram com um primor de qualidade, estou falando de filmes destes ótimos diretores: o britânico David Lean e o iraniano Abbas Kiarostami, falando de películas dirigidas no século recém-terminado, na década de cinquenta (A Ponte do Rio Kwai, 1957, Lean), setenta (A Filha de Ryan, 1970, Lean) e noventa (A vida continua, 1991, Kiarostami), praticamente 8 horas intercaladas entre intervalos destinados de reflexão e pura arte composta por preciosas descrições de seres humanos e seu meticuloso jogo de inteligência na participação do palco social.

     Tudo aconteceu na Cinemateca Capitólio, alegria de sessões sempre com casa cheia, todos os merecidos créditos aos dedicados gestores deste grande espaço cultural e às lideranças do grupo de estudos Aurora para as quais o cinema é paixão e prioridade, o ano de 2016 continua me mostrando como norte o caminho de bons frutos a serem colhidos na cultura e nas relações pessoais, hei de saber saboreá-los, podem apostar.

     O ridículo da guerra desaba sobre nossas cabeças como a construída/destruída ponte do Rio Kwai, na exposição dos protagonistas aos absurdos gerados no entorno do combate, a imagem em movimento contempla uma fotografia selvagem e bela como é a característica da Tailândia, apesar de rodado na verdade no Sri Lanka, com a incorporação das distintas personalidades exibidas pelos atores que nos apresentam uma leitura especial do ser humano e suas verdades individuais expostas a situações adversas geradas pelas estruturas de poder e suas exigências.

     O povo irlandês e sua maneira característica de enfrentar as adversidades é o que nos mostra a filha de Ryan, onde o domínio inglês, a população subjugada e seu movimento de libertação são o pano de fundo para as diversas personalidades desfilarem, encontramos muita paixão correspondendo a corajosas atitudes políticas e individuais, encontramos covardia acompanhada de culpa e traição, encontramos o trauma físico e psicológico da guerra, principalmente encontramos pessoas que erram e acertam enfrentando a difícil tentativa de viver, além das paisagens lindas com seus rochedos e seu encontro com o mar.


     O terremoto sendo seguido em seu rastro de destruição por um diretor de cinema com seu filho é o terceiro do conjunto de filmes, vi-o no fim da manhã do sábado, tem nas imagens da natureza profanada pelo homem, natureza esta que em sua reação transforma quase tudo construído pelo homem em demolição, um carro em movimento abre uma janela para a observação deste Irã e em suas paradas estratégicas encontra a dor da perda vivida por cada um dos sobreviventes como encaram a perda e a necessidade de seguir adiante apesar do tamanho da hecatombe, a simplicidade das relações pessoais e a humildade do povo ao enfrentá-la é a grande marca deste ótimo “A vida continua”.

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