quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Encantamento o Canto da Sereia

     Hollywood nos ensinou a ver seres metade mulher metade peixe, são lindas e encantadoras as ditas sereias, andam pela terra causando fortes emoções em quem as vê, nem que seja tão somente nos filmes, quase todos nós sabemos que na antiguidade essas criaturas eram conceitualmente definidas como muito feias, mas quando cantavam sim senhores quando soltavam a voz não tinha quem lhes resistisse, o canto era o seu sublime encanto.

     Não está longe de ser um sonho universal de consumo a magia de camaleão que nos transforma na cabeça do outro no seu objeto de desejo, assim como a sereia que nos prende, nos escraviza ao seu poder de sedução, também queremos na convivência com quem pretendemos partilhar nossas causas envolvê-los nestas teias delicadas da ilusão.

     Não é todo o dia que abrimos as portas para a negociação, também nem sempre ela aparece como tal, por vezes é apenas um disfarce, uma sutileza que esconde uma imposição, é assim que somos, assim que funcionamos buscando os argumentos certos para o convencimento do outro independente de em nós tê-lo como interna razão, prometemos-lhe o que dele queremos cobrar tornando-o refém dos nossos desejos.

     Há momentos que, com o pretexto de abrirmos uma relação harmoniosa, cobramos do outro um pacto de aceitação mútua de atitudes espelhadas, caso não o queiras deves retirar-te ou ajusta-te as minhas ideias ou apronta-te para outra relação, em outras palavras o queremos moldado aos nossos sonhos encantado por nós exercendo o papel de sereia.

     Passamos a vida treinando dizer a coisa certa para a pessoa adequada, tanto o fazemos que dos nossos argumentos afastam-se a justiça e a verdade, sobrando apenas os fins para validá-los e justificá-los, toda a palestra destina-se então somente ao domínio almejado, nunca o objetivo é a busca de entendimento, assim corrigimos as frases conforme os fins desejados, não passando incólume das egoístas razões da meta pessoal a alcançar.

     Urge aumentarmos o silêncio do ouvir, aquele silêncio do ruminar as palavras na direção da compreensão do seu sentido que só pode existir agregado ao conhecer de quem as fala, colocando-se no contexto da disposição ao entendimento, extraindo o conteúdo não gramatical e sim de representação do ser e da sua existência e sua tentativa de se manifestar através delas.


     Quando as palavras colocam-se assim a serviço de ajudar a ver interiores de pessoas, auxiliar a sermos olhados em nossas essências, normalmente são poucas em número e sem pressa de acontecerem como companhia preciosa da prontidão sentinela de todos os nossos sentidos.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário