sábado, 22 de agosto de 2020

Noite o Crepitar do Fogo Cercado de Humanos.

                 Nossa memória, que como sabemos sempre rouba no jogo, seletiva como o é, separa os melhores e piores momentos com os bons propósitos de nos proteger, quem dentre nós não tem no entorno da fogueira alguns de seus mais alegres momentos, talvez esta seja a melhor imagem de uma comunidade igualitária.  

 

                Do fogo emana uma mistura de ruídos e sombras que se espalham acompanhados pelo calor nas mentes fantasiosas de cada um dos que o circundam, a luz que dele emana contrasta com a escuridão mechada pelas tênues luzes dos astros celestes, deste ambiente polarizado nascem as alegrias, os medos e os prazeres.

 

                Equidistantes do centro recebemos de modo igualitário as benesses do fogo estabelecendo uma cadeia de afeto no perímetro do círculo, onde mantemos nossa individualidade exercendo plenamente nossa vocação comunitária.

 

                A força do todo sobrepõe-se as fraquezas e fortalezas de cada um, cria-se um clima para confidências, para desafios, para a arte de contar histórias, crescem as fantasias de cada um, distribuem-se melhor os sentimentos e por certo crescemos juntos derrubando desafetos construindo pontes entre nós.

 

                Lembrei-me disto ao pensar na sociedade humana que gostaria ver construir-se, algo assim como um momento de fogueira, onde pudéssemos usar menos subterfúgios, onde tivéssemos as mesmas benesses, cada um equidistante do centro, onde a soma dos talentos formasse um conjunto harmonioso.

 

                Nosso trabalho é apenas manter o fogo acesso, cada pedaço de galho que jogamos na fogueira distribui calor para todos, e a necessidade de fazê-lo está presente em cada um sem que ninguém necessite ordenar, que é como sabemos inato ao ser humano.

 

                Nossa arte é apenas contar as histórias que o próprio ambiente e a força do círculo comunitário fazem nascer e crescer dentro de nós, não há roteiros pré-definidos, não há regras apenas a vontade de espalhar o momento de nosso pensamento para todos.

 

                Não há prêmios, a não ser o de sentirmo-nos únicos, mas parte de um todo irmanado, não julgamos as histórias que ouvimos apenas nos instigamos a contar a nossa, vivemos uma provocação positiva de criatividade.

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