Nossa memória, que como sabemos sempre rouba no jogo, seletiva como o é, separa os melhores e piores momentos com os bons propósitos de nos proteger, quem dentre nós não tem no entorno da fogueira alguns de seus mais alegres momentos, talvez esta seja a melhor imagem de uma comunidade igualitária.
Do fogo
emana uma mistura de ruídos e sombras que se espalham acompanhados pelo calor
nas mentes fantasiosas de cada um dos que o circundam, a luz que dele emana contrasta
com a escuridão mechada pelas tênues luzes dos astros celestes, deste ambiente
polarizado nascem as alegrias, os medos e os prazeres.
Equidistantes
do centro recebemos de modo igualitário as benesses do fogo estabelecendo uma
cadeia de afeto no perímetro do círculo, onde mantemos nossa individualidade exercendo
plenamente nossa vocação comunitária.
A força
do todo sobrepõe-se as fraquezas e fortalezas de cada um, cria-se um clima para
confidências, para desafios, para a arte de contar histórias, crescem as
fantasias de cada um, distribuem-se melhor os sentimentos e por certo crescemos
juntos derrubando desafetos construindo pontes entre nós.
Lembrei-me
disto ao pensar na sociedade humana que gostaria ver construir-se, algo assim
como um momento de fogueira, onde pudéssemos usar menos subterfúgios, onde tivéssemos
as mesmas benesses, cada um equidistante do centro, onde a soma dos talentos
formasse um conjunto harmonioso.
Nosso
trabalho é apenas manter o fogo acesso, cada pedaço de galho que jogamos na
fogueira distribui calor para todos, e a necessidade de fazê-lo está presente
em cada um sem que ninguém necessite ordenar, que é como sabemos inato ao ser
humano.
Nossa
arte é apenas contar as histórias que o próprio ambiente e a força do círculo comunitário
fazem nascer e crescer dentro de nós, não há roteiros pré-definidos, não há
regras apenas a vontade de espalhar o momento de nosso pensamento para todos.
Não há
prêmios, a não ser o de sentirmo-nos únicos, mas parte de um todo irmanado, não
julgamos as histórias que ouvimos apenas nos instigamos a contar a nossa,
vivemos uma provocação positiva de criatividade.
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