O que vejo
confortavelmente sentado nas poltronas da sala de exibição é o filme Carol e
suas múltiplas janelas abertas, são mulheres fortes, na película quase todas o
são independente do seu posicionamento em relação à vida, Carol, sua amiga, sua
sogra e a sua nova paixão, os homens fracos sem alma própria são personagens
escondidos na fragilidade da casca masculina o que vale tanto para o marido de
Carol como para o pai deste, estendido aos pretendentes as graças da jovem
balconista da loja.
Pela janela por
qual olha Marx, o filme nos mostra a flagrante diferença de classes entre os
trabalhadores das lojas, suas bicicletas e seus sanduíches em singelos
apartamentos, contraposta pela vida burguesa com seus carrões sofisticados e jantares
em casas espetaculares, comprando trens elétricos de brinquedo para seus filhos
que representam muitos meses de salário dos vendedores oprimidos que vemos a
partir do simples detalhe da obrigação de usar um gorro de Papai Noel que não
lhes agrada, passando pelo aguentar a cara feia de um chefe por uma ligação
telefônica recebida até chegarmos à despojada situação econômica em que vivem.
Já do ponto de
vista da janela de Freud por certo o mesmo encontraria uma grande oportunidade
de confirmação de suas descobertas ao analisar o Marido de Carol, inseguro,
vingativo, chantagista e dependente, destruído pelo controle absoluto da
poderosa matriarca que é sua mãe, só a cena do jantar onde a mãe reina absoluta
sobre um esposo encolhido e um filho inseguro, dando as cartas e jogando de
mão, lhe serviria para exemplificar muitas de suas teses, ela comando os dois na
festa sutil de comemoração de uma aparente vitória sobre Carol aí presente.
Se o voyeur é Tolstoi
de sua janela encontra justificativas evidentes para seu anarquismo pacifista e
uma resposta maravilhosa com Carol contra o governo representado pelos pares da
pretensa justiça, são apenas bonecos entretidos em armações para submeter Carol
ao pseudopoder do marido que nada mais é que a opressão da moral social
institucionalizada, o que não o conseguem pela força demonstrada pela
protagonista ao encontrar a solução do dilema escolher entre a filha amada e o
direito a sua opção de vida, aposta na vida como sendo a única que abrirá novos
caminhos para a própria filha, sugere ficar sem guarda da mesma desde que com garantia
de direito de convívio.
Gostei muito do
filme, um dos melhores entre os atuais, romântico não como conto de fadas e sim
pela construção interna de uma convicção do gostar, a jovem com a simplicidade
de quem sabe ler-se e como consequência decidir, diz os “NÃO” e os “SIM”
adequados a sua vontade interior, mas não param aí seus talentos: mostra-se
capaz de gerar as oportunidades, de fazer acontecer seus desejos íntimos com
total independência em relação moral vigente, recomendo para os amigos assistir,
não vão se arrepender.
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