Atordoado, foi
assim que sai do Cine Bancários depois de ver o filme grego "Miss
Violence" de Alexandro Avranas, são 98 minutos de violência em estado puro
não imaginava ser possível filmá-la assim minuto a minuto, em todas as
expressões faciais dos personagens, em todos os ambientes onde circulavam, em
todas as palavras ditas em todos os movimentos executados, sim tão aturdido que
a presença da violência não me permitia nem mesmo consternação para com as vítimas,
ela tomava conta completa da minha atenção sem poder exercitar outro sentimento
que não fosse o de permanente horror.
E era uma
violência limpa, asséptica, cirúrgica, fascista, de poder absoluto sobre as
pessoas, e realizada em família, entre quatro paredes, organizada através do domínio
absoluto deste pequeno círculo por um gelado machista, autoritário em casa submisso
na sociedade, sendo retratados nesse espécime frio todos os atos que sabemos
acontecem distribuídos entre inúmeras pessoas na humanidade, como se fosse o
anticristo que concentrou em si toda a violência possível e a viveu, assim como
Cristo concentrou todos os pecados dos homens para redimi-los.
Mas além de nos mostrar
esse pequeno mundo fechado, o cineasta ainda conseguiu abrir-nos os olhos para
a completa incapacidade dos mecanismos sociais de evitá-lo, no máximo o que se
conseguiu no tempo de duas gerações oprimidas foi uma leve suspeita, isso graças
ainda a menina de onze anos que se suicida no dia do seu aniversário, ou seja,
se não há uma iniciativa partindo das vítimas nem suspeita haveria, assim como
o próprio derrotar da violência ocorreu dentro do próprio grupo, quando a mesma
ultrapassou todos os limites suportáveis em relação à exploração sexual e psicológica.
A manifestação de
poder fascista era tão grande que a esposa, a filha, e a terceira geração, três
meninas e um menino (talvez netos, talvez filhos do personagem, sempre de pais
desconhecidos) pareciam bonecos de um show de ventríloquo: moviam os lábios,
porém as palavras dele eram, tinham suas expressões faciais controladas por
ele, e eles se moviam dentro e fora desse mundo fechado, expostos à vigilância
permanente comportando-se como marionetes que ele manipulava fio a fio, impondo
medos constantes onde pequenas transgressões eram punidas com rituais de
castigos que deixavam claro que o pequeno clã só existia em função das
necessidades específicas do personagem central e de seu egocentrismo.
Saí do cinema convicto de que, apesar de estarmos em uma sociedade de alta
exposição individual, o que vemos é tão somente a imagem que cada um deseja ou
é obrigado a nos mostrar, sendo completamente impossível desvendar o que se
encontra por trás dessa, a mim pelo menos foi essa a mensagem que me passou o
autor, sempre ressalvando que o filme do ângulo do espectador pode não ter nada
a ver com o do diretor.
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