segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Um Filme e a imagem da Violência em Estado Puro.

     Atordoado, foi assim que sai do Cine Bancários depois de ver o filme grego "Miss Violence" de Alexandro Avranas, são 98 minutos de violência em estado puro não imaginava ser possível filmá-la assim minuto a minuto, em todas as expressões faciais dos personagens, em todos os ambientes onde circulavam, em todas as palavras ditas em todos os movimentos executados, sim tão aturdido que a presença da violência não me permitia nem mesmo consternação para com as vítimas, ela tomava conta completa da minha atenção sem poder exercitar outro sentimento que não fosse o de permanente horror.

     E era uma violência limpa, asséptica, cirúrgica, fascista, de poder absoluto sobre as pessoas, e realizada em família, entre quatro paredes, organizada através do domínio absoluto deste pequeno círculo por um gelado machista, autoritário em casa submisso na sociedade, sendo retratados nesse espécime frio todos os atos que sabemos acontecem distribuídos entre inúmeras pessoas na humanidade, como se fosse o anticristo que concentrou em si toda a violência possível e a viveu, assim como Cristo concentrou todos os pecados dos homens para redimi-los.

     Mas além de nos mostrar esse pequeno mundo fechado, o cineasta ainda conseguiu abrir-nos os olhos para a completa incapacidade dos mecanismos sociais de evitá-lo, no máximo o que se conseguiu no tempo de duas gerações oprimidas foi uma leve suspeita, isso graças ainda a menina de onze anos que se suicida no dia do seu aniversário, ou seja, se não há uma iniciativa partindo das vítimas nem suspeita haveria, assim como o próprio derrotar da violência ocorreu dentro do próprio grupo, quando a mesma ultrapassou todos os limites suportáveis em relação à exploração sexual e psicológica.

     A manifestação de poder fascista era tão grande que a esposa, a filha, e a terceira geração, três meninas e um menino (talvez netos, talvez filhos do personagem, sempre de pais desconhecidos) pareciam bonecos de um show de ventríloquo: moviam os lábios, porém as palavras dele eram, tinham suas expressões faciais controladas por ele, e eles se moviam dentro e fora desse mundo fechado, expostos à vigilância permanente comportando-se como marionetes que ele manipulava fio a fio, impondo medos constantes onde pequenas transgressões eram punidas com rituais de castigos que deixavam claro que o pequeno clã só existia em função das necessidades específicas do personagem central e de seu egocentrismo.

     Saí do cinema convicto de que, apesar de estarmos em uma sociedade de alta exposição individual, o que vemos é tão somente a imagem que cada um deseja ou é obrigado a nos mostrar, sendo completamente impossível desvendar o que se encontra por trás dessa, a mim pelo menos foi essa a mensagem que me passou o autor, sempre ressalvando que o filme do ângulo do espectador pode não ter nada a ver com o do diretor.      

     

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