Repetimo-nos
apesar das constantes mutações, sociedade de muitos rostos para uma mesma alma,
o importante é manejar o imaginário de uma modernidade que nos é apresentada
como o estágio superior, embora assentada sobre as mesmas bases de desde sempre,
a servidão, independente de como essa se disfarce.
Recomendam-nos a máscara
de empresário, por todos os lados ouvimos é esse o momento, todo o tipo de
incentivo é proposto para que as pessoas estabeleçam-se como entidades
jurídicas, buscando estruturas de inovação que lhe darão o sucesso almejado,
infelizmente tal qual apostar na loteria, são milhares de apostadores sonhando com
um prêmio que obrigatoriamente elege suas minorias em detrimento da maioria que
paga a conta, pois distribuir elimina a magia que escraviza.
Joga-se ainda o
mesmo jogo, de uma elite diminuta de homens livres e muitos servos, a
sofisticação da economia e da tecnologia desloca o centro dessa divisão sempre
mais em direção ao aumento dos servos e na diminuição dos homens livres, a
ponto de hoje nos perguntarmos se os homens livres ainda existem e se não
teríamos construído um mecanismo social que os tenha eliminado.
Os mecanismos de opressão
aumentam de complexidade à medida que os tempos avançam, criamos imaginários
associados aos sorteados casos de sucesso, que nos seduzem, conduzindo-nos à
livre adesão a milhares de horas trabalhadas voluntárias com condições
inimagináveis mesmo nos formatos tradicionais de servidão, baseados em planos
perfeitos que se bem aplicados nos levam sempre ao sucesso, quando o sabemos,
tal qual a loteria não existe espaço para muitos eleitos, e a multidão de
fracassos traz o bônus que será destinado ao sorteado vencedor.
O decreto é claro,
item primeiro “Todo mundo deve jogar”, item segundo “Ninguém deve saber do item
primeiro”, assim a grande maioria mal remunerada destina seu esforço físico e
intelectual para uma minoria de privilegiados e como se não bastasse isso, ainda
transferirmos um sentimento de culpa para quem jogou o jogo perdedor, por óbvio
não são os governos que o decretam é realmente um nível superior a esse, os
governos apenas são os instrumentos utilizados.
Além de movimentar
a máquina de consumo, consegue-se com esse estratagema obter soluções
interessantes e criativas a custo da ilusão de uma gigantesca força laboral de
boa fé, e se necessário quando assim decidirem intervém impondo a força
econômica para adquirir o negócio ou para fazê-lo fracassar, deixando o saldo
de uma multidão de estressados e depressivos servos, urge repensarmos essa
organização social deplorável.
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