sábado, 14 de fevereiro de 2015

Aposte é a Loteria da Livre Iniciativa.

     Repetimo-nos apesar das constantes mutações, sociedade de muitos rostos para uma mesma alma, o importante é manejar o imaginário de uma modernidade que nos é apresentada como o estágio superior, embora assentada sobre as mesmas bases de desde sempre, a servidão, independente de como essa se disfarce.

     Recomendam-nos a máscara de empresário, por todos os lados ouvimos é esse o momento, todo o tipo de incentivo é proposto para que as pessoas estabeleçam-se como entidades jurídicas, buscando estruturas de inovação que lhe darão o sucesso almejado, infelizmente tal qual apostar na loteria, são milhares de apostadores sonhando com um prêmio que obrigatoriamente elege suas minorias em detrimento da maioria que paga a conta, pois distribuir elimina a magia que escraviza.

     Joga-se ainda o mesmo jogo, de uma elite diminuta de homens livres e muitos servos, a sofisticação da economia e da tecnologia desloca o centro dessa divisão sempre mais em direção ao aumento dos servos e na diminuição dos homens livres, a ponto de hoje nos perguntarmos se os homens livres ainda existem e se não teríamos construído um mecanismo social que os tenha eliminado.

     Os mecanismos de opressão aumentam de complexidade à medida que os tempos avançam, criamos imaginários associados aos sorteados casos de sucesso, que nos seduzem, conduzindo-nos à livre adesão a milhares de horas trabalhadas voluntárias com condições inimagináveis mesmo nos formatos tradicionais de servidão, baseados em planos perfeitos que se bem aplicados nos levam sempre ao sucesso, quando o sabemos, tal qual a loteria não existe espaço para muitos eleitos, e a multidão de fracassos traz o bônus que será destinado ao sorteado vencedor.

     O decreto é claro, item primeiro “Todo mundo deve jogar”, item segundo “Ninguém deve saber do item primeiro”, assim a grande maioria mal remunerada destina seu esforço físico e intelectual para uma minoria de privilegiados e como se não bastasse isso, ainda transferirmos um sentimento de culpa para quem jogou o jogo perdedor, por óbvio não são os governos que o decretam é realmente um nível superior a esse, os governos apenas são os instrumentos utilizados.
  

     Além de movimentar a máquina de consumo, consegue-se com esse estratagema obter soluções interessantes e criativas a custo da ilusão de uma gigantesca força laboral de boa fé, e se necessário quando assim decidirem intervém impondo a força econômica para adquirir o negócio ou para fazê-lo fracassar, deixando o saldo de uma multidão de estressados e depressivos servos, urge repensarmos essa organização social deplorável.   

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