Entro no apartamento
me informam que ela está no quarto, chego lá e a vejo na cama, deitada, imóvel,
linda, muito pálida, só o rosto fora do edredom cercado de seus cabelos
brancos, em minha memória grava-se este instantâneo carregado de emoção, essa imagem
irá me perseguir a partir deste dia semana adentro, sim a fragilidade da vida
presente na minha mãe.
O alívio que
foi ver apesar de tão somente os lábios e os olhos mexerem-se, e a emoção de
ouvir a história desencontrada, como sempre, que ela passou a me contar, nem
sei se contar-me era de fato a situação, penso mais narrava, mais contava a ela
mesma, sim são somente suas essas histórias, atemporais como os sonhos,
misturando mortos e vivos, nada de noção de tempo, mistura de protagonistas
reais com situações inverossímeis.
Certo o
pensamento me traz de volta para a imagem, não propriamente a imagem, pois ela está
em constante mudança, mas as sensações do momento ficaram e emocionalmente envolvido,
tive receio e continuo vendo que tenho pouco tempo para curti-la sinto
necessidade de mais visitá-la e é difícil aceitar que o tempo esgota-se para
nós.
As imagens
movimentam coisas importantes dentro da gente, assim como as crianças que estão
nos porta-retratos ao lado da cama encontro permanente com os filhos que já não
são de convivência diária em corpo presente, porém sempre tal qual um ímã tem a
convergência do nosso pensamento atraído, seduzido pelo prazer de tê-los como
tais.
Todas as
imagens completam-se por sensações e pensamentos, são por si só um mundo em um
momento, têm a força de uma história eterna na escassez do tempo, nos permitem
sentir carinho, sentir força, sentir vida completa em nós com os outros, são um
ponto que se prolonga no infinito como uma reta do nosso existir.
Não sei se
possível é, sei que não tenho em mim condições de fazê-lo,
não tenho nenhum controle sobre as imagens que guardo e que se me apresentam no
tempo, porém independendo da minha vontade elas existem e são parcelas
importantes da minha vida, como seria bom se as tivesse sob meu controle, por
mim escolhidas e definidas, hoje me contento em simplesmente vivê-las.
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