Perplexo,
é como me sinto, nesta roda viva de mortes as quais me condenam os que deveriam
ser meus iguais, me matam por asfixia de um joelho policial, me matam com um
tiro em uma batida policial, me matam quando inconsequentes me deixam, menino, cair
de um prédio de muitos andares, mas principalmente me matam a cada comentário
destinado a justificar meus assassinos.
Se lhes
lembro destas minhas mortes é por saber que somos muitos a morrer nestes dias insanos
do século XXI, logo nós humanidade que em nossa finitude temos apreendido a valorizar
a vida como nosso bem mais intenso e precioso, nos defrontamos com a
contracultura de humanos que tem como mais alto valor reverenciar a morte.
Não
seria um conjunto de preces para a deusa morte a defesa intransigente da desigualdade
social, desigualdade que hora a hora tortura indefesos seres humanos com a fome,
com a falta de habitação, negando-lhes saúde e educação e acima de tudo
roubando-lhes o direito a dignidade.
Agridem
o outro em nome de uma propriedade da qual o único direito que possuem é a
indevida usurpação e destroem vidas em nome desta farsa, como não ter minha
vida solidária destruída junto a dos irmãos espoliados, como aceitar que um
humano se ajoelhe perante a matéria sacrificando homens no interesse desta.
Nomeiam-se
como superiores por raça, por gênero, por sexo e por privilégios resultantes de
gerações de violência, acumulam armas, acumulam ódios, acumulam desprezo e de
posse destes malditos guardados distribuem morte injustamente amparados por legislações construídas contra o ser humano.
Inventam
deuses autoritários, egoístas, despóticos e vingativos como justificativa para
alimentar suas necessidades deformadas, justificando sacrifícios humanos em
nome de suas particulares verdades, no altar do sacrifício o que percebemos é
apenas sua incapacidade de aceitar a sua vocação em direção ao outro que nos
define, assassinados percebemos que há
muito são eles que já estão mortos como seres humanos.
Nossas
mortes nos tornam mais fortes, ressuscitamos sempre mais humanos, mais solidários
e mais colaborativos no rumo da construção de uma sociedade de homens livres o
destino utópico que nos é reservado.
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