Sobrevivente inadaptado
a realidade de ser amado pelo mundo, percorro a intimidade dos caminhos do gostar
despojado de retornos, me parece adequado e suficiente o amar sem o bônus de
ser amado, mesmo acreditando que só são reais relações partilhadas entre todos
envolvidos admito preferir o carinho despojado da necessidade de reciprocidade.
Sobrevivente o naufrago
do dilúvio por optar não partilhar da arca dos escolhidos, prefiro a serenidade
da morte que a caridade injuriosa da opressão de quem apesar de igual veste a superioridade
da compaixão e catalogando-me como coitado acaricia seu ego pretensamente superior.
Sobrevivente do
tempo onde às pessoas primam por exigir condições para partilhar vida e emoção eu
busco estabilizar uma relação na aceitação completa da independência dos seres participantes,
aceitando como do outro tudo que ele pode e quer ser, independente das minhas
necessidades específicas, que por sinal em tempo nenhum podem exigir o mínimo compromisso
deste.
Sobrevivente da
interpretação por nossos filtros individuais de cada atitude de outrem, encontro
o tempo para entender cada gesto como resposta a uma condição muito particular
de vida de quem o exerceu, longe de não ferir meus sentimentos luto
violentamente para ultrapassá-los na busca deste entender.
Sobrevivente de
uma geração incapaz de andar sozinho, portanto disposta a permanentemente
negociar rendição, não pretendo entregar-me nunca exigindo qualquer coisa que
seja senão o respeito ao que sou sem magoas acreditando sempre no meu bem
querer.
Sobrevivente de
uma sociedade onde vinga a balança das medições, eu não encontro em mim
qualquer definição de certo ou errado sobre o outro, sempre vejo um todo onde
nada há de mal nem de bem apenas o igual entre muitos iguais.
Sobrevivente dos rótulos e catálogos a definir por conceitos a mascara
de cada um, eu prefiro o rosto puro com suas rugas refletindo o aprendizado da
vida, amando seus vincos como pequenas verdades que me encantam, frente ao
verniz falso do montar-se para exercer fascínio.
Sobrevivente tão
somente por não ter medo de morrer, tanto no espírito do outro quanto muito
menos de cumprir meu destino de voltar ao pó, brigando com insistência em
manter o foco no presente, longe de um passado que na soma de suas magoas e ou
alegrias me vergue o dorso, bem como de qualquer sonho de futuro que comprometa
o meu agora manifestar-se pleno.
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