domingo, 4 de fevereiro de 2018

Sobrevivente

     Sobrevivente inadaptado a realidade de ser amado pelo mundo, percorro a intimidade dos caminhos do gostar despojado de retornos, me parece adequado e suficiente o amar sem o bônus de ser amado, mesmo acreditando que só são reais relações partilhadas entre todos envolvidos admito preferir o carinho despojado da necessidade de reciprocidade.

     Sobrevivente o naufrago do dilúvio por optar não partilhar da arca dos escolhidos, prefiro a serenidade da morte que a caridade injuriosa da opressão de quem apesar de igual veste a superioridade da compaixão e catalogando-me como coitado acaricia seu ego pretensamente superior.

    Sobrevivente do tempo onde às pessoas primam por exigir condições para partilhar vida e emoção eu busco estabilizar uma relação na aceitação completa da independência dos seres participantes, aceitando como do outro tudo que ele pode e quer ser, independente das minhas necessidades específicas, que por sinal em tempo nenhum podem exigir o mínimo compromisso deste.

     Sobrevivente da interpretação por nossos filtros individuais de cada atitude de outrem, encontro o tempo para entender cada gesto como resposta a uma condição muito particular de vida de quem o exerceu, longe de não ferir meus sentimentos luto violentamente para ultrapassá-los na busca deste entender.

     Sobrevivente de uma geração incapaz de andar sozinho, portanto disposta a permanentemente negociar rendição, não pretendo entregar-me nunca exigindo qualquer coisa que seja senão o respeito ao que sou sem magoas acreditando sempre no meu bem querer.

     Sobrevivente de uma sociedade onde vinga a balança das medições, eu não encontro em mim qualquer definição de certo ou errado sobre o outro, sempre vejo um todo onde nada há de mal nem de bem apenas o igual entre muitos iguais.

       Sobrevivente dos rótulos e catálogos a definir por conceitos a mascara de cada um, eu prefiro o rosto puro com suas rugas refletindo o aprendizado da vida, amando seus vincos como pequenas verdades que me encantam, frente ao verniz falso do montar-se para exercer fascínio.

     Sobrevivente tão somente por não ter medo de morrer, tanto no espírito do outro quanto muito menos de cumprir meu destino de voltar ao pó, brigando com insistência em manter o foco no presente, longe de um passado que na soma de suas magoas e ou alegrias me vergue o dorso, bem como de qualquer sonho de futuro que comprometa o meu agora manifestar-se pleno.

     Sobrevivente por apenas querer com vontade ser e ver os outros serem, contemplando-os com a alegria de curtir esta tão sua felicidade e tentando muito que possam vê-la em mim, enfim um sobrevivente destes mais de três mil anos onde o homem combate o homem.  

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