segunda-feira, 4 de julho de 2016

O Caminhante, no Império do medo.

     Era na Cidade Baixa nos descaminhos desse bairro em Porto Alegre o vi andando abraçado, ele e seu duplo nessa intuitiva atração apaixonada contraposta por uma perene repulsão lógica, vivenciando o discurso interno do qual não posso garantir a exatidão das palavras, por ser de memória, porém atesto o seu sentido e aqui o reproduzo como segue:

- “Você é a personificação do medo, tens pavor a todos os objetos pertencentes ao teu espaço visível ou não”, lhe dizia seu duplo no ponto cego do dobrar de uma esquina.

- “Como posso ter medo? Se o único que me podem tirar é a vida e para tal serão obrigados a me presentear com a morte!”, respondia-se a si mesmo com palavras fortes apesar da fumaça de tabaco que as embebia.

- “Medo dos objetos existentes no espaço a ti externo e que são em ti representados, sabes que são em ti imagens e amedronta-se por de fato não conhecê-los”, foi a nova provocação lançada por seu contraditório.

- “Tendo o homem imposto seu domínio sobre a natureza por certo não necessito do conhecimento prévio para entender que posso enfrentá-la em igualdade, logo qualquer medo só o seria por carga emocional e nunca por entendimento”, lembrando-se neste instante do seu medo infantil por baratas e ratos o que não evitava sua ação de exterminá-las a chineladas ou chutes certeiros.

- “Mas os seres humanos de ti estão afastados, observa-os, tangencia-os e sempre os mantêm a uma segura distância”, aproveitou-se o parceiro de caminhada da passagem de grupos de pessoas em algazarra para tentar acertar-lhe essa punhalada fatal.

- “Por certo me assustam os meus iguais, por aí sou obrigado a assumir o medo como real...”, sim tinha caído na armadilha, não conseguiria mais fugir desse tema e assim interrompe-se o diálogo transmutando-se para um monólogo interior como segue:

     “Se só aceito o bom contrato, aquele que deve ser assinado por pessoas livres e de porte igual, como não me submeter ao Império do medo se até hoje não encontramos instrumentos para avalizar a liberdade e o porte de um ser humano, se não admito ser bengala de ninguém, pois isso me coroaria com uma superioridade inaceitável em relação ao outro, também meu estado é de resistente rejeitando a priori qualquer possibilidade de domínio de outrem sobre mim.”

     Se eu continuo não sabendo colocar os substantivos e adjetivos que “definam o meu personagem” pelo menos o verbo exposto na ação relatada talvez forneça a matéria prima para que vocês próprios o possam pintá-lo e abusando de vossa paciência em breve continuarei...

                

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