Era na Cidade
Baixa nos descaminhos desse bairro em Porto Alegre o vi andando abraçado, ele e
seu duplo nessa intuitiva atração apaixonada contraposta por uma perene
repulsão lógica, vivenciando o discurso interno do qual não posso garantir a
exatidão das palavras, por ser de memória, porém atesto o seu sentido e aqui o
reproduzo como segue:
- “Você é a personificação do medo, tens pavor a todos os
objetos pertencentes ao teu espaço visível ou não”, lhe dizia seu duplo no
ponto cego do dobrar de uma esquina.
- “Como posso ter medo? Se o único que me podem tirar é a
vida e para tal serão obrigados a me presentear com a morte!”, respondia-se a
si mesmo com palavras fortes apesar da fumaça de tabaco que as embebia.
- “Medo dos objetos existentes no espaço a ti externo e que
são em ti representados, sabes que são em ti imagens e amedronta-se por de fato
não conhecê-los”, foi a nova provocação lançada por seu contraditório.
- “Tendo o homem imposto seu domínio sobre a natureza por
certo não necessito do conhecimento prévio para entender que posso enfrentá-la
em igualdade, logo qualquer medo só o seria por carga emocional e nunca por
entendimento”, lembrando-se neste instante do seu medo infantil por baratas e
ratos o que não evitava sua ação de exterminá-las a chineladas ou chutes
certeiros.
- “Mas os seres humanos de ti estão afastados, observa-os, tangencia-os
e sempre os mantêm a uma segura distância”, aproveitou-se o parceiro de
caminhada da passagem de grupos de pessoas em algazarra para tentar acertar-lhe
essa punhalada fatal.
- “Por certo me assustam os meus iguais, por aí sou obrigado
a assumir o medo como real...”, sim tinha caído na armadilha,
não conseguiria mais fugir desse tema e assim interrompe-se o diálogo
transmutando-se para um monólogo interior como segue:
“Se só aceito o
bom contrato, aquele que deve ser assinado por pessoas livres e de porte igual,
como não me submeter ao Império do medo se até hoje não encontramos
instrumentos para avalizar a liberdade e o porte de um ser humano, se não
admito ser bengala de ninguém, pois isso me coroaria com uma superioridade
inaceitável em relação ao outro, também meu estado é de resistente rejeitando a
priori qualquer possibilidade de domínio de outrem sobre mim.”
Se eu continuo
não sabendo colocar os substantivos e adjetivos que “definam o meu personagem”
pelo menos o verbo exposto na ação relatada talvez forneça a matéria prima para
que vocês próprios o possam pintá-lo e abusando de vossa paciência em breve
continuarei...
Editado em 10/07/2016.
ResponderExcluirEditado em 10/07/2016.
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