Mesa do bar seus
copos meio cheios meio vazios eternizados na disposição de cada gole, na
lucidez de cada argumento, assim se compunha o grupo, assim ele se dizia
presente, todo o tempo o percebi a transpirar o brilho do reencontro com a sua inocência
original, seu empenho na retórica era um mecanismo de defesa, todas as
conversas sobre o nada que em sua lógica de construções verbais sempre escondem
o que realmente é significante, vivia ele a convicção da existência dessa
deformação do espaço-tempo que não era o buraco negro engolidor de estrelas, mas
cada um dos companheiros de mesa verdadeiros buracos negros consumidores de
seres humanos em sua inocência personificando o próprio paraíso.
É certo que as
imagens pensadas na sua conversa interior e as expostas nas palavras moldadas a
partir de seus lábios para serem ouvidas têm praticamente nenhuma intersecção
possível, nada sugerem terem nascido da mesma autoria, em tudo representam a
coexistência de seres diferentes em um mesmo corpo, porém não percebi nenhuma
maldade nisso, ambas carregavam verdades em si mesmas apenas as interiores não
se expunham por saberem-se indesejadas de serem ouvidas.
Sei que estou
sendo indiscreto ao mostrar-lhes todas essas pistas, inclusive já os vejo a
apontarem-lhe o dedo na rua etiquetando-o com o rótulo da loucura, o que é
práxis comum nossa ao depararmo-nos com um ser humano que não entendemos, como
se assim o classificando teríamos o enigma decifrado e de desentendido em um
passe de mágica passaria a compreendido por ser insano.
Certo mal estar, não
é bem essa a palavra, mas uma sensação de estranhamento talvez defina melhor, assim
eu lia a expressão de quem com ele se encontrasse no exato momento de cada
aproximação, testemunho essa como a reação mais usual, o que o constrangia por
não conseguir evitar percebê-lo.
Para evitar essa
situação indesejável iniciou diminuindo as palavras e não satisfeito com os
resultados passou a encurtar significados, especializou-se em frases vazias e finalmente
em evitar encontros ao tentar passar despercebido, mas essa solução não lhe
satisfazia e desse impasse ocuparam-se as suas horas em busca do caminho da
realização de sua vocação social e aí estava eu torcendo por ele e nesse
momento no aguardo de seus próximos passos.
Não preciso lhes
dizer que não foi sempre assim que também vi muitas vezes em meio a multidões, participando
de grandes ou pequenos grupos, sendo parte ativa dos movimentos dirigidos na
ocupação do espaço que nos é concedido por direito, com objetivo de esticar os
limites da humanidade em todas as direções na busca de transcendência e
realização, sobra à interrogação de como será sua próxima onda.
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