sábado, 26 de setembro de 2020

Cartas Extraviadas - Para o Crente.

 

Em setembro, Porto Alegre 2020.

 

Caro Crente, tudo bem!

 

                Sempre que conversamos, agora ao escrever-lhe, me vem à mente o grande desencontro entre o que vives e o que sustenta seu viver, não lhe parece difícil compactuar com um permanente amém a princípios ditados por outrem o que a mim nega na prática a religiosidade.

 

                Quando vejo conceitos que não passam pelo seu próprio filtro pessoal serem assumidos como dogmas me entristeço pelo que representa de diminuição da humanidade a falta de exercício de liberdade que nos dá o livre arbítrio.

 

                Sempre penso em espírito livre como maior testemunho de fé do homem por si mesmo, se não testemunhas sua humanidade serves contra a comunidade de seres humanos e ao combater a si mesmo estais a combater a todos.

 

                Nunca lhe contestei o direito de unir-se a outros na busca de trabalhar conceitos espirituais, mas lhe combato sempre o ato de aderir incondicionalmente a verdades proclamadas como ato de fé.

 

                O próprio conceito de fé é inumano porque lhe tira o direito de determinar-se em nome de uma submissão intelectual a um conceito, quando sempre o soubemos os conceitos redefinem-se nas sucessivas máscaras do tempo.

 

                Não tenho pretensão nenhuma de influenciar-te nestas linhas, apenas me permito e me obrigo a comunicar-lhe o que penso pois senão incorro em erro comigo mesmo ao sonegar-lhe o meu conceito sobre a crença e a postura do crente.

 

                Não podemos começar nosso caminho seguindo pegadas pré-traçadas na areia, pois caminhadas às cegas são de fato negação da vida e nada pode sustentar como humano tal procedimento, não somos rebanho para seguir uma ovelha mestre.  

 

                Mais tranquilo por ter lhe exprimido meu pensar lhe desejo tudo do melhor, um abraço.

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